Um mestre do cinema no Pará

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O crítico de cinema Marco Antonio Moreira defendeu sua dissertação de mestrado no Programa de Pós-gradução em Artes do ICA-UFPA em que narra a vida de seu pai, o exibidor e crítico Alexandrino Moreira, que teve a vida ligada a exibição do cinema em Belém, em cineclubes e em sua rede de cinemas que deixou saudade. A banca foi formada pela orientadora Bene Martins, Maria Luzia Álvares e Joel Cardoso e teve como local da defesa o Cine Oympia onde Marco é o programador. Parabéns Marco Antonio, estamos ansiosos para ler e divulgar seu trabalho que foi indicado pela banca para publicação integra.

Cine Olympia espera processo de tombamento

Era uma vez a Belle Époque. A ‘era dourada’ que iluminava a capital paraense com a cultura européia e dos trópicos, tinha como seus principais pilares as belas construções e conjuntos arquitetônicos aonde a intelectualidade aflorava. Um dos locais mais ‘badalados’, o entorno do Theatro da Paz, na Avenida Presidente Vargas com seus túneis de Mangueiras, com a imponente casa de ópera de um lado, e o Grand Hotel de outro, tinha ainda um belo cinema completando o quadro.

Com a influencia da arquitetura Art Deco, o Cine Olympia foi inaugurado no dia 24 de abril de 1912, durante o governo de Antônio Lemos e era ponto de encontro, aonde o luxo e o requinte do espaço combinavam em perfeita harmonia com a sofisticação da fervilhante sociedade paraense. Era um período rico em diversos aspectos, e o Cinema Olympia projetava sonhos, filmes de Chaplin, Greta Garbo e Rodolfo Valentino enquanto as damas e cavalheiros se encontravam pelos corredores usando seus melhores trajes.

Meta é trazer de volta os dias de glória

O tempo passou, a paisagem foi se modificando e o que resta do então glorioso entorno, são o Theatro da Paz e o Cine Olympia. Tombado, o Theatro é uma das ‘menina dos olhos’ do governo estadual, que na atual gestão realizou uma portentosa – e necessária reforma e manutenção no local. O Olympia, ameaçou não sobreviver até a chegada de seu centenário. Com inúmeras dificuldades e a administração claudicante do grupo Severiano Ribeiro, o cinema quase fechar as portas em 2006. Protestos de artistas e agitadores culturais fizeram a prefeitura assinar um contrato de locação do espaço, que ainda carece de verba e de reconhecimento da sua importância histórica, merecendo ser um cinema equipado e restaurado.

Tombar para manter

Mas, ao que tudo indica, a prefeitura de Belém (através da Fumbel) está comprometida e em contagem regressiva para tomar conta do Olympia e devolvê-lo a glória do passado. Autor do projeto de tombamento do cinema – que desde agosto de 2011 vem tramitando por diversas comissões na câmara e foi aprovado por unanimidade pelos vereadores -, o vereador Abel Loureiro explicou que, a partir da publicação em Diário Oficial, a prefeitura municipal de Belém poderá desapropriar o imóvel, evitando uma futura alienação do bem a terceiros que poderão descaracterizar os traços culturais e históricos do cinema e assim considerá-lo Patrimônio Histórico e Cultural de Belém, garantindo a sua preservação.

O presidente da Fumbel, Carlos Amilcar, contou que especialistas do departamento de patrimônio histórico estão fazendo estudos e pesquisas para verificar se, além de ser o cinema mais antigo em funcionamento no país, o Olympia pode ser a casa de exibição audiovisual mais antiga em funcionamento no mundo, o que valeria um registro no Guiness Book – o livro dos recordes. “Talvez seja o cinema mais antigo do mundo, tem um na França que foi inaugurado antes mas ficou um tempo sem funcionar durante a guerra. O Olympia nunca parou de funcionar, fez apenas alguns intervalos na programação para reformas”, contou Amilcar, que acrescentou que desde que a Fumbel assumiu a administração a fachada do cinema foi revitalizada e benfeitoras foram feitas, como a revisão da cobertura de instalações elétricas e da estrutura hidráulica.

“Sabemos que o cinema precisa urgentemente de reformas e de trocas como a do sistema de refrigeração, está tudo orçado, mas só podemos fazer isso quando o processo estiver concluído e buscando obedecer a lei de conservação junto com o Iphan e DPac. Em dezembro do ano passado o cinema recebeu uma pintura completa. Como é um espaço público não cobramos ingresso, mas creio que o maior problema que enfrentamos em termos de programação e captação de platéia e com os filmes, por que só podemos alugar cópias em 35 mm, e a maioria dos filmes hoje vem em cópias digitais”, informou Amilcar.

