“CINEMATECA PARAENSE: DEZ ANOS DE PESQUISA EM CINEMA E PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO AUDIOVISUAL” POR RAMIRO QUARESMA / III SPAA

Cinemateca Paraense: dez anos de pesquisa em cinema e preservação do patrimônio audiovisual

Ramiro Quaresma

O cinema é a arte da inovação em sua essência, no sentido técnico e estético. A arte de contar histórias em uma narrativa de imagens montadas que criam um tempo e espaço próprios. A soma de todas essas obras cinematográficas em mais de 100 anos de história contam a história do mundo criando um universo mítico e fantástico. Essas histórias em películas, fitas, ondas eletromagnéticas e, hoje, pela internet são parte indissociável da nossa compreensão de mundo. São documentos de imagens em movimento mas também fuga e escapismo para aqueles, que como eu, se abrigaram nesses filmes para construir sua trajetória de vida. O presente relato é como um filme, edito as principais passagens, seleciono os melhores trechos e omito outros para criar uma narrativa em fluxo sobre minha trajetória como pesquisador de cinema. A diegese do cinema pode ser também uma inspiração para a edição pedagógica da nossa proṕria história, assim como em cada documentário existe um pouco de ficção e nem por isso deixam de ser um fragmento de realidade.

As salas de cinema e as locadoras de vídeo foram meu refúgio adoslescente, um espaço de afeto e aprendizado. As reproduções em cópias das fitas preferidas foram uma primeira versão de um arquivo de filmes, uma coleção de fitas VHS para sessões ininterruptas de cinefilia. Essa fuga se converteu no futuro em ofício, as revistas e livros sobre cinema eram uma formação empírica e caótica. Esse “tempo perdido” neste cineclube íntimo hoje interpreto como um período de formação cinematográfica. Como o método de Truffaut, assistir três filmes por dia, todos os dias. Estudar cinema de forma acadêmica não era viável na minha realidade nos anos 1990 em Belém, Pará, Amazônia, Brasil. Acabei optando pela Comunicação Social pela aproximação conceitual com o cinema e audiovisual mas sempre frequentando todos os festivais, cursos e cineclubes de cinema que por vezes ocorriam em Belém, onde a produção cinematográfica começava a surgir potente no final dos anos 1990 e início dos 2000.

No ano 2004 em viagem para Portugal conheci a Cinemateca Portuguesa, um museu do cinema português, com várias salas de exibição com programação de clássicos do cinema mundial onde assisti mostras de David Lynch, Coppola, John Cassavetes e dezenas de filmes portugueses. A infraestrutura e o cuidado para preservar a história do cinema em Portugal, a preocupação didática em exibir os clássicos em projeções de obras restauradas foi tocante. O respeito pelo cinema e pelo espectador, o cuidado com a preservação dos filmes, projetores, cartazes e documentos, a compreensão que uma cinemateca é muito mais que um acervo de filmes, é um monumento ao cinema. Ali naquele museu do cinema estava guardada a identidade de um povo, a memória de um lugar. Voltando à Belém recebi um convite para trabalhar como pesquisador no Museu da Imagem e do Som do Pará. Já conhecia o MIS-Pará desde 1999 quando fiz meu trabalho de conclusão do curso de Comunicação Social sobre o Sistema Integrado de Museus, órgão da Secretaria de Cultura do Estado do Pará, do qual o MIS-Pa faz parte. Minha primeira função foi identificar o acervo e depois comecei a trabalhar em design gráfico e nos projetos de captação de recursos do museu. Lá conheci  os filmes de Líbero Luxardo e os cinejornais de Milton Mendonça, pioneiros do cinema paraense. Um novo cinema entra no espectro de obras cinematográficas, filmes com uma conexão com a minha memória e identidade. 

Participei pelo MIS-Pará do 26º Congresso da FIAF, Federação Internacional de Arquivos de Filmes, sediado pela Cinemateca Brasileira. As duas instituições marcaram a partir daí profundamente minha vida de pesquisador do cinema. A FIAF pela compreensão do cinema como patrimônio da humanidade e a Cinemateca Brasileira a guardiã do nossa memória cinematográfica. Em 2006 estagiei na Cinemateca Brasileira pelo projeto de intercâmbio do Sistema Integrado de Informações Audiovisuais que mapeava o cinema brasileiro. De volta do estágio elaborei e aprovei os projetos de implantação do Laboratório de identificação de películas e de restauro dos filmes em branco e preto do Líbero Luxardo, ambos em 2006, onde os títulos “Perde o Pará seu Grande Líder“ (1959), “Um dia qualquer” (1965), “Belém do Pará” (1966) e “Marajó – Barreira do Mar” (1966/1967) foram restaurados e digitalizados pela Cinemateca Brasileira, Além desses projetos deixei o esboço do projeto de celebração dos 100 anos de nascimento de Líbero Luxardo. 

A ideia de criar um site sobre o cinema paraense já havia nascido mas foi ficando em estado de espera por conta do meu envolvimento em projetos de pesquisa em música e artes visuais. No ano de 2009 com o aperfeiçoamento da plataforma WordPress e a internet 2.0, mais interativa e com uma plataforma intuitiva e simplificada para criação, publicação e manutenção de websites, era o momento de criar este espaço sem grandes custos e equipe reduzida. O primeiro passo foi organizar os arquivos, informações e mapear a produção audiovisual no Pará dispersa na internet. A entrada da Cinemateca Paraense no ciberespaço em março de 2010 foi um marco pessoal e uma responsabilidade com a pesquisa, os realizadores e as informações compartilhadas. Ser independente de instituições públicas e privadas, ser o idealizador, curador e pesquisador nos deixa mais livres para as escolhas e rumos da pesquisa mas não diminui a cobrança interna e externa.

