“A CAUDA LONGA DOS CURTAS: FORMAÇÃO DO CAMPO DA ANIMAÇÃO NO PARÁ” POR ANDREI MIRALHA /// III SPAA

A CAUDA LONGA DOS CURTAS: FORMAÇÃO DO CAMPO DA ANIMAÇÃO NO PARÁ

Andrei Miralha

INTRODUÇÃO

A palavra animação provém do termo latino “anima”, que significa “alma”, no sentido de “sopro da vida”. Segundo Perisic (1979), a animação é uma maneira de se criar uma ilusão, dando “vida” aos objetos inanimados – objetos reais/virtuais ou simplesmente desenhos feitos a mão livre ou no computador. A linguagem da animação, em sua técnica e estética, possui grande empatia com o público de diversas idades, e, mais especificamente, com as crianças, principalmente por seu caráter fantástico e lúdico, em que tudo se torna possível (DUARTE, 2005). Na animação, animais podem falar, árvores e plantas podem bailar ao som de uma canção tocada pelo vento e o sol, depois de um dia de muito trabalho, pode deitar-se no horizonte quando a noite chega. 

Ressalto a importância de classificarmos a animação como técnica e estética e não como gênero dramático, como comumente fazem. Consideramos gênero, o que se classifica como terror, comédia, aventura, drama, etc. A animação afirma sua importância na constituição do imaginário, quando cria um jogo lúdico de imagens que torna possível toda uma poética de múltiplas significações. Porém, todas essas possibilidades criativas, só foram possíveis graças aos avanços tecnológicos que, inicialmente, se desenvolveram analogicamente e mais recentemente pelos meios digitais. 

Cada nova idéia, cada louca invenção dispara a criatividade de tantos artistas, que logo dão um jeito de usar tudo para criar arte e diversão para as pessoas. Nascida e criada no casamento de máquinas e desenhos, invenções e histórias, pesquisa e criatividade, a animação está sempre crescendo e se renovando, na velha e nova casa do homem, na rua da curiosidade, no tempo sem-tempo do encantamento e da imaginação… (COELHO, 2000, p. 43).

Desenho histórias em quadrinhos desde a infância e na adolescência participei de um grupo de quadrinhos chamado “Ponto de Fuga”. Passei a me envolver com animação desde 2001, quatro anos depois de me formar em arquitetura e urbanismo, quando fui indicado pela Fundação Curro Velho, onde trabalhava como instrutor de desenho, para participar, como aluno, de um workshop de animação 3D. No ano seguinte, comecei a me envolver profissionalmente nessa área, com a criação de teaser promocional para um projeto de média-metragem de animação chamado Águas e Vidas, que acabou não indo em frente. No entanto, dessa tentativa malsucedida de produção, saíram alguns artistas que colaboraram na produção do curta A Onda-Festa na Pororoca (2003), de Cássio Tavernard, que dá início à onda da animação paraense. 

De lá pra cá, eu que vinha dos desenhos em histórias em quadrinhos, comecei a dar vazão à minha imaginação por meio das animações. Dirigi, produzi, animei, roteirizei, desenhei storyboards, editei e até fiz criação de voz para personagens. Participei de 12 curtas de animação em Belém até então. Atualmente, sou responsável pela curadoria das oficinas do Laboratório de Animação do Núcleo de Oficinas Curro Velho – Fundação Cultural do Estado do Pará e sou sócio do Iluminuras Estúdio de Animação, que produz séries de animação para a TV. 

Apesar de estar envolvido nessa área há mais de 15 anos, ainda hoje as pessoas se surpreendem quando digo que trabalho com animação. Algumas dizem não saber que se faz animação em Belém, outras perguntam se é animação de festas infantis. Ao se surpreenderem com a qualidade de alguns curtas, ainda perguntam se foi feito no Pará. Ou seja, mesmo que já existam algumas produções realizadas, a animação ainda parece algo muito inusitado na cidade. E, de certa forma, não deixa de ser. Existem poucos profissionais com experiência e qualificação nessa área em Belém, e menos ainda no Estado do Pará.

Neste artigo, faço um recorte da dissertação ANIMAÇÃO AUDIOVISUAL PARAENSE- Formação do Campo e Narrativas Quadro a Quadro, de minha autoria, que contou com a orientação da saudosa profª Drª Ana Lobato. Abordo um dos capítulos que apresenta, o que classifico como, a primeira fase da animação paraense, que se caracteriza pela produção de curtas metragens que foram a base para a experimentação e aprendizado de uma geração que ousou produzir animações mesmo sem uma formação específica na área e com baixos orçamentos. Além de um pequeno recorte, dos curtas que fazem parte da segunda fase da animação paraense caracterizada pela diversidade de formatos e canais de difusão.

Fase 01 – Na Cauda Longa dos Curtas (2003 a 2017) 

A primeira fase da animação paraense, considerada a partir da produção do primeiro curta de animação paraense, caracteriza-se pela produção de curtas-metragens e compreende um período de 2003, ano de lançamento do curta A Onda – Festa na Pororoca e vai até 2011, ano de lançamento do curta Nossa Senhora dos Miritis. A classificação desta fase e seu período de abrangência temporal e conceitual, se define através da classificação de alguns fatores em comum entre as obras produzidas nesse período que serão especificadas nos próximos parágrafos.

Um dos pontos convergentes nesse período, será a forma de captação de recursos que, em sua maioria, era proveniente de editais públicos voltados para artistas, como pessoa física.  O IAP – Instituto de Artes do Pará, Banco da Amazônia (via Lei Rouanet) e Ministério da Cultura vão exercer papel fundamental na constituição do campo da animação nesta primeira fase. Esse tipo de financiamento cultural, efetiva um dos mais poderosos mecanismos para a consecução de uma política pública (BOTELHO, 2001).

As principais formas de difusão, nessa fase, eram através de mostras e festivais. Os espaços de exibição eram cinemas, auditórios e salas de vídeo. A divulgação pela internet das obras paraenses não terá grande força nesse período. O YouTube, atualmente um grande difusor de produtos audiovisuais, só passou a existir a partir de 2005, e mesmo que essa primeira fase compreenda o início dessa plataforma de vídeos na internet, esse meio de difusão das animações só será melhor explorado na década seguinte.   

Outro fator que podemos destacar, que define esse momento, diz respeito à qualificação técnica da equipe. A maioria dos animadores que participaram desses projetos de curtas, não possuíam formação profissional por meio de cursos específicos na área e a escolha das equipes de produção se dava, principalmente, através de relações pessoais. Nestas equipes, os artistas que possuíam alguma experiência, trabalhavam com animação 3D, seja por estudos pessoais ou por alguma experiência no mercado publicitário paraense. Mas nenhum desses artistas havia participado da produção de um filme de animação, e a formação era primordialmente empírica. 