Futuro projetado

“Há exemplos de antigos cinemas no país e mesmo aqui na cidade, como o Cine Palácio, que sofreram transformações de uso, como para templo de culto religioso no caso citado. A própria localização está propícia à especulação, já que faz parte de uma área de potencial zona de comércio e serviços, ao lado de grande loja nacional, além de outros tipos de empresas e comércios, como bancos e afins, principalmente devido à sua acessibilidade para um grande público diário nas redondezas” explicou Abel Loureiro, no dia da sessão na qual o projeto de lei foi aprovado.

Para Amilcar, a obrigatoriedade do Cine Olympia estar vinculado apenas à reprodução de filmes como sua principal atividade, é algo que está muito claro para prefeitura de Belém. “O prefeito está sancionando a lei para que ele se torne nosso patrimônio, e quando esse processo for concluído não permitiremos possíveis mudanças futuras de atividade. Estamos com um planejamento pronto de revitalização e manutenção do espaço, e queremos dar de presente um projetor digital quando completar cem anos em Abril, tudo para que o Olympia seja intocável, conservado e usado como cinema”, frisou.

Segundo ele, entre as atividades e projetos para celebrar o centenário cinema, está previsto um evento grandioso no dia 24 de abril, que já conta com a mobilização da cena cultural de Belém. “Estamos criando na Fumbel uma comissão para trabalhar em cima das ações do centenário. Temos artistas como Fafá de Belém que demonstrar o maior interesse em fazer parte e mobilizar cineastas de fora para virem prestigiare participar de um evento eclético que terá uma exposição e exibições; a Luzia Miranda e o Pedro Veriano estão organizando um livro que contam a história do cine Olympia, patrocinado pela Lei To Teixeira; e vamos fazer exibições de filmes emblemáticos que passaram nesses cem anos”, contou o presidente, que mostrou uma série de catálogos de espaços como do Palacete Pinho e do Mube, e cujo próximo tema deverá ser o cinema.

Gerente do cinema há cinco anos, Nazaré Morais garantiu que boa parte da programação alusiva ao centenário do Olympia já está fechada: “Estamos planejando desde metade do ano passado as ações, sendo que a primeira foi o relógio de contagem regressiva no site, com apoio da Sol Informática, e o livro “100 anos da história social de Belém”, falando sobre o cinema, que está sendo escrito pela Luzia Miranda e o Pedro Veriano. E em parceria com a Associação de Críticos de Cinema do Pará, vamos realizar um seminário intitulado ‘O primeiro século do cinema Olympia – história e perspectivas’ de 20 a 22 de abril, com o apoio da Universidade Federal do Pará”.

Marco Antônio Moreira, programador e membro do comitê gestor do Cine Olympia, enfatizou que programações alusivas ao centenário vem acontecendo desde o inicio de 2012. “Fizemos a Mostra do Mazzaropi, que já esteve várias vezes na tela desse cinema e a Mostra Cinema e Carnaval com muitos filmes que já passaram aqui também. A partir do dia 26, iniciamos a mostra de filmes do Eryk Rocha, que é filho do Glauber Rocha e tem obras significativas, e faremos inclusive o lançamento do ‘Transeunte’, o primeiro filme de ficção dele”. Para Moreira, a mobilização entre artistas tem sido intensa, com muita gente querendo colaborar com o centenário.

Fonte: Diário do Pará

“Filmes, Cinemas e Documentários no fim da Belle Époque no Pará (1911-1914)” de Pere Petit

 

 

 

Esse é o principal objetivo das próximas páginas nas quais pretendemos sintetizar alguns dos resultados da pesquisa atualmente em andamento, intitulada Contribuição ao Cinema Paraense do Cineasta Catalão Ramon de Baños no fim da Belle-Époque Belemense (1911-1913). Esta pesquisa, ainda que esteja focalizada nos anos que Ramon de Baños residiu em Belém, também pretende contribuir ao conhecimento do primeiro período da história do cinema paraense (ou “tempo dos Pioneiros”), fase que denominamos de Cinema Ambulante e Sazonal, isto é, desde a primeira exibição de material cinematográfico realizada em Belém, dezembro de 1896 até 1910.