Em 2012, depois de várias tentativas frustradas, conseguimos patrocínio para um projeto da Cinemateca Paraense, a exposição e mostra Cinema no Pará: História e Memória. Em um espaço cultural de Belém com galeria de arte e sala de cinema realizamos o projeto em parceria com o Museu da Imagem e do Som do Pará. A exposição de projetores e câmeras, objetos de cena, storyboards de filmes, cartazes ficou dois meses em exposição e fez parte da programação da Semana de Museus. A mostra de filmes ocupou durante uma semana o Cine Líbero Luxardo, principal cinema de arte de Belém. O fluxo de visitas ao site, revisto e atualizado para o evento, passou de dezenas para milhares de acessos ao mês. 

Minha parceira de vida e projetos, a museóloga Deyse Marinho e desde então coordenadora de pesquisa do projeto, fez a defesa de sua monografia sobre o MIS-Pará em 2013, intitulada “Museu da Imagem e do Som do Para: lugar de memória e esquecimento” e que traça uma linha históricas das gestões do museu e analise seus acervos e projetos de preservação ao longo de cinco décadas. Esse trabalho foi a base de nossa nova metodologia de pesquisa e catalogação, a reformulação de nossa missão e objetivos e o novo rumo em direção à preservação do patrimônio audiovisual. Ainda no ano de 2013 realizamos, novamente em parceria com o MIS-Pará, a primeira “Semana de preservação do patrimônio audiovisual” em outubro de 2013 em alusão ao Dia do patrimônio Audiovisual, 27 de outubro, estabelecido pela UNESCO. Nesta edição foi realizada uma oficina de preservação audiovisual, uma mesa de discussão sobre o tema e o lançamento do livro “Manual de preservação de acervos fílmicos” de José Maria Pereira Lopes, profissional da TV Cultura de São Paulo, referência brasileira em acervos fílmicos. A segunda edição ocorreu em 2014, desta vez em parceria com a TV Cultura do Pará e a UFPA 2.0, com oficina de gestão de CPDOCs (acervos de redes de televisão), mesas de debate e comunicações.  

Em 2013 ingressei no Programa de Pós-graduação em Artes da UFPA com um projeto de pesquisa sobre o projeto que defendi em 2015 com a dissertação “O site Cinemateca Paraense e a preservação virtual do patrimônio audiovisual”, nela faço um percurso cartográfico da minha trajetória de pesquisa em cinema no site e uma proposta de história do cinema realizado no Pará desde os anos 1960, além de uma narrativa de todo o processo de  idealização, pesquisa e arquitetura da informação da Cinemateca Paraense. Com mais de 20 entrevistas em texto e vídeo e uma catalogação inédita da filmografia paraense o trabalho pioneiro no tema. Como desdobramento visual da minha dissertação criamos o projeto da exposição “Linha do tempo: 60 anos de cinema paraense” (2016) exibida na Galeria Elétrica, espaço no porão da sede do casarão que era nossa residência e sede da Cinemateca Paraense, que também utilizámos para sessões de cinema e bate-papos.

Ingressei em  2019 na Escola de Belas Artes da UFMG para cursar Doutorado em Cinema e apresentei como projeto de tese uma proposta de revisão da história do cinema do Pará sob a perspectiva decolonial de estudos do cinema que contemplem a realidade sócio, econômica e política da realização audiovisual no estado do Pará, incluindo e indo além de sua dimensão documental, poética e estética. Os dez anos da pesquisa serão celebrados em um período de incertezas com os rumos do audiovisual no país mas com uma convicção firme na importância da pesquisa sobre o patrimônio artístico e cultural para a compreensão do passado e na elaboração de propostas para a preservação da identidade cultural para as futuras gerações de artistas e cidadãos.

Ramiro Quaresma é curador de cinema e artes visuais. Mestre em Arte (PPGArtes-ICA-UFPA) e Doutorando em Cinema (Belas Artes -UFMG)

