Cine Ópera: o Bonzão-Bonitão

Localizado em pleno Largo de Nazaré, a 100 metros da Basílica que é o local de chegada da maior procissão católica do Brasil, está localizado um dos nossos últimos cinemas de rua, o Cine Ópera. Agora restritos aos shoppings os cinemas estão bem mais confortáveis, com melhor projeção e som,  mas perderam a identidade e a memória. Apesar da programação de filmes pornô e de ter se tornado um “inferninho” ainda é um símbolo de resistência de uma era. Casos semelhantes aconteceram no Brasil inteiro, no Centro Histórico  de São Paulo, por exemplo, existem muitos.

Achei uma citação engraçada do Marco Antonio Moreira que já prenuncia um cinema mais arejado e informal:

Era tão grande o calor nas tardes úmidas e quentes dos trópicos que era comum as pessoas tirarem a blusa nos cinemas, e justificava a piada feita por Alexandrino Moreira, dono de cinema, sobre o que é ser um cinemaníaco. Era justamente ir à tarde ao cine Ópera (sala recentemente inaugurada) para assistir “A Vida de Cristo”, de Ferdinand Zecca.

O Cine Ópera é tema de uma bolsa de experimentação artística do IAP proposta pelo artista visual Victor de la Roque, que pretende defender a proposta atual do Cine Ópera como relata no comentário que fez em um post no blog:

“[…] Ele é um cinema sim, marginal, e que vive no centro da nossa cidade. É importante ter muito cuidado com nossos conceitos do que é ou não um cinema seja ele pornografico ou não, afinal a sexualidade também faz parte da formação cultural de um povo. Dentro da pesquisa que venho desenvolvendo ao longo destes anos, percebo que ÓPERA é sim um cinema, expandido no literal explícito, que ultrapassa a simples “ficção” da tela, tornando-se no próprio filme onde os protagonistas e coadjuvantes são seus freqüentadores que gozam de um espaço de convivência no interior dele. E acho sim, INVEJÁVEL, a riquíssima reserva técnica do ÓPERA, com filmes pornográficos em película, como o primeiro filme pornô produzido no Brasil em 1981 e exibido em 1982 chamado “Coisas Eróticas”… sem mais, nem preconceitos e preciosismos. […]”

Podemos gostar ou não da proposta do Cine Ópera mas não podemos deixar de agradecer ao proprietário por conseguir mantê-lo aos trancos e barrancos. Quem gosta frequenta, tem quem goste até de filme de zumbi.  Muitos anos ao Bonzão-bonitão.

Imagens: Júnior Eubelém via Instagram

 

Conheça aqui o filme de Victor de La Roque.