Artistas de diferentes expressões artísticas, que vieram colaborar nesse campo, muitas vezes possuíam alguma habilidade afim com alguma parte do processo de produção da animação, e sua inserção no campo se dava, muitas vezes, através de relações de amizade. Num primeiro momento, o teatro terá destaque na construção narrativa, o roteiro, e posteriormente, a literatura e poesia vêm colaborar para compor esse quadro. O ator e escritor Adriano Barroso, por escrever peças de teatro infantil vem participar desse campo, primeiro por sua relação de amizade com Cássio Tavernard, depois com Andrei Miralha e Roger Elarrat. Entre 2003 a 2006, Adriano chega a escrever 4 roteiros dos 6 curtas produzidos no período. Outro artista que vem contribuir nesse cenário, a partir de 2008, é o poeta e artista visual Marcílio Costa, que se torna parceiro de Andrei Miralha em projetos de animação em 3 projetos. Alguns músicos, compositores e arranjadores, vêm acrescentar nesse campo da animação compondo músicas e trilhas sonoras, nessa área se destacam Fábio Cavalcante, Luís Pardal, André Moura, Roberto Ribeiro e Leo Venturieri.

A onda do momento

A partir de meados dos anos 90 até o final dos anos 2000, a animação 3D estava no auge, graças ao sucesso de produções como Toy Story, Vida de Inseto, Formiguinhas, Shrek, Procurando Nemo e A Era do Gelo. No Brasil, o filme Cassiopéia, produzido e dirigido por Clóvis Vieira, e lançado em 1996, foi o primeiro longa-metragem de animação 3D do mundo. Era o grande momento da computação gráfica, e havia um grande desejo, na primeira geração de animadores paraenses em produzir um filme com aquela estética, devido às facilidades proporcionadas pelos softwares 3D. Por outro lado, havia também os desenhistas 2D, que agora viam mais próximo, realmente, a possibilidade de produzir um filme de animação já no início dos anos 2000. 

Naquele momento, o ineditismo da produção de um filme de animação no Pará, foi um aspecto motivador. Assim, os artistas que se encontravam dispersos em estudos pessoais, produzindo individualmente, ou em dupla, vão começar a buscar outras relações e estruturas para realizar suas produções autorais em meio a um cenário mundial em que, tanto a animação mainstream quanto a independente, vinham se expandindo cada vez mais, surfando nos avanços tecnológicos. Assim, destaco algumas peculiaridades sobre a formação da equipe, estrutura física e tecnológica, assim como técnicas utilizadas e algumas metodologias empregadas. Ressalto aqui as seguintes produções neste período: A Onda- Festa na Pororoca (2003/2004), Revolta das Mangueiras (2004), O Menino Urubu (2005), Admirimiriti (2005), Cadê o Verde que Estava Aqui? (2006), Visagem! (2006), Muragens – Crônicas de um Muro (2008/2009), Chico Tripa – Diários de um Palhaço (2009), Rapto do Peixe-Boi (2008) e Nossa Senhora dos Miritis (2011). 

A Onda – Festa na Pororoca

No final de 2002, o arquiteto e artista gráfico, Cássio Tavernard, resolve inscrever um projeto para a criação de um livro ilustrado no edital de Pesquisa, Criação e Experimentação do IAP, e pede ao seu amigo Adriano Barroso, ator e escritor, um texto de uma peça teatral que pudesse ser adaptado para sua proposta de livro. Entre os vários textos oferecidos pelo escritor, Cássio escolhe a peça Pororoca – A Lenda, uma peça de teatro infantil encenada pelas crianças da iniciação artística da Fundação Curro Velho. No entanto, ao ler o texto, Cássio tem a ideia de fazer em animação.

A participação de personagens não humanos na trama, representados pela fauna marinha amazônica, era um ótimo indicador para adaptar o espetáculo em animação, por seu caráter fantasioso. O texto teatral mostrava que o Sr. Caranguejo está organizando a “Festa da Pororoca” e manda os insubordinados peixes Candirús, chamarem o Poraquê, responsável por gerar a energia elétrica para ligar as aparelhagens de som. Enquanto isso, na superfície, um surfista carioca e outro mineiro, se preparam para pegar a onda da pororoca, mas são advertidos por Tia Filica, uma velha nativa da região. 

Com a proposta premiada no edital de 2003, Cássio convida alguns amigos artistas para participarem do projeto. Assim, para a criação das vozes originais, convidou Adriano Barroso (Candiru 01), André Mardock (Candiru 02), Ester Sá (Camarão e Tia Filica), David Matos (Surfista Mineiro), Aílson Braga (Caranguejo) e Mateus Maia (Surfista Carioca). Para os desenhos conceituais e animações, convidou Andrei Miralha, Raimundo Calandrino Jr., Ednaldo Britto e Jean Leitão (que saiu logo no início do projeto). Alexsandro Costa veio integrar a equipe como animador depois da breve experiência no Águas e Vidas, assim como Nonato Moreira que entra como editor e composite, além de contribuir com maiores conhecimentos sobre o software Toonz, utilizado na digitalização, tratamento e colorização dos desenhos criados nas mesas de luz. 

Inicialmente, tudo seria feito em desenho animado tradicional, mas depois de Cássio Tavernard conhecer o artista gráfico Yure Farias, que já vinha experimentando a animação 3D com bons resultados, decidiu que seria mais prático usar a computação gráfica 3D com renderização em 2D para os personagens do fundo do rio, ou seja, a animação teria aparência de desenho animado em duas dimensões, mas seria feito com personagens em 3D virtual. Assim, cerca de 75 % do filme foi produzido em 3D e a outra parte, a dos surfistas e Tia Filica, em desenho animado 2D tradicional. A escolha pelo 3D, levou em conta que nesse tipo de animação, as cenas podiam ser animadas em menos tempo, assim como aperfeiçoadas e corrigidas mais facilmente do que na animação 2D tradicional. Além disso,

Com o advento da animação 3D, encontramos novas questões para a já estabelecida linguagem da animação (…). Como inovação, podemos pensar, além da volumetria, obviamente, nos movimentos de câmera que agora não são mais produzidos por animação, mas sim pelo computador, com uma nova possibilidade quase infinita de multiplicar os enquadramentos e ângulos através de cálculos geométricos (GOMES, 2015, p.35).

Como a equipe que se formou não possuía maiores experiências profissionais ou qualificação na área, a produção do curta seria um grande laboratório. As informações técnicas eram adquiridas por meio de sites na internet e making ofs em DVDs de filmes de animação. O grupo ia estudando, experimentando e trocando informações uns com os outros. 