“A PRODUÇÃO DOCUMENTAL DA TV CULTURA DO PARÁ” por Felipe Cortez // III SPAA

A PRODUÇÃO DOCUMENTAL DA TV CULTURA DO PARÁ

Felipe Cortez

Uma TV entre o Mito e a Fronteira

A Fundação Paraense de Radiodifusão (FUNTELPA) nasceu em 1977, por meio do decreto 10.136, no governo de Aloísio Chaves, vinculada à Secretaria de Estado de Cultura, Desportos e Turismo. O primeiro veículo da FUNTELPA, a Rádio Cultura Onda Tropical, alcançava o interior do Pará e países próximos na região amazônica. A TV Cultura, entretanto, nasceria dez anos mais tarde, em 15 de março de 1987, por investimentos do governo de Jader Barbalho, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), entre 1983 e 1986 (CASTRO, 2012, p. 151). No mesmo período, inaugura-se o prédio da Fundação Cultural do Pará (CENTUR), outro aparelho estatal de cultura. Portanto, criada pelo governo de Aloísio Chaves por decreto de 29 de junho de 1977, em pleno governo militar, a FUNTELPA é pensada enquanto parte de um projeto de poder que, segundo Roberts (1995)  teria um objetivo duplo: “[…] criar um sinal de comunicação intermitente capaz de integrar o território nacional – no caso da Amazônia um objetivo particularmente estratégico – e ocupar o espectro, evitando que o sinal de emissoras em Ondas Curtas (OC) de países do bloco socialista fossem captados […]” (ROBERTS, 1995 apud CASTRO, 2011). As emissões da TV Cultura do Pará só teriam início em 1987, próximo ao fim do regime militar brasileiro. Ao longo dos anos 1990, com a redemocratização, entretanto, o projeto de construção de uma “TV que tem a cara do Pará”, slogan adotado pela TV Cultura no ano de sua fundação, dialogava com a volta das narrativas de reafirmação das identidades regionais que ocorreu em todo o país.

[…] Com a luta pela redemocratização do país e com o processo de abertura política que marcaram o fim do ciclo militar (1985), velhas questões começaram a surgir novamente. Assim, apesar ou talvez por causa  da crescente centralização, observam-se atualmente tendências contrárias a ela, que se manifestam por meio da ênfase da necessidade de um verdadeiro federalismo, da proclamação das vantagens de uma descentralização administrativa, do clamor por uma reforma tributária que entregue mais recursos para os Estados e municípios e da afirmação de identidades regionais que salientam suas diferenças em relação ao resto do Brasil […] (OLIVEN, 2001, p. 09).

A TV Cultura do Pará, ao se propor como espaço de representação de uma ideia de identidade paraense, nasce com o propósito de fornecer este tipo de narrativa para a sociedade paraense. Iniciativa política e ligada ao projeto de poder vigente, como parte da estratégia de descentralização administrativa e tributária, a afirmação da identidade paraense encontrou na emissora criada pelos militares um lugar ideal para a sua operação.

Segundo Malcher, Lima e Vidal (2010, p. 69), “[…] os objetivos estruturantes da Cultura não eram meras metas, mas sim a organização de um campo televisivo até então inexistente no Pará […]”. O primeiro deles seria o aspecto público, “que se diferencia por natureza da orientação privada, presente nos modelos de televisões vigentes no Estado”. Outros objetivos seriam “[…] Equipar convenientemente a televisão, formar recursos humanos, começar a criar uma programação regional que justificasse a existência da televisão, dar credibilidade à nova emissora […]” (MALCHER; LIMA; VIDAL, 2010, p. 69). Emissora que desde os primórdios encontrou no jornalismo uma importante estratégia de comunicação que demandava uma sólida base de produção.

[…] Para dar os primeiros passos a televisão comprou seus equipamentos no Rio de Janeiro e São Paulo, eixo consolidador da televisão no Brasil. A infraestrutura inicial custou 33 milhões de cruzados, a moeda da época, funcionando com 86 antenas, equipamentos de transmissão, um estúdio, um complexo exibidor, um complexo de gravação e uma sala de apoio onde funcionavam o jornalismo e a administração […] (MALCHER; LIMA; VIDAL, 2010, p. 31).

A estreia definitiva da emissora, que até então operava em caráter experimental, se dá em 31 de março de 1987, com a estreia do Jornal Cultura. No início de 1988, a produção da emissora já estava estabelecida. Segundo Andrade e Nascimento (2006), a grade de programação da televisão pública paraense naquele ano já era composta pelos núcleos de jornalismo e produção. Enquanto o departamento de jornalismo era responsável pela realização de três telejornais diários, o departamento de produção realizava seis programas: Via Pará, Salve a Floresta, Sem Censura Pará, Enfim, Som no Tucupi e Debates Cultura.

O Via Pará constituiu, para Castro (2011, p. 152), uma espécie de “[…] laboratório de construção discursiva sobre identidade amazônica […]”.

[…] Tratava-se de um programa quinzenal, com uma hora de duração. Três ícones da dinâmica cultural belemense estavam presentes nele: o cantor Walter Bandeira, realizando entrevistas despojadas, num tom confessional – inclusive do
entrevistador; o repórter Mário Filé e a atriz Natal Silva, famosa intérprete da “Cabocla”, tipo popular paraense consagrado pelo espetáculo teatral Ver-de-Ver-o-Peso, criação do Grupo Experiência e reencenado durante cerca de 30 anos em Belém […] (CASTRO, 2011, p. 152-153).

Essa produção inicial, integrante do governo de Hélio Gueiros, também é marcada pelo programa de documentários produzidos pela emissora, o TV Documento. O produtor José Carlos Gondim lembra do primeiro programa de exibição de documentários do Pará e, possivelmente, do Norte do país.

O TV Documento era como se fosse a nossa cereja do bolo, porque eram documentários que a gente viajava[…]Teve um documentário sobre o Waldemar Henrique que ganhou prêmios, um documentário sobre as manifestações culturais de Óbidos como a procissão das velas. A gente ia pro interior, sabe? Trombetas, sobre a questão da mineração no rio Trombetas; Tapajós, a mineração no Tapajós; aquele negócio do mercúrio no Tapajós; Tembé, dos Tembé, a festa da moça… muitos documentários de primeira. (…) Era o único canal paraense que abria pras nossas questões (José Carlos Gondim, entrevista concedida ao autor em 2017).