Pere Petit, Professor da Faculdade de História da UFPA, doutor em História Econômica pela USP, mestre pela Universidad Central de Venezuela, formado em História Contemporânea pela Universitat de Barcelona

Imagem: Ramon de Baños

Cine Olympia se torna patrimônio histórico de Belém

Projeto de autoria do vereador Abel Loureiro (Partido dos Democratas), aprovado nesta quarta-feira (8), no plenário da CMB, transforma o centenário Cine Olympia em Patrimônio Histórico e Cultural do Município de Belém. O projeto também autoriza a prefeitura a efetivar a desapropriação do imóvel sede do cinema, que pertence à família de Severiano Ribeiro. “O Cine Olympia é um tesouro para a nossa cidade. É referência dos tempos áureos do Ciclo da Borracha e é o cinema mais antigo do Brasil ainda em funcionamento”, informou o vereador Abel Loureiro.
De acordo com o projeto, a prefeitura também ficará responsável em promover, garantir e incentivar a preservação, conservação, proteção e o tombamento do Cine Olympia, que também passará a ser exclusivamente e definitivamente um centro de exibição de obras audiovisuais. “O Cinema Olympia sempre será ícone da sétima arte em Belém e é um monumento artístico para a nossa cidade”, concluiu o vereador.

HISTÓRIA

Olympia de Belém é considerado o cinema mais antigo em funcionamento no País desde que se considere que sempre esteve no mesmo lugar e não parou as suas atividades por muito tempo. Mesmo assim, a sala foi fechada no dia 16 de fevereiro de 2006 pelo seu atual proprietário, Luis Severiano Ribeiro Neto. A alegação foi de que dava prejuízo. Mas a queda de freqüência a cinema nos dois últimos anos não é um fenômeno isolado e sim internacional. E não é inédito nem se pode dizer irreversível. São muitas as crises que atingiram as salas exibidoras ao longo dos anos, como a do inicio da década de 50 quando a televisão ameaçou a exibição cinematográfica de tal forma que foi preciso apelar para recursos técnicos como o cinemascope, o vista-vision, o cinerama, uma série de processos que aumentaram o tamanho da imagem e com isso passaram a concorrer com o novo meio de expressão.

O Olímpia foi fundado no dia 24 de abril de 1912 pelos empresários Carlos Teixeira e Antonio Martins, donos do Grande Hotel (onde hoje está o Hilton Hotel) e do Palace Theatre (na mesma quadra). Eles queriam fazer do cinema um ponto “chique” para atrair os freqüentadores do Theatro da Paz e, obviamente, os hóspedes de seu hotel.
Uma das atrações foi a colocação da tela logo na entrada, com os espectadores passando pelas laterais.
No fim dos anos 30 a empresa Teixeira & Martins não suportou os encargos financeiros e vendeu o cinema, e outros que controlava, ao banqueiro Adalberto Marques. Criou-se a “Cia. Cinematográfica Paraense Ltda”. Uma firma de vida curta. Em 1946 Marques vendeu todos esses cinemas ao exibidor cearense Luís Severiano Ribeiro, já dono de salas em diversos Estados.

 

Em 1953 os estudantes de Belém encabeçaram piquete para a reforma do Olimpia, bastante deteriorado na época. Severiano Ribeiro respondeu comprando um terreno na Av, Nazaré e anunciando que ali construiria o Cinema S. Luís “o maior do norte do Brasil”. Mas não só o novo cinema ficou nisso como o Olimpia permaneceu maltratado. Só em 1960, depois de inaugurado nove meses antes o cinema Palácio, é que recebeu os requisitos de conforto como poltronas estofadas e ar condicionado.

No correr dos anos pouco se fez pelo prédio e suas instalações. Durante o tempo em que gerenciou a empresa Ribeiro, o sr. Adalberto Augusto Affonso foi incansável pedindo recursos para mantê-lo digno de uma tradição. Hoje o cinema atravessava uma fase sem brilho, embora ainda atraísse os fãs. Depois da medida extrema de Ribeiro Neto, o prefeito Duciomar Costa resolveu atender aos apelos da sociedade que compareceu em massa à sessão de despedida, assinando um contrato com o proprietário da casa para mantê-la, por três anos, como espaço cultural.

FONTE: CMB / Cine Olympia

O fim de todos os cinemas de rua, que pena! – por José Carneiro

O fim de todos os cinemas de rua, que pena!

José carneiro

 

Belém foi marcada por grandes cinemas, mas hoje só há salas em locais fechados

Já é uma realidade insofismável (sem ser novidade) que os cinemas de rua em Belém são uma espécie completamente extinta, jazendo sepultada nos desvãos da história. Oxalá eu pudesse provar, para mim mesmo, que estou enganado. Infelizmente não estou e por isso me aflijo. E escrevo!