As reuniões de produção eram na casa do Cássio, um antigo casarão no bairro do Reduto, que teve sua sala transformada em estúdio improvisado. Contava com uma antiga prancheta de desenho, um ventilador, uma bancada com duas mesas de luz, bancos de madeira, e dois computadores. Na segunda sala, havia uma chapa de compensado encostada na parede, onde os desenhos conceituais e storyboard eram fixados. Muitas vezes, a equipe se reunia à noite, e nos meses finais do prazo de entrega, seguia trabalhando madrugada adentro, porque muitos tinham seus empregos, que lhes garantiam seu sustento financeiro, pela manhã e tarde. 

A produção se estendeu pelos 9 meses, concedidos conforme contrato com o IAP, para conclusão dos 12 minutos de filme. E mesmo assim, a animação só ficou pronta minutos antes da projeção no anfiteatro do IAP, para cerca de 200 pessoas, que demonstraram muito entusiasmo ao assistir o curta. A exibição foi um sucesso e abriu caminho para a produção de outras animações nos anos seguintes.

A Revolta da Mangueiras

Em 2004, o curta Revolta das Mangueiras, de Roberto Eliasquevici, foi projeto de animação premiado no edital do IAP. A produção foi toda em computação gráfica 3D. O filme conta a história de um homem que planeja cortar uma mangueira que está atrapalhando sua garagem, mas acaba tendo um pesadelo em que árvores e plantas se revoltam com os abusos dos seres humanos e, assim, invadem sua casa e toda a cidade. Com duração de seis minutos e meio, o filme apresenta uma reflexão sobre como as árvores são tratadas nas grandes cidades, onde muitas vezes, são cortadas para atender às necessidades ou caprichos particulares.

A animação foi realizada na sede da Mister Chip, uma empresa de computação gráfica 3D, de propriedade de Roberto Eliasquevici, que na época oferecia cursos e trabalhava com maquetes eletrônicas para construtoras. A empresa contava com uma sala num prédio comercial, com bons computadores para trabalhos gráficos, o que ajudou bastante para melhor desenvolvimento da produção. A estrutura e administração empresarial também colaboraram para o gerenciamento da produção.

Nesta produção, a equipe foi praticamente toda diferente da que produziu A Onda – Festa na Pororoca, com exceção de Yure Farias e Alexsandro Costa. Depois desse trabalho, alguns artistas envolvidos nessa obra, seguem desenvolvendo outros projetos de animação, como: Fernando Alves, Jefferson Trindade, Thiago Conceição e Roger Elarrat, como veremos mais à frente. Depois do Revolta das Mangueiras, Roberto Eliasquevici não participa e nem realiza mais nenhum projeto de curta de animação. 

O Menino Urubu

Em 2005, o edital do IAP premia mais dois projetos de animação. Um deles é o curta O Menino Urubu criado por Fernando Alves e Roberto Ribeiro. O filme conta a história de um menino que, depois de ser abandonado num lixão, é criado por um casal de urubus. Desenvolvido em computação gráfica 3D, o filme apresenta personagens com falas, vocabulários e sotaques bem regionais, explora aspectos sociais como miséria e inclusão social, mas é uma história de superação.

A produção contou com uma equipe bem pequena. Isaac Braz trabalhou no character design dos personagens, Fernando Alves animava os personagens principais, e Jeferson Trindade, era responsável pelas animações secundárias. Roberto Ribeiro, além de escrever o roteiro com Fernando Alves, criou a trilha sonora do filme. O grupo se reunia no estúdio de desenhos de Roberto, onde inclusive foram gravadas as vozes dos personagens com os atores do Grupo Experiência de teatro.

Parte da equipe que participa do Menino Urubu se conheceu nos workshops do Anima Mundi, em Belém. Com a produção do curta para o IAP, Roberto Ribeiro, Jefferson Trindade e Fernando Alves formam o Karadash Estúdio que vem a produzir algumas animações para o mercado publicitário, além de outros trabalhos com ilustração e design gráfico. 

Admirimiriti

O outro projeto premiado, em 2005, no edital do IAP, foi o curta Admirimiriti, apresentado por Andrei Miralha, com roteiro de Adriano Barroso. A relevância da proposta está na representação, por meio da animação, de um importante ícone da cultura popular paraense, o brinquedo de miriti, com seus personagens, texturas, cores e pinturas peculiares. O filme tem, como cenário principal, a Feira de Miriti, onde os brinquedos ganham vida e um boneco de miriti, dançarino de brega, acaba perdendo a cabeça e a parceira numa festa. Sozinho, tenta brincar com outros brinquedos, mas somente um ato de coragem poderá salvar seu dia e trazer sua parceira de volta.

Durante a fase de pré-produção do curta, parte da equipe chegou a visitar o município de Abaetetuba, durante o evento Miriti Fest, que reúne os principais artesãos de miriti numa grande feira com diversas atrações culturais. A visita estava prevista como parte da pesquisa. Durante o evento, foram adquiridos vários brinquedos de miriti e registros fotográficos de referência. No estúdio, os brinquedos foram modelados em 3D, seguindo o referencial físico em mãos. As texturas foram simuladas com imagem do miriti cru e as pinceladas de tinta foram simuladas digitalmente. 

A produção contou com storyboard e animações de Otoniel Oliveira, que vinha da produção de histórias em quadrinhos e estava estreando nas animações. Outro animador era José Alexandre, que depois de se formar em Administração, passa a frequentar as oficinas da Fundação Curro Velho até ser convidado, por Andrei Miralha, para integrar a equipe de animação do curta. André Moura também estreava na composição de músicas e trilha sonora para filmes. Nelson Teixeira, que já havia passado pelas animações da segunda versão da Onda – Festa na Pororoca também trabalha nas animações. A modelagem e rigging ficaram por conta de Nonato Moreira. 

Estúdio de animação da Animagraphic, 2005.

A aprovação desse projeto consolidou as intenções dos artistas Alberth Costa, Andrei Miralha, Nonato Moreira e Nelson Teixeira de criar um estúdio de animação, a Animagraphic. O grupo chegou a alugar sala em um prédio de escritórios e desenvolveu, além do curta Admirimiriti, o curta Cadê o Verde que Estava Aqui? e alguns comerciais para TV. A Animagraphic não chegou a se formalizar como empresa e durou pouco mais de um ano e meio devido a falta de administração do estúdio e objetivos em comum entre seus membros. No entanto, boa parte do grupo que trabalhou no Admirimiriti, como Andrei Miralha, Nonato Moreira, Nelson Teixeira, Otoniel Oliveira e André Moura, continuou trabalhando junto em outros projetos nos anos seguintes.