A vinheta do programa evidenciava, desde já, alguns dos temas de interesse da época. Um rolo de filme apresentava, inicialmente, uma identificação com a linguagem cinematográfica. Vemos em seguida a película ser desenrolada contendo imagens em seu interior. Primeiro de uma máquina de escrever para contar histórias. Depois de crianças trabalhando no campo, um retrato da realidade no interior do Pará. Segue com um grande plano da capital paraense, uma vista grandiosa da metrópole amazônica. Depois uma sucessão de imagens do caroço do fruto do açaí, do rosto pintado de um jovem indígena e de uma onça pintada. Todos elementos referenciais de uma suposta identidade paraense. O programa TV Documento, a partir de sua vinheta, se apresentava como espaço para o registro da realidade amazônica.

Frame da vinheta do programa TV Documento que exibiu o documentário Tembé (Lilia Afonso, 1991), apresentada pelo radialista Arturo Gonçalves.

No segundo mandato do governador Jader Barbalho (1991-1994), a produção da TV Cultura do Pará passou a realizar dezenove programas, mantendo três da gestão anterior: Sem Censura Pará, Enfim e Salve a Floresta. Foram incluídos dezesseis programas na programação: Belém Urgente, Câmera Dois, Cartas na Mesa, Contraponto, Cultura da Terra, Fogo Cruzado, Janela de Belém, Janela do Pará, Momento Comunitário, MPP Acústico, Nossos Comerciais por Favor, O Negócio é o Seguinte, Parabólica, Planeta Água, Ronda dos Orixás, Saúde e Sonata. Paralelamente, o departamento de jornalismo passou a produzir dois telejornais diários.

Após três gestões do PMDB, seguem-se doze anos de gestões do PSDB, duas do governador Almir Gabriel (1995-98 e 1999-2002) e uma do governador Simão Jatene (2003-2006). A programação da emissora mudou consideravelmente, sobretudo no departamento de produção. O único programa que se manteve foi o Sem Censura Pará. Foram criados doze novos programas: Coluna do Pedaço, Pará Verão, Nota da Sorte, Ser Paraense, Solo Pará, Profissão Pará, Arquivo Cultura, Catalendas, Clube do Samba, Harmonia, Papo Cabeça e Revista Feminina. Alguns desses programas eram o que se pode chamar de inter-programas, programas com duração de até um minuto. Já o jornalismo passou de duas para uma edição diária. O outro telejornal, do meio-dia, deu lugar a um programa esportivo.

Entre 2007 e 2010, a governadora Ana Júlia Carepa (PT) escalou a jornalista e pesquisadora Regina Lima para a presidência das emissoras FUNTELPA. Nesta gestão, a TV Cultura do Pará renovou sua programação e estabeleceu parcerias com os produtores independentes, por via de editais públicos, para realizar alguns dos seus conteúdos. Entraram no ar os programas Sementes, Varadouro, Brasil da Amazônia, Regatão Cultural, Café Cultura, Invasão, Set 7 Independente, Vídeo-Verso, Cena Musical, Arquivo Cultura, Cinerama, Controvérsia. Outros programas de destaque na casa foram mantidos, como o Cultura Pai D’Égua e o Esporte Cultura. No departamento de jornalismo, o Jornal Cultura passou a ter duas edições diárias (MALCHER; LIMA; VIDAL, 2010, p. 122).

Na gestão correspondente ao segundo e terceiro mandatos do governador Simão Jatene (2011-14 e 2015-18), durante a qual as emissoras Cultura foram presididas pela jornalista Adelaide Oliveira, a TV Cultura do Pará realizou os programas Sementes, Invasão, Serenata Dum Dum, Protótipo, Pai D’Égua, Catalendas, Sem Censura Pará, Timbres, Coxia, Circuito, Compartilhar, Conexão Cultura, Amazônia Samba e Cultura.DOC – sendo essa a faixa de documentários realizados pela emissora e outros realizadores paraenses –, além dos inter-programas e dos eventos pontuais de temas variados transmitidos ao vivo. Um projeto documental importante que marca essa produção é a série de curtas documentais Sonora Pará, que convidou realizadores independentes a produzir registros documentais de artistas da cena musical paraense. Já o jornalismo mantém uma edição diária do Jornal Cultura pela noite, além de emissões de hora em hora chamadas Cultura da Hora, e, no período do Campeonato Paraense de Futebol – geralmente no primeiro semestre – era realizado ao vivo o programa Meio de Campo.

Ao longo das diferentes gestões da FUNTELPA, a grade de programação da televisão sofreu alterações conforme o pensamento editorial vigente. Fábio Castro, entretanto, afirma que a emissora sempre manteve um interesse constante em dar visibilidade ao que supunha ser o universo simbólico da “cultura paraense”, em uma operação enunciativa constituinte de uma prerrogativa de representação da identidade. Atento as relações entre enunciação, discurso e ideologia, o sociólogo sugere que, ao longo da história da emissora, esta “ideologia essencialista-patrimonialista” teria constituído instrumento político para o fornecimento de “elementos de identidade para o poder público e para os grupos sociais hegemônicos, que historicamente se revezam na ocupação da estrutura do Estado” do Pará, representados pelo PMDB, PSDB e PT (CASTRO, 2012, p.150).

