Coleção Líbero Luxardo – Projeto de Restauro

Em Agosto de 2007 o Museu da Imagem e do Som do Pará aprovou no Edital da Cinemateca Brasileira o projeto de restauro das obras em branco e preto de Líbero Luxardo. Foi o primeiro grande passo na preservação da obra do grande nome da história do cinema no Pará.

1. Descrição das Obras

O Museu da Imagem e do Som do Pará vem apresentar a esse edital a proposta de restauro dos seguintes títulos de seu acervo de películas da coleção Líbero Luxardo:

• “Homenagem Póstuma a Magalhães Barata”, local e ano de produção: Belém-PA, 1959; cine-jornal 16 mm; acetato; B/P; sonoro; 20 minutos. GT 2B;

• “Um Dia Qualquer…”, local e ano de produção: Belém-PA, 1962; filme longa-metragem em 16 mm; acetato; B/P; sonoro; 100 minutos. GT 2B, emendas em fita adesiva;

• “Marajó – Barreira do Mar”, local e ano de produção: Belém-PA, 1964; filme longa-metragem em 16 mm; acetato; B/P; sonoro; 80 minutos. GT 2B;

• “Belém 350 anos”, local e ano de produção: Belém-PA, 1965; cine-jornal 16 mm; acetato; B/P; sonoro; 10 minutos. GT 2B;

2. Histórico das Obras

Líbero Luxardo, o cineasta da amazônia

Existe um cinema paraense? Essa pergunta não teria resposta se feita nos dias de hoje, pois a maior parte da nossa população ignora que exista um cinema genuinamente paraense. Talvez, se fosse feita nas décadas de 50 e 70, certamente, a resposta seria sim. E um nome surgiria para representar essa arte: Líbero Luxardo. Sua determinação em realizar filmes superou todas as barreiras para imprimir na película seus ideais, sua paixão pela região amazônica, pelo Estado do Pará.

Líbero Luxardo foi o pioneiro na realização de longas-metragens no Pará. Realizou, entre as décadas de 1950 e 1970, dezenas de documentários jornalísticos (cine-jornais) e quatro longas-metragens, sendo até os dias de hoje os únicos filmes de longa duração realizados no Pará. Esta filmografia hoje faz parte do acervo do Museu da Imagem e do Som do Pará, sendo nosso mais importante patrimônio fílmico.

Paulista de Sorocaba, nascido a 05 de novembro de 1908, aprendeu a operar a câmera com o pai e o irmão, ambos fotógrafos e pioneiros do cinema no interior paulista. Foi assistente de câmera dos filmes que o pai fazia sobre eventos sociais e culturais de sua cidade, os quais exibia no cinema da cidade. É o ponto de partida de uma vida inteira dedicado ao cinema. Aventurou-se pelo Mato Grosso em uma expedição e lá conheceu Alexandre Wulfes, seu câmera no chamado “Ciclo Matogrossense” onde realizou filmes como “Alma do Brasil – Retirada da Laguna” (1932), e também, já com patrocínio da Cinédia de Adhemar Gonzaga, “Caçando Feras” (1936), uma comédia musical, e “Aruanã” (1938), misto de ficção e documentário sobre uma lenda indígena, todos clássicos do obstinado cinema brasileiro dos anos 1930.

Já em meados de 1940, realizando filmes sob encomenda, desembarcou em Belém para fazer a cobertura de um evento médico. Conheceu então personalidades do meio cultural e político da cidade, entre eles o então governador-interventor Magalhães Barata, de quem se tornou documentarista oficial.

Cine-Jornal – Homenagem Póstuma a Magalhães Barata (1959)

Líbero cobriu a vida política de Barata por mais de 10 anos. Do auge de sua popularidade até seus últimos dias e despedida, em um grande enterro que comoveu todo o Estado. Sua produtora a “Amazônia Filmes” registrou cerca de 10 anos de material político, que somado às comoventes imagens do funeral de Barata fez o média-metragem “Homenagem Póstuma a Magalhães Barata”, em 1959. É um dos documentos históricos mais importantes do Pará, pois retrata a vida do político mais popular de nossa história política. Uma obra que nas entrelinhas mostra um Pará de contrastes e de uma certa inocência, devido ao tradicionalismo do caudilho.