Visagem!

Em 2006, o projeto de animação stop motion Visagem!, de Roger Elarrat,  é premiado no edital do IAP. O filme, escrito por Adriano Barroso, faz referência ao livro “Visagens e Assombrações de Belém”, do escritor Walcir Monteiro. A história apresenta um homem que, depois de fazer uma aposta com um amigo para ver quem tem coragem de atravessar sozinho o cemitério da Soledade, durante a noite, encontra várias assombrações de Belém. O filme contou com desenhos conceituais e storyboard de Otoniel Oliveira, em seu segundo projeto seguido de animação. O cenário era uma maquete do cemitério da Soledade, construída em papel machê pelo arquiteto Paulo Emílio.

Os bonecos principais foram modelados pelo escultor Nelson Nabiça, utilizando durepox sobre esqueleto de metal flexível cobertos com roupas em tecido, costuradas pela mãe do diretor Roger Elarrat, a senhora Elza Elarrat. Os bonecos possuíam ainda diversos modelos de “expressões faciais” em durepox, que eram trocadas, pelo animador, conforme a interpretação pretendida para o personagem em cena. 

As animações foram realizadas por Alexsandro Costa, que experimentava pela primeira vez essa técnica de animação, tendo como referência filmes em stop motion, como Noiva Cadáver e Estranho Mundo de Jack por meio de seus respectivos making ofs. No entanto, os bonecos não ofereciam possibilidades de movimentos mais elaborados, o que dificultou sua manipulação para animação. Na etapa seguinte, de pós-produção, foi necessário um trabalhoso processo de tratamento das imagens para apagar digitalmente, quadro a quadro, os suportes metálicos para manter os bonecos em pé. O curta ainda contou com alguns efeitos acrescentados em computação gráfica, feitos por José Alexandre. Nos anos seguintes a essa produção, veremos que a técnica de animação stop motion só voltará a ser explorada em um curta em 2015, sendo mais frequente sua aplicação em oficinas de animação utilizando massa de modelar e recortes de papel.

Cadê o Verde Que Estava Aqui

Lançado em 2006, o curta Cadê o Verde Que Estava Aqui? é uma adaptação de um livro ilustrado do próprio autor da proposta, Biratan Porto. O projeto, que contou com a produção executiva de Márcia Macêdo, da Central de Produções e Filmes na Amazônia, foi o que obteve a maior verba de produção em editais no período, num valor em torno de cem mil reais, provenientes do Edital de Patrocínio do Banco da Amazônia, via Lei Rouanet do Ministério da Cultura; e Amazônia Celular, via Lei Semear do Governo do Estado do Pará. O filme mostra uma cidade em que a cor verde havia sumido, até o verde do arco-íris desapareceu, e toda população fica muito assustada com isso. Para solucionar o problema, um duende surge para ajudar as pessoas a plantar o verde de volta no arco-íris e assim fazer o verde voltar para a cidade.  

No momento em que o curta é proposto, havia um grande anseio, por parte dos animadores, em desenvolver uma animação 3D explorando personagens em estilo cartoon com texturas e iluminação como as dos filmes de animação da Pixar. A expectativa era das melhores possíveis, já que o projeto dispunha de maiores recursos e tinha, à frente do projeto, nomes que já vinham obtendo reconhecimento na incipiente cena da animação paraense. A adaptação de roteiro ficou com Adriano Barroso e contou com Cássio Tavernard como assistente de direção. Na trilha sonora, estava o reconhecido músico paraense Luiz Pardal. Nas animações, o Animagraphic, estúdio contratado para o serviço, que contava com artistas como Nonato Moreira, Nelson Teixeira, Alexsandro Costa, José Alexandre e Andrei Miralha, que já tinham alguma experiência como animadores, além de outros artistas que fariam, pela primeira vez, uma animação.

A coordenação de produção foi realizada por Nonato Moreira, que se desdobrava entre modelar, texturizar, rigar e animar os personagens, além de fazer a iluminação e renderização das cenas. O curta possuía muitos personagens e vários cenários, aspecto que dificulta e encarece ainda mais uma produção. Outro ponto que influiu muito no resultado foi o acúmulo de funções, pois, naquele momento, havia poucas pessoas com habilidade técnica para o serviço e, as que tinham algum domínio, eram autodidatas e não possuíam grande experiência. 

Do pretenso mainstream ao experimental

Até 2006, as produções paraenses de animação se caracterizavam pela nítida influência das animações mainstream, exibidas no grande circuito do cinema comercial. Nesse período, foram produzidos seis curtas, nos quais podemos observar formas mais convencionais de narrativa e concepção visual. Nesse período, as animações que chegavam até o público paraense, com maior facilidade e frequência, eram principalmente as séries de TV e longas-metragens produzidos pela grande indústria americana, geralmente de classificação livre e voltados para o público infantil. Somente no final da década de 2000, é que será possível notar uma mudança no habitus desse campo em Belém. Há espaço para o jogo entre a estrutura e o indivíduo, entre o agente e o campo em que está inserido. A capacidade de manipulação do habitus determina a posição do indivíduo no campo. Esse sistema de disposições adquiridas é dinâmico e produtor da história, isto é, “ele é durável, mas não imutável” (BOURDIEU, WACQUANT, 2005, p. 109). 

Nesse segundo momento, as influências de filmes independentes e experimentais, como os que foram vistos na Mostra Itinerante do Anima Mundi, de 2002 a 2005, em Belém, poderão ser notadas mais claramente. Vamos observar que curtas como Muragens – Crônicas de um Muro e Chico Tripa – Diários de um Palhaço, já irão trazer uma abordagem mais experimental em sua concepção visual e narrativa, bem característica dos filmes exibidos em mostras e festivais de cinema de animação.  Apesar de ainda haver mais dois curtas em computação gráfica 3D, de melhor produção e maior recurso, nesse final de década, como o Rapto do peixe-Boi e Nossa Senhora dos Miritis. As relações profissionais e criativas já começam a apontar para a animação 2D, o que virá a se confirmar e se consolidar na década seguinte, que veremos mais à frente.

Muragens – Crônicas de um Muro

Em 2008, Andrei Miralha em parceria com o poeta Marcílio Costa, elaboram o projeto do curta Muragens – Crônicas de um Muro, que é contemplado no edital do IAP. O filme faz uma interferência ficcional num recorte urbano real, o entorno do muro dos fundos do cemitério da Soledade em Belém do Pará. Apresentando situações diversas, pequenas crônicas, nas quais o devaneio, o Non Sense, o caráter fictício da animação, marcam a contação das mesmas. O processo de criação foi diferenciado, pois a proposta aqui era mais experimental, tanto na concepção, quanto na estrutura narrativa e estética. 