[…] Patrimonialista, no sentido de reproduzir a lógica da ocupação do Estado por determinados grupos de hegemonia, e essencialista, no sentido de reproduzir uma percepção fechada da identidade, marcada pela negação da variedade e do conflito, inerentes a todo processo identitário […] (CASTRO, 2011, p. 158).

Ele cnclui, assim, que a identidade amazônica tematizada pela TV Cultura do Pará constituiria uma “mediação política” (CASTRO, 2012, p.164), no sentido de um processo intersubjetivo promovido pelos agentes do estado e operado pelos artistas e profissionais da emissora, conscientes ou não de o estarem fazendo. Processo de reprodução social que seria alimentado pela ausência de esforço crítico dos próprios agentes da enunciação. E “mediação política” enquanto processo que, intersubjetivamente, construiu, ao longo da história da emissora, um ethos de representação, uma matriz de produção de imagens da “cultura paraense” sintetizada por elementos de um imaginário ribeirinho que constituiriam “referenciais identitários” para as elites de Belém.

Tal afirmação, entretanto, exige estudos que investiguem estas representações efetuadas em diferentes programas e contextos sociais e históricos da TV Cultura do Pará, em sua inter-relação com o contexto cultural, político, artístico e midiático de cada época. Por outro lado, Fábio Castro também sugere que a reprodução de imagens da “identidade paraense”, do caboclo e da paisagem ribeirinha, por exemplo, se dão mais no campo da reificação, de forma não-dialética e acrítica, negando qualquer possibilidade de conflito e oferecendo a visão de um ideal-tipo harmonizado, o que seria problemático, uma vez que a cultura nasce e se desenvolve no campo do conflito.

[…] os programas produzidos pela emissora sempre falaram em ‘cultura’ (como diz o próprio nome da emissora) como se cultura fosse somente arte, artesanato, culinária e religião, enquanto que cultura é bem mais que isso: é trabalho, produção, política, conflito. Por que evitar a tensão, quando a tensão equivale à crítica, a autocrítica e, portanto, à superação social? Por que evitar falar de tensão, quando tensão também, é, fundamentalmente, a nossa identidade? […] (CASTRO, 2012, p. 164).

Não desejo criar uma ideia falsa de que exista um modo único de produzir imagens deste imaginário ou de realizar documentários na TV Cultura do Pará, que indique uma continuidade no modo de abordar aquela matriz de representação, mas coexistem, no contexto mais amplo da emissora, formas de abordar e de representar a cultura paraense, que resultam na ideia de que a TV Cultura do Pará, assim como a sua mantenedora, a Fundação Paraense de Radiodifusão, representa um agente de produção simbólica de uma certa ideia de “identidade paraense”, que seria sintetizada, segundo Fábio Castro, pela reprodução redutora da tipificação da cultura do homem ribeirinho, do caboclo paraense como um ideal-tipo, como um homem amazônico idealizado. Ideia que deve ser melhor investigada.

Entretanto, no próprio exercício profissional e artístico enquanto produtor audiovisual na emissora desde 2011, observo que a reprodução de elementos da cultura ribeirinha como representantes de uma totalidade da identidade paraense, ocorre em muitos casos de forma acrítica e indiscriminada, por diversas razões. Seja pela dinâmica cotidiana do jornalismo que preconiza uma certa velocidade na produção dos conteúdos, sejam lacunas na formação dos profissionais, seja a própria ignorância sobre o lugar simbólico que eles ocupam na trama de produção de imagens de identidade, etc., são diversos os fatores que concorrem para a reprodução quase mecânica deste tipo de representação que conformaria, segundo Fabio Castro (2012), uma espécie de “texto de arquivo”, isto é, uma recorrência de modos de representar a cultura e o imaginário ribeirinho, operada em diferentes épocas e gestões da emissora, cuja principal característica seria a “patrimonialização do popular”.

[…] O popular é envolto por uma aura de proteção institucional centrada num discurso sobre o “respeito” e manifesta por meio de estratégias de “resgate” e “proteção” do que se acreditava perdido ou estava em vias de se perder, operação que pode ser vista como uma espécie de ambientalismo cultural, ou seja, uma defesa quase paranóica do que entende por identidade cultural […] (CASTRO, 2012, p. 159).

Esta leitura das representações midiáticas da cultura paraense pelas produções da TV Cultura do Pará encontra eco em uma diversidade de produções da emissora, como nos parece ser também o caso dos documentários. Entretanto, neste estudo buscamos refletir sobre obras documentais que desviam desta representação e, até mesmo, a questionam.

Histórico da produção documentária

Quase trinta anos de existência da TV Cultura e são praticamente trinta anos de produção de documentário. A gente, desde o começo, fez questão de, mesmo que intuitivamente, registrar a história, a cultura, a arte paraense. E a característica principal disso é que a gente sempre se permitiu experimentar (Depoimento de Tim Penner, para o Programa Circuito, 04.06.2016).

A fala do editor Tim Penner denota as preocupações e anseios da primeira geração de produtores da TV Cultura do Pará, formada por profissionais das primeiras emissoras de televisão de Belém, como a TV Marajoara, e por estudantes universitários que encontraram na emissora e no fazer documentário um espaço de experimentação em televisão. Um destes estudantes, à época, foi Junior Braga, cuja trajetória se confunde com a própria emissora. 