O cineasta parte então para a execução de projetos mais ambiciosos. Foi quando em 1962 reuniu capital utilizando de sua influência política e suas próprias reservas, elenco amador e um argumento de sua autoria pra realizar o primeiro longa-metragem de ficção da história do Pará: Um Dia Qualquer….

Um Dia Qualquer… (1962)

Já no inicio da filmagens de “Um Dia Qualquer…”, em 1962, a cidade de Belém em grande expectativa. Os críticos à principio torceram o nariz, pois um paulista chegava pra filmar Belém com a pretensão de narrar nosso cotidiano. Líbero escalou o advogado Hélio Castro e a bela Lenira Guimarães como os protagonistas de uma história que se desdobrava em outras em apenas um dia. Líbero conseguiu introduzir em “Um dia qualquer…” todas as paisagens marcantes de Belém: Ver-O-Peso, Avenida Presidente Vargas, Praças da República e Batista Campos, Igreja do Carmo, Maloca, entre outros. Além também de manifestações culturais como o Círio de Nazaré, hoje uma procissão com milhões de devotos, Boi-Bumbá e um culto de Tambor de Mina.

O professor Carlos, interpretado pelo advogado e ator amador Hélio Castro, perde sua esposa e passa a vagar pela cidade em um dia qualquer. Essa história principal cede espaço para outras histórias se desenrolarem, com alguma ou nenhuma ligação com a trama principal. Uma obra com pretensões filosófico-existenciais, buscando referências diversas como o Neo-Realismo e a Nouvelle Vague, que causou furor na sociedade belenense com cenas de nudez e violência. Todas essa tramas de alegria e tristeza são embaladas pela músicas do maestro Waldemar Henrique como “Tamba-Tajá” e “Uirapurú”.

O filme teve um lançamento “hollywoodiano” no Cinema Olympia e carregado de expectativas, mas as crítica e o público não foram muito favoráveis. O filme apresentava, segundo os críticos, um série de “defeitos”, como descontinuidade em algumas cenas, ritmo irregular e diálogos que fizeram a intelectualidade paraense se manifestar indignada. Passados mais de 40 anos de sua produção a nostalgia que o filme transmite passa por cima de tudo e faz de “Um dia qualquer…” um marco do cinema em uma região tão carente de investimentos em manifestações artísticas.

Marajó – Barreira do Mar (1964)

Logo que chegou no estado do Pará, na década de 40, Luxardo iniciou um roteiro chamado “Amanhã nos encontraremos”, do qual também fez algumas cenas na Ilha do Marajó. O projeto foi interrompido pela 2ª Guerra Mundial, período de escassez de películas cinematográficas. No ano de 1963, depois de haver realizado “Um dia qualquer..”, juntando quase toda a equipe técnica e elenco deste, mais o material do projeto interrompido, realizou o filme “Marajó – barreira do mar”.

Totalmente rodado em locações na Ilha do Marajó, com algumas cenas iniciais em Belém, sem nenhuma cena em estúdio. Todo o elenco e equipe mudou-se durante cerca de três meses para a Fazenda Livramento, típica fazenda de búfalos marajoara. Lá desenvolveu o enredo do arqueólogo que pesquisa sítios marajoaras, e se hospeda na fazenda onde outras histórias de amor e ódio se desenrolam. Uma espécie de faroeste amazônico em uma das paisagens mais exóticas do Pará. É um dos raros registros do dia-a-dia da ilha neste período e do funcionamento de uma típica fazenda da Ilha, com Casa Grande, vaqueiros e as grandes regiões alagadas, cercadas de mitos e lendas. Um ponto importante a se ressaltar são os solos de violão compostos por Sebastião Tapajós, paraense e hoje um dos maiores violonistas do mundo.