Neste mês de abril o Cine Olímpia completaria 96 anos como o cinema mais antigo do Brasil em funcionamento. Mas, lamentavelmente, ele o deixou de ser no ano de 2006, precisamente no dia 16 de fevereiro, às 22 horas, quando projetou a última sessão cinematográfica de sua história e, ao final dela, cerrou as portas para sempre. A empresa ‘Luiz Severiano Ribeiro’, uma das maiores exibidoras cinematográficas do país, dona do prédio e responsável pela programação da sala, diante dos prejuízos sucessivos que não conseguia evitar, optou pela solução de mercado, deixando de lado, por razões óbvias, a tradição cultural, a história e, quiçá, a memória. Nada conseguiu salvar o Olímpia dessa ruptura com o seu passado e com o título de antiguidade que ostentava.

Sobre as cinzas da tradição do Olímpia, a Prefeitura de Belém tentou edificar uma nova história para a sala exibidora, primeiro alugando o prédio e, em seguida, criando uma espécie de centro cultural para várias finalidades, incluindo a exibição de filmes, gratuitamente. Está claro que o Olímpia, com sua programação normal de exibição, definitivamente já não existe e o ‘mocinho’ não chegou ao final do ‘roteiro’ para salvá-lo. A manutenção da atual proposta, que por enquanto ainda agrada aos ‘Severiano Ribeiro’, é tão imprevisível quanto a quantidade de chuva que tem caído recentemente em Belém. Naquele inglório dia do fechamento do Olímpia, dirigi um documentário sobre a triste data, minha contribuição pessoal à memória desse ícone da sétima arte que Belém e o Pará perderam.

Pouco depois a empresa, pelas mesmíssimas razões, encerrou as atividades dos cines Nazaré 1 e 2 (este o antigo Cine Iracema). Aqui ela nem sequer anunciou a última sessão, como fez, usando de discreta elegância, em relação ao Olímpia. Apenas, para iludir o público, colocou nos letreiros a frase ‘fechado para reforma’, engodo que durou quase um ano de espera, quando finalmente ela cedeu à proposta feita por uma rede de magazines. Alguns anos antes haviam surgido quatro salas exibidoras, que pouco duraram, caso dos Cines Doca 1 e 2 e os Cines Castanheira 1 e 2. Essas salas foram iniciativas pessoais do empresário Alexandrino Moreira, um banqueiro apaixonado pelo cinema, que ajudou a modernizar o ambiente exibidor de Belém. Além desses, ele havia implantado os cinemas Um, Dois e Três, hoje arrendados para a Moviecom, pouco antes de seu falecimento. Alexandrino Moreira já vinha sentindo os efeitos deletérios da crise e não via saída para os seus cinemas senão vender os prédios, ou arrendá-los. Ele nunca escondeu isso e me falou, abertamente, numa entrevista. As salas já mudaram de nome e brevemente mudarão de lugar.

Crise atingiu primeiro os cinemas de bairro

O último exemplo de fechamento de cinema em Belém é o do Ópera, vizinho dos Cines Nazaré. O Cine Ópera já encerrou suas atividades de exibição cinematográfica como era previsível, embora de forma imperceptível, pois o grande público de cinema não mais freqüentava a sala inaugurada em 1961, como me apresso a explicar, antes de ser contestado. O Cine Ópera conservou, até recentemente, um galardão nada invejável de ser o único cinema do Brasil a exibir, em película, filmes pornográficos. Os raros cinemas que ainda resistem utilizam o sistema digital. Com o fim das distribuidoras desse gênero, o Ópera adquiriu as últimas fitas remanescentes e, com esse material mais do que surrado (e canibalizado), ficou projetando repetidamente partes misturadas dos vários filmes existentes. Para os atuais espectadores do cine Ópera, o que menos interessa é o que está sendo exibido e não preciso dizer mais nada. Quero me ater ao fato de que, com programação regular, o cine Ópera deixou de ser sala exibidora de filmes. Ou, para ser mais claro, deixou de ser cinema.

Na linguagem da exibição cinematográfica, havia o cinema de bairro, considerado de segunda linha, uma sala que aguardava os lançamentos nos cinemas do centro para só depois exibi-los. E estes foram os primeiros atingidos pela crise, começando a fechar muito antes que os cinemas do interior. A evolução da grave crise na exibição cinematográfica criou os cinemas de Shopping, salas menores, modernas e confortáveis, menos dispendiosas e exclusivas para os lançamentos, surgidas na esteira das várias fórmulas adotadas no intuito de atrair os espectadores que fugiam paulatinamente das bilheterias. Esta foi a melhor arma utilizada pelo grande exibidor para fazer frente à evasão do público que ameaçava extinguir a atividade. Mas no interior do Pará não sobrou nenhuma sala exibidora, de tantas que existiram. E também aqui estou oferecendo minha contribuição, pois está em fase de acabamento meu livro sobre a extinção dos cinemas no interior do Pará, no qual historio o surgimento, crescimento e esse total declínio, com suas várias causas e iguais conseqüências.