A criação do roteiro partiu da observação da rua Dr. Moraes, por onde se estende o muro dos fundos do cemitério da Soledade, em Belém, onde uma feira é montada às quintas-feiras e desmontada aos domingos à tarde. Para pesquisar o local, foi organizado um encontro, entre os desenhistas do projeto, para desenhar o local da pesquisa num dia de feira, e além disso interagir com as pessoas e o lugar. Outro registro importante foi a elaboração de um relato poético de Marcílio Costa (ex-morador do perímetro), assim como poesias sobre momentos e aspectos da paisagem urbana, registros em fotografias e vídeos. 

O curta apresenta desenhos a lápis, em que cada personagem tem uma cor de traço diferente, mas são vazados, ou seja, sem preenchimento interno de cor. Não há um cenário desenhado em perspectiva. Em cena, vemos apenas uma imagem da textura real do muro de trás do cemitério da Soledade como background onde os personagens se deslocam sempre lateralmente, da esquerda pra direita ou da direita pra esquerda. O filme é dividido em 6 capítulos que apresentam fragmentos temporais daquele espaço. É como se o espectador estivesse parado de frente para o muro observando a vida passar em devaneios poéticos.

A equipe de produção se reunia nas tardes de sábado daquele ano, no Laboratório de Animação do IAP, que já contava com mesas de luz para animação (mais à frente, falo sobre a criação deste espaço). No início da produção, foi publicada uma chamada no jornal informando que o projeto Muragens estava recebendo pessoas interessadas em experimentar a animação com possibilidade de participar da produção do curta. Foram convidados também alguns desenhistas, conhecidos do diretor, para virem experimentar o desenho animado. 

Cerca de 25 pessoas passaram por essas reuniões e experimentações para iniciantes, mas apenas 4 artistas foram contratados para integrar a equipe principal de produção do curta Muragens, desenhando algumas cenas, como: Geíza Santos, Everton Leão, Diogo Lima e Ítalo Ferreira. Outros artistas participaram nas animações secundárias de ciclos de caminhadas como Pedro Rogério e Vince Souza. Boa parte do curta foi feita em animação 2D tradicional, usando mesa de luz e algumas cenas, criadas por Andrei Miralha e Otoniel Oliveira, foram produzidas em mesa digitalizadora com caneta óptica. Nesse momento, esse tipo de animação 2D digital, que não utiliza os meios físicos para criação dos desenhos, já começa a ganhar espaço. O uso desse equipamento, tornou a produção mais prática, o que reduziu tempo de produção e até mesmo de correção.

A primeira exibição do filme foi uma projeção no próprio muro de trás do cemitério da Soledade, e reuniu a equipe de artistas do filme, os feirantes do local e o público em geral. Posteriormente foi exibido em diversas mostras no Pará e no Brasil, além do Festival Anima Mundi, 2009 (Rio de Janeiro e São Paulo), Festival Monstra (Portugal), Festival Animasivo (México), e recebeu prêmio de Melhor Curta de Animação no FestCineAmazônia (Rondônia) e Melhor Curta no Festival Noite com Sol (Belém).

Chico Tripa – Diários de um Palhaço

Em 2009, o projeto Chico Tripa – Diários de um Palhaço, de Cássio Tavernard, recebe a bolsa de pesquisa do IAP, seguindo uma proposta experimental de unir teatro de clowns e desenho animado tradicional. A animação conta a história fictícia do Palhaço Chico Tripa, um personagem criado por Cássio quando fazia parte de uma trupe de palhaços em Belém, os Palhaços Trovadores. O curta apresenta estética inspirada nas animações dos anos 30 como Gato Félix, Betty Boop e Mickey Mouse. No meio do filme, há uma cena do Chico Tripa em live action se maquiando e testando caretas, cuja estética tem referência de filmes de Charlie Chaplin.

A equipe de animação do filme também foi formada por alguns artistas iniciantes que se reuniam no estúdio de Cássio. Porém, alguns deles já vinham de outras produções, como Everton Leão e Diogo Lima, que haviam participado das animações dos curtas Muragens – Crônicas de um Muro e Nossa Senhora dos Miritis. 

A apresentação do projeto foi na sala de cênicas do IAP, onde o curta de animação foi projetado num tecido/tela estendido no meio da sala. Na apresentação ao vivo, Cássio caracterizado como Chico Tripa, interage com sua “sombra” animada projetada na tela, que ganha vida própria e está tentando boicotar a apresentação. Atualmente, o filme se encontra no youtube, mas não chegou a participar de muitas mostras e festivais. No entanto o personagem chegou a ser utilizado em campanha de mídia inbox para a loja Sol Informática.

Dobradinha 

Paralelamente a essa tendência de maior experimentação artística, e até mesmo do desenho feito a lápis, ou mesmo por caneta óptica em mesa digitalizadora, as iniciativas em animação 3D continuam presentes até o final da década de 2000, com 2 projetos que dão desdobramento a outros dois curtas produzidos com as bolsas do IAP.

Em 2006, como resposta às reivindicações da ABCA – Associação Brasileira de Cinema de Animação, o Ministério da Cultura lança, pela primeira vez no Brasil, um edital de Curta-Metragem Gênero Animação, com um prêmio de R$ 60.000,00. Assim, o curta Rapto do Peixe Boi, de Cássio tavernard, que surge como desdobramento do A Onda – Festa na Pororoca, é selecionado no edital de 2006. No ano seguinte, é a vez do curta Nossa Senhora dos Miritis, de Andrei Miralha ser premiado no mesmo edital, apresentando personagens criados para o curta Admirimiriti, de 2005. 

Essas produções vão dispor de melhor qualidade técnica, considerando a experiência já adquirida e a captação de maiores recursos financeiros. Porém, ainda enfrentarão diversas dificuldades de produção, principalmente pela grande carência de profissionais qualificados em Belém e por isso mesmo, no cumprimento dos prazos estabelecidos em contrato. A seguir, faço uma breve descrição sobre essas duas produções.

Rapto do Peixe-Boi

Conforme citado anteriormente, o filme surge com uma proposta de continuidade ao universo apresentado em A Onda – Festa na Pororoca. Neste novo curta, o roteiro ficou por conta de Rodrigo Aben-Atar, que divide a direção com Cássio Tavernard. Na história, o Caranguejo está organizando mais uma festa e o Peixe-Boi, responsável pelo transporte da aparelhagem, desapareceu. A Turma da Pororoca, com os endiabrados Candirus e o atrapalhado Camarão, tenta desvendar esse mistério. Nesse projeto, toda a pré-produção era desenvolvida em Belém, como storyboard, animatic e gravação de vozes. Porém, parte das animações e rigging de personagens, foram desenvolvidos por profissionais de outros estados já com experiência na área, alguns deles atuando no mercado de animação paulista, como Radamés Araújo, Marcelo Zigaib e Marcelo Pirk. Um dos profissionais de maior destaque nessa produção foi Rodrigo Aben-Atar que além de escrever o roteiro fez a co-direção, composite e montagem do filme. 