“Marajó” é segundo filme do denominado “Ciclo Amazônico” de Líbero, onde ainda seriam realizados “Um Diamante e Cinco Balas” em 1968 e “Brutos Inocentes” em 1973, já em película colorida de 35 mm. “Um Diamante e Cinco Balas” foi perdido e dele só restam o roteiro e algumas fotos de produção, e “Brutos Inocentes” está conservado na reserva do MIS-Pará em cópia restaurada nos anos 1990.

Cine-Jornal – Belém 350 anos (1965)

No ano de 1965 Belém do Pará completava 350 anos, e a produtora de cine-jornais de Líbero, Amazônia Filmes, não podia deixar passar me branco. Junto com seu cinegrafista Milton Mendonça, que mais tarde o sucederia na realização destes cine-jornais, fizeram um filme homenagem a esta Belém “metrópole” e seus “grandes arranha-céus” que ainda guarda suas “suntuosas construções seculares”. Praças, clubes, monumentos, tudo que Belém tinha e ainda tem de bom, nos dando a oportunidade de fazer uma viagem no tempo, percorrendo uma Belém da memória. O próprio Líbero e a estrela de “Marajó”, Lenira Guimarães, aparecem neste filme, fazendo a divulgação do filme longa-metragem do cineasta para empresários locais.

3. Acervo de películas do MIS-Pará

Todos estes títulos listados pertencentes a Coleção Líbero Luxardo estão armazenados na reserva de películas do MIS-Pará. Estão higienizados, identificados e catalogados, depositados em um espaço desumidificado e refrigerado permanentemente.

4. Considerações finais

Em 2008 será comemorado o centenário de nascimento de Líbero Luxardo e este projeto é a uma justa homenagem para este que é nosso mais importante realizador. A aprovação no “Programa de Restauro da Cinemateca Brasileira”, para obtenção de uma cópias novas dos filmes em película e em mídia digital, proporcionará a difusão desses títulos para que possamos salvaguardar os originais em película sem que a sociedade se prive de seu relevante conteúdo.

Bibliografia

Veriano, Pedro. (Coord.) A Crítica de Cinema em Belém. Secretaria de Cultura, Desportos e Turismo. 1983.

Veriano, Pedro. Cinema no Tucupi. Secult. 1999.

Veriano, Pedro. Fazendo Fitas. EDUFPA. 2006.

Acervo da Cinemateca Brasileira

Acerdo da Academia Paraense de Letras

Fonte: Overmundo

Um dia qualquer… – de Líbero Luxardo

Um dia qualquer, 1965

Ficha Técnica:
Produção: Líbero Luxardo e Teixeira de Melo
Direção e Argumento: Líbero Luxardo
Fotografia: Rui Santos
Câmera: Meldy Melinger
Sng: João S. Nunes
Cenografia: Hélio Alencar
Montagem: João Silva
Música: Waldemar Henrique
Canções: Pixinguinha;
Companhia Produtora: Líbero Luxardo Produções Cinematográficas
Distribuição: U. C. B. – União Cinematográfica Brasileira
P/B; 35mm;
Duração: 100 minutos
Gênero drama.
Elenco: Lenira Guimarães, Hélio Castro, Gelmirez Melo e Silva, Conceição Rodrigues, Raimundo Silva, Eduardo Abdelnor, Cláudio Barradas, Maria Gracinda, Luiz Mazzei, Zélia Porpino e Coral Universitário do Pará, com regência de Nivaldo Santiago.
Sinopse: Carlos é casado com Maria de Belém e, ao perder a esposa, que morre ao dar a luz o primogênito do Casal, passa a vagar pela cidade de Belém, num dia qualquer. As imagens se sucedem contando o cotidiano da cidade, nos Bares (A Maloca – onde acontece a cena de estupro), nos tipos de transporte urbano – onde se vê o transito da
Av. Pres. Vargas, invertido, as praças da República e Batista Campos, igarapés próximos da cidade, a feira do Ver-O-Peso, o cemitério da Soledad, a igreja do Carmo e um terreiro de umbanda.