Fonte: Cinema no Tucupi, Pedro Veriano

Fonte: Cinema no Tucupi, Pedro Veriano

Ao longo do tempo, a capital do Pará foi relativamente pródiga em salas exibidoras de filmes e sempre valerá a pena uma revisita memorialistica a elas. Vou mencioná-las como homenagem póstuma de um apreciador de seus produtos em película, que embalaram os sonhos de muitos e cuja ausência tanta falta faz à nossa paisagem física e cultural. Cada cinema teve sua história particular, ligada à origem familiar, ao desempenho comercial, às diversas relações com o público, assuntos para muito mais espaço além do que eu disponho. Pelo menos três livros registram as salas exibidoras que existiram em Belém. O primeiro é ‘Cinema no Tucupi’, (Belém. Secult. 1999), de Pedro Veriano, este certamente o maior cinéfilo do Estado e um dos principais do Brasil. O médico Pedro Veriano respira e transpira cinema em todas as horas do dia, exceto quando está dormindo. Apaixonado pela sétima arte, Veriano sempre foi uma voz e uma pena vibrantes em defesa da exibição cinematográfica. O segundo é ‘Ritmos e Cantares’, (Belém. Secult. 2000), do também médico Alfredo Oliveira, mais memorialista do que cinéfilo, que procurou memorizar os cinemas que povoaram toda a sua infância e adolescência no Pará. O terceiro é ‘A Cidade Transitiva’ (Belém. Imprensa Oficial. 1998) do economista Armando Mendes, que recorda, sem aprofundar, os principais cinemas da capital numa certa época. Esses livros representam memorialística refinada, no meu entender.

Cine Palácio foi o maior e mais luxuoso de Belém

O Cine Palácio encabeça esta lista, que não é pequena e pode, eventualmente, conter alguma lacuna, facilmente corrigível com a ajuda dos leitores. O Cine Palácio, que hoje é um templo religioso (mesmo destino de boa parte das grandes salas exibidoras do Brasil), inaugurado em 1959 foi o maior e mais luxuoso cinema de Belém.

Os cines Moderno e Independência foram propriedades de uma empresa que também distribuía filmes, a Cardoso & Lopes, e durante muitos anos atendeu aos cinemas do interior. Ainda em Nazaré, o Cine Poeira antecedeu o Cine Nazaré, no mesmo lugar.

Na Cidade Velha havia o Guarani e o Universal, no Reduto o Íris, na Praça Brasil primeiro surgiu o São João e depois o Cine Art. No bairro da Pedreira existiram o Paraíso e o Rex, depois transformado no Vitória. Na Sacramenta, o Brasilândia funcionou por poucos anos apenas.

Alguém lembra do Cine Marambaia? Funcionou por algum tempo na avenida Dalva, de forma precária, fruto do interesse pessoal de seu proprietário, um funcionário dos Correios.

Na Base Naval havia o Cine Guajará, que por um período foi aberto ao público, com programação alternativa organizada pelo dr. Pedro Veriano e na Base Aérea o Cine Catalina, administrado pela própria Aeronáutica. Icoaraci chegou a dispor de dois cinemas, o Cine Ipiranga e o Cine Jóia. O distrito de Mosqueiro também teve experiência com a exibição de iniciativa do sr. Odilardo Mescouto, e por fim sob a responsabilidade de Pedro Veriano, que relata em seu livro o sacrifício que enfrentou para manter precariamente a sala exibidora.

Ainda em Belém, há registros do Cine Aldeia do Rádio, no Jurunas, que exibia filmes apenas uma vez por semana e na bitola de 16 milimetros, que era uma alternativa relativamente barata, em relação às películas de 36 mm; do Cine Tamoios, no bairro de Batista Campos; do Cine Rian, em Canudos; do Cine Guajará, na Duque, e do Paramazon, na Travessa Piedade, que também só exibia películas em 16 mm. E cujo prédio ainda existe por lá.

Esses nomes são símbolos que representam os vestígios de uma atividade que teve seu esplendor e que desapareceu, ou se transformou. Mais surpresas a exibição cinematográfica ainda nos reserva para um futuro próximo. Ou, simplesmente, para a memória.

* O autor é cientista político, jornalista e professor aposentado da UFPa, e agora passa a publicar esta seção aos domingos.

 

jqcarneiro@uol.com.br

Fonte: Portal ORM