As vozes foram todas produzidas por atores e atrizes paraenses. Adriano Barroso, autor do texto que deu origem ao curta A Onda – Festa na Pororoca, faz um dos Candirus, e o ator André Mardock interpreta o outro. O elenco principal conta, ainda, com Aílson Braga (Caranguejo) e Ester Sá (Camarão). Nesse processo, as vozes são gravadas em estúdio e utilizadas no processo de animatic antes de chegar aos animadores, pois assim têm o tempo da cena, a fala e interpretação sugerida em imagem e som. Os animatics eram enviados por e-mail e todo o contato com os animadores fora de Belém eram realizados pela internet, por onde se estabelecia as descrições de correção e ajustes, quando necessárias.

O curta, que levou cerca de 24 meses para ser concluído, foi lançado no Teatro Maria Silvya Nunes, em Belém do Pará, no dia 15 de março de 2009. Na mesma sessão, foram exibidos outros curtas recém concluídos: Muragens – Crônicas de um Muro e A Montanha do Pássaro, uma co-produção entre Brasil e Bélgica, realizado pela Karadash Estúdio. O teatro, com mais de 400 lugares, estava completamente lotado e no final da sessão houve uma conversa com os diretores do Rapto do Peixe-Boi

Nossa Senhora dos Miritis

Em 2007, o curta Nossa Senhora dos Miritis é selecionado no Edital de Curta-Metragem de Animação do Ministério da Cultura. A proposta dava continuidade na temática dos brinquedos de miriti, iniciado com o curta Admirimiriti, lançado em 2005. O roteiro seria escrito também pelo Adriano Barroso, porém, devido a uma indisponibilidade de Adriano no período de inscrição, Andrei Miralha escreve o roteiro que acabou sendo selecionado no edital.

Com o projeto aprovado, era necessário montar uma nova equipe para animar em computação gráfica 3D. Novamente a carência de profissionais qualificados para compor a equipe de produção foi uma das maiores dificuldades na produção. Nossa Senhora dos Miritis foi contemplado por meio de uma política adotada pelo MinC que estabelecia cotas regionais para a seleção dos prêmios nos editais. Esse mecanismo foi muito importante para o campo da animação paraense, pois seria muito difícil concorrer de igual pra igual com produtoras do sul e sudeste do Brasil nesses editais, tendo em vista toda a estrutura, recursos e expertise que já dispunham. 

O curta levou 18 meses para ser concluído, 6 meses a mais do que o prazo estipulado para conclusão. No filme, grande parte das cenas envolviam vários personagens animados e os computadores, muitas vezes, não suportavam tamanho volume de processamento, o que exigia que a renderização fosse dividida em diversas camadas. O tempo de processamento de cada frame era em torno de 3 minutos, sendo que para gerar um minuto eram necessários 24 frames. Geralmente as cenas eram renderizadas nas madrugadas e passavam vários dias renderizando. De modo que quase no final do projeto, os dois principais computadores de trabalho tiveram suas placas-mães queimadas. 

O curta Nossa Senhora dos Miritis foi lançado, junto como DVD Miritis, no cine Olympia, em Belém, numa sessão matinê dominical no dia 5 de junho de 2011, para um público de mais 400 pessoas, inclusive com a presença de artesãos de miriti e a prefeita do município de Abaetetuba. Na ocasião, foram exibidos o curta Admirimiriti e o documentário Mirti-Miri que fazem parte do DVD, que depois do lançamento passou a ser comercializados nas lojas Ná Figueredo e Fox Vídeos, assim como no Miriti Fest de Abaetetuba, nas Feiras de Miriti de Belém. Como contrapartida social, ainda foram doadas 100 cópias do DVD à Seduc. O curta participou de várias mostras, do Festival Anima Mundi 2011 e foi exibido na TV Cultura do Pará e Canal Brasil.

Fase 02 – Ampliação Multiforme (2008 a 2015)

A segunda fase da animação paraense vai refletir algumas mudanças significativas proporcionadas pela popularização da internet, que não só propiciou um campo maior de divulgação para as obras quanto interferiu em seus formatos e formas de produção. No entanto, apesar das facilitações dos meios de comunicação contribuírem para a produção independente e até mesmo oportunizarem obras por editais de empresas privadas, ainda veremos o papel das políticas públicas atuando na democratização da produção. 

Os editais públicos ainda protagonizam os investimentos financeiros para a maioria das propostas de animação, sendo que o primeiro edital específico de animação é lançado pela Fundação de Radiodifusão do Pará (Funtelpa), o Culturanimação, que tem papel decisivo para a terceira fase da animação paraense como veremos mais adiante. 

A partir de 2012, começaremos a perceber, nas produções paraenses, mudanças significativas nas técnicas de animação utilizadas. A animação 2D digital, passa predominar durante essa década de 2010, e artistas como Eliezer França, passam a experimentar, já em 2011, o Toon Boom, um dos mais populares softwares utilizados em estúdios de animação do mundo. O programa desenvolvido no Canadá, um dos maiores pólos de animação mundial, facilita muito o processo na medida em que trabalha com animação em recortes digitais e evita o redesenho. 

Em outra frente, animadores como Otoniel Oliveira, Andrei Miralha e Mário Aires utilizam o software Photoshop, que apesar de não ser um programa específico para animação, permite desenvolver animações digitais através da ferramenta timeline. É importante observar que apesar do predomínio do 2D digital, algumas animações desenvolvidas para o Culturanimação e Conexão Vivo, ainda irão utilizar desenhos feitos com lápis e papel em mesa de luz, digitalizados e finalizados no computador.

Nesse período, veremos novamente um filme em stop motion nas produções paraenses, como o curta Adão, desenvolvido por meio de bolsa de pesquisa do IAP. Porém, mais uma vez, a continuidade desse tipo de animação ainda não se firma com nenhum grupo, nem indica continuidade com qualquer um dos participantes. Nas animações em computação gráfica 3D, vamos encontrar duas propostas no mesmo período, 2011, com Andrei Miralha, que faz uso de software 3D para criar animações com recortes digitais para o curta Quem vai levar Mariazinha para Passear?, mas que não utiliza a estética característica do programa e Cássio Tavernard, que também apresenta propostas nessa técnica com seu personagem Chico Tripa, em novo projeto de animação, para o IAP. Dessa vez, utilizando os tradicionais recursos estéticos e técnicos dos softwares 3D, com modelagem, texturização, iluminação e rigging.