Eu acabei colocando na prática um monte de coisa que a gente aprendia na faculdade e que a gente não tinha como fazer na faculdade, né? E acabou assim sendo uma das funções da Cultura, né? Ser uma escola pra quem tá afim de aprender, quem tem interesse, quem gosta do métier, quem gosta do audiovisual, quem gosta de rádio, quem gosta de experimentação, que não é só o jornalismo diário (Entrevista com Júnior Braga, para o Programa Circuito de 03.05.2018).

O “jornalismo diário” pode ter sido uma escola para os primeiros realizadores de documentário na emissora, não à toa parte considerável desta produção se utiliza de diferentes técnicas do telejornalismo, a experimentar a linguagem em busca de novas possiblidades narrativas para além da linguagem jornalística também era encorajado na emissora.

Vamos agora abordar a produção de documentários da TV Cultura do Pará. É importante registrar, antes, que ao nos referirmos a produção documentária da TV Cultura do Pará, estamos falando dos documentários realizados pela emissora a partir da atuação dos seus funcionários. Assim, produções da emissora realizadas por produtores independentes a partir de editais, como DOC.TV (2007 a 2010) e Edital Cultura de Audiovisual (2017 em diante), bem como de projetos específicos, como Sonora Pará, não serão levados em conta por este estudo, apesar de representarem importantes realizações documentárias da história da TV Cultura do Pará.

Entre 1987 e 2017, de acordo com dados da memória arquivística da emissora, foram realizados 106 programas descritos como documentários. Estes programas documentais televisivos retratam diferentes aspectos da vida no estado do Pará: os problemas das cidades, saberes e fazeres de comunidades rurais, as populações indígenas, fatos culturais, perfis biográficos de artistas, intelectuais e personalidades históricas, etc. Realizados por diferentes gerações de produtores, estas obras, em um primeiro momento, são portadoras sobretudo de um discurso e um formato jornalístico que os vincula a tradição do documentário clássico, cara a realizadores como John Grierson, para quem o documentário deveria constituir um “tratamento criativo das atualidades” na busca de soluções para os problemas de representação do outro.

Percorrendo a produção documental da emissora, podemos destacar os grandes temas do seu universo de representação, a começar pelo final da década de 1980. Em 1987, ano em que a TV Cultura do Pará entrou no ar, foram realizados dez documentários para o programa TV Documento, sobre temas diversos do universo social e cultural do estado: a violência contra as mulheres (Maria das Dores), os festejos populares (Boi Tinga, Festa do Sairé), lugares (História do Bairro do Benguí, História do Bairro de Nazaré, Ilha de Mosqueiro), instituições públicas (Museu Emílio Goeldi), etc.

Já em 1988, o número de documentários produzidos sobe para 13, e avança na produção de olhares para a realidade paraense. Em Arquitetura Amazônica são evidenciadas algumas das influências da arquitetura europeia sobre obras paraenses. 

Questões sociais são pautadas em Da Senzala a Baixada, que discute o  preconceito racial em Belém; Proibido jogar lixo, sobre os destinos do lixo urbano em Belém a partir do fechamento do Lixão do Aurá; Educação, Exercício Vida e Arte, que aborda diferentes aspectos da educação no Pará; e S.O.S. Tapajós, sobre a corrida do ouro em Itaituba, sul do Pará. São ainda realizados os primeiros documentários sobre realidades dos povos da floresta na emissora, como Karubixexe – Munduruku, sobre a história dos índios Munduruku nos municípios de Itaituba e Oriximiná; e Waiana – Apalai, sobre a vida e cultura dos índios do parque Tumucumaque. 

A jornalista Lilia Afonso dirige e apresenta o documentário Waiana Apalai (1992), produzido como reportagem para o departamento de jornalismo da TV Cultura do Pará e, posteriormente, reeditado com como documentário.

A vida dos povos da floresta era e ainda é uma fronteira a ser atravessada pela produção audiovisual no Brasil, mas desde o início da TV Cultura do Pará a vida dos indígenas gerava interesse para as lentes da emissora, dirigidas por jornalistas como Lilia Afonso. Segundo Afonso, haveria “a determinação da emissora de mostrar e valorizar as coisas do Pará e a minha crença de que era preciso chamar a atenção para a causa indígena. O resto era buscar oportunidade para contar essas histórias e muita pesquisa” (Entrevista de Lilia Afonso concedida para Karine Pedrosa, em 2018).

A jornalista dirigiu documentários como Tembé (1991) e Waiana-Apalai (1992) e lembra que a produção dos primeiros documentários jornalísticos sobre os povos indígenas era feita sem “muita preparação, em TV tudo era feito na correria”. Geralmente contava-se com a ajuda de antropólogos para a obtenção de informações sobre determinado povo. O principal, lembra Afonso, era o material colhido no próprio local, histórias dos próprios guerreiros, chefes de postos, missionários e “todo o pessoal que vivia entre eles”. Lilia Afonso comenta o processo de pesquisa do documentário Waiana-Apalai.

A pesquisa maior que era feita, normalmente, após as gravações, já com mais tempo pra preparar o roteiro do documentário, junto à Funai, UFPA, Museu Goeldi, CIMI (Conselho Indigenista Missionário), etc. Acho que esse aspecto fica bem claro no vídeo, inclusive, pela falta de imagens para cobrir determinados offs com informações conseguidas depois das gravações. Mas a falta de uma imagem não impedia que a informação fosse repassada. Nosso compromisso era mostrar aquela realidade, o ponto de vista dos índios ou de algum pesquisador, denunciando o que houvesse para ser denunciado. E sem nenhum tipo de censura. Realmente, não tenho recordação de ter que deixar de abordar um tema ou divulgar uma informação por questões políticas. (Entrevista de Lilia Afonso concedida para Karine Pedrosa, em 2018).

Se por um lado um pesquisador como Fabio Castro afirma que a produção de conteúdos da emissora está atrelada a um projeto de poder, atravessado por questões políticas, por outro uma jornalista que viveu o cotidiano da emissora por anos faz questão de garantir a ausência de interferência dessas questões sobre a produção de um documentário. Para mim se trata de um fato significativo, que denota a diversidade de percepções do fazer documental na emissora.

Um observador externo enxergaria com maior acurácia um processo cultural complexo do que alguém que se localiza internamente ao processo, tornando-o operatório? É possível. Isto me leva a pensar a minha própria posição em relação a esta pesquisa. Eu, neste momento, revisitando um processo cultural, a produção de documentários da TV Cultura do Pará, na perspectiva de um pesquisador. Paralelamente, também fui um agente interno, que operou o processo, enquanto realizador de documentários da emissora. Então, quando Lilia Afonso diz que não havia interferências sobre a criação, mas um senso de oportunidade para criar uma vez que se tratava de um “interesse” da TV Cultura, isto me leva a pensar na experiência mais recente do “Núcleo de Documentários”. Em nenhum momento, nos diferentes projetos de que participei, sofri qualquer constrangimento editorial. Da pesquisa a exibição do produto final na emissora. O que eu percebo hoje, criticamente, é que nem todo assunto teria espaço na emissora. Na época de Lilia Afonso, o interesse pelos povos indígenas era, como ela mesmo afirma, latente. Na experiência do “Núcleo de Documentários”, aos artistas, notadamente os músicos, era reservado um espaço maior, em decorrência da própria relação da emissora com a cena musical a época, o que pode ser percebido, entre outras questões, pela centralidade de um projeto como o “Terruá Pará” e pelo boom experimentado por alguns artistas da cena musical paraense em outras regiões do Brasil.

Um retrato intimista do maestro Waldemar Henrique constitui o documentário Waldemar Henrique da Costa Pereira (Marlicy Bemerguy, 1989).

Voltando ao esforço de percorrer a produção documental da emissora, também foram produzidos filmes sobre o que viria a ser uma das vocações da TV Cultura do Pará: cartografar as manifestações populares do território paraense. Em 1988 ainda foram produzidos Negro Santo – Marujada, sobre os festejos de São Benedito na região de Bragança; e Círio – Vela Acesa, contando uma história do Círio de Nossa Senhora de Nazaré. Empreitadas sobre a histórias de lugares (Cenários de Belém; De Braços Abertos) e paisagens (Praia do Salgado; Mar Dulce) também são realizadas. Além do primeiro documentário de caráter biográfico da emissora, Waldemar Henrique da Costa Pereira, sobre a vida e obra do maestro paraense.

Anos 1990

Nos anos 1990, uma diversidade de questões sociais, lugares, fenômenos culturais e instituições públicas se torna objeto dos documentários produzidos pela emissora. A participação da mulher na política paraense, a partir da possibilidade do sufrágio universal, é investigada pelo documentário Saias, Laços e Ligas (1990) produzido tendo por base uma dissertação de mestrado da pesquisadora e crítica de cinema Luzia Alvares. Em A Farra da Terra (1990), discute-se criticamente a questão agrícola no Pará. Em Menor e Companhia (1990), é produzido um retrato do trabalho infantil na cidade de Belém.

As produções de caráter jornalístico-etnográfico também são mantidas: em Tembé (1990), conhecemos o “wirahawo”, ritual de iniciação das índias Tembé; em Guajás (1992) conhecemos essa sociedade e os impactos de projetos do capitalismo global sobre o seu modo de vida; e Pukobie – Gaviões (1990), temos uma reflexão sobre uma comunidade indígena que vive a beira de uma estrada; Índios Guará: interdição da ferrovia (1993), fala sobre as reações das comunidades originárias aos grandes projetos. Por outro lado, também se fala da presença do estrangeiro na região, como em Japoneses na Amazônia, em que são investigados os vestígios da imigração nipônica nesta região do Brasil; além de uma série de documentários sobre a Amazônia lusitana e a herança portuguesa.

A vida ribeirinha também ganha registros documentários em Navegar é preciso (1990), sobre a construção de barcos de madeira; Parceiros do mar (1991) que fala sobre a pesca artesanal no estado; Transporte Fluvial em Belém, que discute o potencial hidrográfico da capital paraense para o transporte. Grandes projetos, materializações do capitalismo global na Amazônia, também são tematizados por estes telefimes. Carajás (1991), Companhia Vale do Rio Doce (1993), Soja no Pará (1993), Mercado secundário do ouro em Itaituba-PA (1994) são produções que exploram realidades da fronteira econômica amazônica. Ainda são produzidas duas novas biografias: Magalhães Barata: 100 anos depois (1990), sobre o caudilho interventor do Pará; e Roberto De La Rocque Soares: um homem e seu tempo (1995), sobre o mestre das artes paraense.