Nessa fase, veremos, ainda, algumas obras de técnicas e estéticas híbridas, que utilizam tanto animação 2D, 3D com live action, como Chico Tripa, Quem Vai Levar Marizinha pra Passear? e Pedaços de Pássaros. Obras com essas características são desenvolvidas desde o início do século XX, mas no campo da animação paraense é uma novidade. Esse hibridismo se estende também pelo uso de técnicas como rotoscopia com animação 3D e animação digital. 

Alguns grupos importantes nesse cenário se formam nesse período e vão possibilitar o avanço das animações paraenses para uma terceira etapa que será descrita posteriormente. Os principais grupos desta fase são o Muirak Studio, Iluminuras Estúdio de Animação e o Estúdio Igara. 

Chico Tripa

Em 2011, Cássio Tavernard é premiado, pela terceira vez, com a Bolsa de Pesquisa do IAP. A proposta apresenta novamente o personagem Chico Tripa como protagonista. Dessa vez, o projeto se concentra mais em desenvolver pequenas esquetes sem conexão direta umas com as outras, como se fossem capítulos ou curtas separados. Cada experimentação apresenta diferentes situações envolvendo o personagem. Em uma delas, Chico Tripa interage com seu criador, Cássio, numa sequência que utiliza animação 3D e live action. Em outra, Chico Tripa dança sobre um brinquedo de um parque de diversões. As animações em 3D são realizadas por Thiago Conceição e Cássio Tavernard. 

Essa segunda produção do Chico Tripa, caracterizou-se mais pela experimentação das possibilidades expressivas do personagem em 3D em contraste com sequências em live action.  Esse trabalho foi mais modesto em resultado final da bolsa de pesquisa do IAP, porém mais adequado ao orçamento disponível pelo edital de R$ 18.000,00. 

Quem Vai Levar Mariazinha para Passear?

Ao mesmo tempo em que surgem novas oportunidades voltadas para a internet, outras portas se abrem produções independentes para a TV. Em 2010, o projeto Quem Vai levar Mariazinha Para Passear? é premiado no edital Curta Criança, um concurso realizado pelo Ministério da Cultura, por meio da Secretaria do Audiovisual, em parceria com a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), que beneficiava 13 obras audiovisuais de curta metragem com temática infanto-juvenil, com um valor de R$ 70 mil. 

O filme, dirigido por André Mardock, que mistura cenas em live action com animação de recortes digitais, é uma adaptação para o audiovisual da obra teatral, com o mesmo nome, criada e encenada por Ester Sá e Maurício Franco, que também atuam no curta. O enredo apresenta dois anjos, o 001 e 002, que ao descerem das nuvens para conhecer os humanos, acabam caindo num teatro, mas ao tentarem sair do local, se deparam com uma forte chuva. Enquanto esperam para sair, fazem a antiga simpatia da “Mariazinha” e começam a contar a história grega de Eros e Psiquê, onde Psiquê é representada pela Mariazinha. Na trama, Afrodite, com ciúmes de seu filho Eros, se empenha em dificultar a vida de Psiquê. Porém, o Deus do amor, ao ver Psiquê, se encanta com sua beleza, e apaixona-se por ela. A saga se desenrola até que a chuva passa e os anjos voltam à “realidade”.

A história narrada pelos anjos é toda representada em animação por Andrei Miralha, com participação de Thiago de Moraes, que também fez os efeitos visuais. Os personagens foram criados em recortes de papel feitos a mão, pelo Maurício Franco, e depois digitalizados, tratados e coloridos digitalmente. Em seguida, eram montados para animação em um software para animação 3D. Os cenários, e alguns personagens, foram todos criados em plataforma digital e algumas sequências em live action foram gravadas com chroma key para aplicação de efeitos visuais e inclusão de cenário digital. O curta ficou pronto em 2012, mas só foi exibido na TV Brasil em 2016.

Pedaços de Pássaros

O curta-metragem, premiado no Edital de Curta-Metragem Experimental do Ministério da Cultura em 2013 dá continuidade na relação entre poesia e animação que Andrei Miralha e Marcílio Costa, diretores do filme, vinham desenvolvendo em projetos anteriores, como Muragens – Crônicas de um Muro e Para Vler Poesia

O filme apresenta 6 capítulos distintos e sem continuidades narrativas diretas. Em comum, apenas a imagem simbólica do pássaro costurando cada parte do curta representada em diferentes estéticas e técnicas de animação, como desenho animado digital, animação 3D digital e rotoscopia. O capítulo final utiliza imagens em live action com sombras de pássaros animadas e aplicadas em composite por Thiago Conceição. 

No processo de criação, o roteiro inicial não foi tratado em novas versões. O roteiro foi direto para um processo de storyboard drive, onde o storyboarder e o roteirista desenvolvem a narrativa direto em sequência de imagens.

Pedaços de Pássaros contou com animações de Andrei Miralha, Otoniel Oliveira, Mário Aires e participação de Mário Zani, realizando pinturas digitais num processo de rotoscopia sobre frames de animação 3D. No processo de produção, houve um capítulo animado em stop motion, que mostrava um pássaro recolhendo restos de materiais elétricos e eletrônicos das grandes cidades para montar seu ninho, que foi retirado da montagem final do curta.

Editais do IAP/ Seiva

Em 2015, o Instituto de Artes do Pará foi extinto, e seu espaço físico passou a se chamar Casa das Artes. Nesse processo, a Fundação Curro Velho e Casa da Linguagem também passaram a integrar a Fundação Cultural do Estado do Pará. Desta forma, em 2016, o edital de Pesquisa, Criação e Experimentação promovido pelo IAP passa a se chamar SEIVA – Incentivo a Arte e Cultura e o Prêmio passa a ser de Produção e Difusão Artística. De 2011 até 2018, 3 projetos de curtas de animação são premiados nesses editais, Chico Tripa (2011), Adão (2015), História de Zahy (2015); e dois projetos que contém animação como o Clipe do Camarão (2006) e Sarau Aquarela (2016). A seguir faço um breve relato das curtas produzidos nesse período.

Adão

A proposta de curta apresentada por Rafaella Cândido, premiada pelo Seiva em 2015, traz de volta a animação stop motion para a produção paraense. O filme mostra uma história inspirada na tentação de Adão e Eva diante da árvore do Bem e do Mal. Rafaella é uma estreante no campo da animação, depois de se formar em engenharia de alimentos, passou a dedicar a sua paixão de trabalhar com cinema. Realizou trabalhos como editora de vídeos e atriz de curtas-metragens, tendo se formado como atriz pela Escola de Teatro da Universidade Federal do Pará. 

A produção da obra contou com a participação de Bruce Macêdo para confecção dos bonecos e cenários em miriti, em parceria com Rafaella. A animação ficou por conta de Maria Luíza Baganha, que, depois de ter realizado um curso livre de animação nos Estados Unidos, havia acabado de entrar na equipe de animação do Iluminuras Estúdio de Animação, foi convidada para realizar as animações em stop motion.

História de Zahy

O curta História de Zahy, que originalmente se chamava O Céu de Zahy, criado por Otoniel Oliveira, foi um projeto realizado com uma bolsa de experimentação artística da Fundação Cultural do Pará, em 2015. A ideia do filme surge durante a pesquisa de mestrado de Otoniel, Etnografia em quadrinhos: Subjetividades e escrita de si Tembé-Tenetehara, orientada por Ivânia Neves, e indicada para o prêmio Compós de dissertação 2017. O curta apresenta a lenda da lua segundo os Tembé-Tenetehara, e é narrado em Tupi-Tenetehara com legendas em português. A produção utiliza animação 2D digital, desenhada com caneta óptica em mesa digitalizadora, e cenários pintados à mão com lápis de cor. 

Os curtas produzidos nessa segunda fase com bolsas de pesquisa IAP/ SEIVA são realizados com melhor relação entre custo, duração e qualidade. Os curtas realizados na primeira fase eram mais pretensiosos quanto ao tempo de duração do filme (a maioria tinha mais de 10 minutos de duração). Os orçamentos eram baixos para a quantidade de elementos criados para as cenas, como personagens e cenários, que eram superdimensionados. Como forma de comparação, enquanto Adão (2016), produzido em stop motion, possuía apenas 2 personagens e um cenário minimalista, Visagem! (2006) também em stop motion, contava com 5 bonecos e uma grande maquete que reproduzia parte do cemitério da Soledade. Assim como Admirimiriti (2005) e A Onda – Festa na Pororoca (2003/2004) que contavam com diversos bonecos e cenários em 3D, em contraposição ao Chico Tripa (2012), que experimentava a animação utilizando apenas um personagem 3D. Esta comparação serve para percebermos que, nesta segunda fase, há um significativo amadurecimento no dimensionamento desses projetos em relação aos recursos oferecidos. 

Conclusão

Esta pesquisa aborda parte dessa grande rede cooperativa que constitui o campo da animação no Pará, mais especificamente na cidade de Belém. Portanto, mantenho o foco nas características de produção das obras, instituições, artistas, grupos e estúdios que contribuíram, ou que ainda contribuem, para o desenvolvimento da animação paraense. 

Essa fase inicial onde foram produzidos diversos curtas metragens de animação proporcionou  um importante alicerce para animação paraense. Foi justamente nesse exercício de “aprender fazendo” que as fase seguintes se desenvolveram. Uma quarta geração de animadores, que inicia sua carreira animando séries de animação, num processo de produção maior, mais bem estruturado e com um nível maior de exigência e eficácia, já surge a partir de oportunidades criadas pela primeira geração que produzia curtas. Os curtas foram os primeiros laboratórios, que proporcionaram experimentação e aprendizado. Por isso todas as produções seguintes vêm na cauda longa dessas primeiras produções. A qualificação das equipes para a produção das séries ainda acontece no processo de produção, como nas fases anteriores, mas esse processo já é conduzido por artistas com maior expertise. Ese ciclo

Esse aprendizado, proporcionado pela produção de curtas teve seu ciclo interrompido em 2015, aqui no Pará, quando os dois curtas de animação mais recentes foram produzidos, que no entanto tiveram sua pós-produção estendida por mais um ano e lançados apenas em 2017. Esse intervalo reflete claramente mudanças significativas nas políticas culturais tanto federais quanto estaduais. O período de maior produção de curtas aconteceu justamente quando havia melhor momento nas políticas culturais e econômicas, no período de 2003 a 2014. Mais recentemente, a partir de 2015, houve também uma mudança de oportunidades com a criação do Fundo Setorial do Audiovisual, que ao oportunizar maiores investimentos para a criação de séries de animação, provocou também uma mudança significativa nos anseios dos produtores que vinham realizando curtas e outros formatos menores. No entanto, esse momento favorável para a produção de séries é interrompido em 2019 com a entrada do atual presidente com seu projeto de enfraquecimento do setor cultural do país.

Atualmente, com o travamento de instituições e mecanismos que ajudavam a desenvolver setor audiovisual, por meio de grandes investimentos, muitos produtores voltam ter a perspectiva de produzir curtas e outros formatos menores, principalmente pelas limitações orçamentárias nesse momento. A criação de editais para a produção de curta metragens em animação deve se tornar viável nesse momento. No entanto fomento desse formato de obra audiovisual deveria ser mantido com regularidade a fim de dar oportunidade para o aprimoramento de produtores iniciantes, assim como manter espaço para experimentação e possível renovação da linguagem da animação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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DUARTE, Rosália. Crianças, televisão e valores: resultados preliminares de pesquisa. Revista Educação on-line, Rio de Janeiro, n. 1, 2005.

GOMES, Maria Cláudia Bolshaw. Animação: Uma linguagem com vocação inclusiva. 2015. Tese (Doutor em Design) – Programa de Pós-graduação em Design do Departamento de Artes e Design da PUC-Rio, Rio de Janeiro, 2015.

PERISIC, Zoran. Guia prático do cinema de animação. Lisboa: Presença Portugal, 1979.

Andrei Miralha é artista visual, diretor e produtor de animação audiovisual. Mestre em Artes (PPGArtes – ICA- UFPA).

Andrei Miralha

 

Muragens- Crônicas de um Muro
Gênero: Animação
Duração:12m11s
Colorido
Produzido no Pará
Ano: 2008

Sinopse:
Muragens- Crônicas de um Muro faz uma interferência ficcional num recorte urbano real, o entorno do muro dos fundos do cemitério da Soledade em Belém do Pará. Apresentando situações diversas, pequenas narrativas crônicas – nas quais o devaneio, o Non Sense, o caráter fictício da animação marcam a contação das mesmas.

Ficha Técnica
Direção: Andrei Miralha
Co-Direção: Marcílio Costa
Direção Técnica: Nonato Moreira
Trilha Sonora: André Moura
Animação: Diogo Lima, Ítalo Ferreira, Pedro Rogério, Vinicius Souza, Geíza Santos, Rafael Reis, Otoniel Oliveira, Everton Leão e Andrei Miralha.