Anos 2000

Nos anos 2000 é registrada uma queda no número de produções em relação a década anterior. Alguns temas são resgatados em produções que os atualizam, como Círio (2000) e Marujada: Festa em Bragança (2005). Outras biografias são realizadas, a exemplo de O Homem do Balão Extravagante (2005) e Haroldo Maranhão: o homem Infinito da Escrita (2002).

Na documentação arquivística, entretanto, percebemos lacunas cronológicas, sobretudo no tocante a produção do período correspondente a gestão de Regina Lima, durante o governo Ana Júlia Carepa. Por outro lado, a própria documentação existente apresenta dados imprecisos, como a presença de documentários produzidos por realizadores independentes, mas exibidos na emissora, como Lugares do Afeto: a fotografia de Luis Braga (2005), realizado pela cineasta Jorane Castro, e A Barca: Turista Aprendiz (2005) e Eretz Amazônia (2004).

Outros documentários marcantes dessa década foram Pavulagem do Teu Coração (2005), sobre o grupo Arraial do Pavulagem; e Saudadesábia (2006), rodado em Portugal em busca das relações entre colonizador e colonizado na formação histórica do Pará.

Anos 2010

Nos anos de 2010 começa a produção que conforma a experiência do “Núcleo de Documentários da TV Cultura do Pará”, que vai incidir sobre a própria forma de realizar documentários na emissora. O diretor Robson Fonseca, um dos idealizadores do Núcleo, lembra que a partir de 2011, com a nova gestão da TV Cultura do Pará liderada pela jornalista Adelaide Oliveira, surgem produções que dialogam com uma outra estética documentária e a necessidade de pensar e viabilizar a realização destas obras.

A TV Cultura, a gente sempre ouviu aqui que ela tem o DNA de produzir documentários, tá no DNA da emissora. Taí uma coisa eu gostava muito de assistir os documentários da Cultura. […] Mas eu sempre assisti os documentários que eram produzidos pela própria emissora. Naquela época eles tinham mais aquela pegada jornalística, e por conta de todo um esquema de trabalho que se tinha na época, né? E era muito difícil de se produzir. E hoje em dia é bem mais fácil. Aí a gente teve essa ideia da gente formar um núcleo de documentários aqui de pessoas pra pensar documentário na Cultura. Foi formado por mim, pelo Roger Paes, pelo Junior Braga e pelo Roger Elarrat (Robson Fonseca em entrevista concedida ao autor, 2018).

O primeiro documentário desta fase, Benedito Nunes – Mora na Filosofia, fala da vida do filósofo e crítico literário que morrera em 2010 a partir das memórias da sua casa. Filme que desvia do discurso jornalístico e dos seus recursos para apresentar histórias de foro íntimo do filósofo a partir das vozes daqueles que conviveram com ele e da visualidade da sua “concha existencial”, a residência de Benedito Nunes. O discurso verbal não predomina sobre o visual: ambos constituem a obra. Diferente do telejornalismo, que, pela própria oralidade dominante da linguagem televisiva, corriqueiramente se utiliza da imagem fomo recurso de ilustração do discurso verbal.

A partir de Benedito Nunes – Mora na Filosofia (Junior Braga, 2011), são realizados documentários como Pau & Corda: Histórias de Carimbó (Robson Fonseca, 2012), Beneditos (Lygia Maria, 2012), Mosqueiro: Ilha dos Sabores (Roger Paes, 2013), Fé na Estrada (Junior Braga e Felipe Cortez (2013), Balanço do Rock: a mais tribal de todas as festas (Robson Fonseca, 2014), Cametá: Histórias para Ouvir e Contar (Roger Paes, 2014), Vidinha Maizomenu (Roger Paes, 2015), Deboche (Robson Fonseca, 2016), Verequete 100 Anos (Guaracy Brito, 2016), Ler de Paixão (Júnio Braga, 2017), A Batalha do Livramento (Nassif Jordy, 2018), Piracaia: Sabores do Baixo Amazonas (Felipe Cortez e Junior Braga, 2018) e Caminhando com Toni Benedito Soares (Felipe Cortez, 2018), obras que resultam da experiência aqui denominada de “Núcleo de Produção de Documentários”.

Vamos refletir, a seguir, sobre algumas das características que marcam a produção de documentários da TV Cultura do Pará: o telejornalismo e a experimentação de documentários produzidos por diferentes realizadores da emissora.

Documentário e telejornalismo

O fazer documentário na TV Cultura do Pará é atravessado pelo telejornalismo. Jornalistas como Lúcia Leão, Aracélia Farias, Marlicy Bemerguy, Lilia Afonso, Tim Penner, Edvan Feitosa, Junior Braga, Carlos Gondim, André Genu e Afonso Klautau são responsáveis por alguns dos primeiros documentários da emissora. Produção que se traduziu em uma das marcas distintivas da TV Cultura do Pará. “Aliados ao jornalismo, os documentários configuraram o perfil da TV Cultura. Esse tem sido o grande nicho no qual a emissora-produtora se especializou, e pelo qual tem se distinguido tanto local, como nacional e internacionalmente” (MALCHER; LIMA; VIDAL, 2010, p. 89).

O documentário jornalístico Maria das Dores (Lúcia Leão, 1987) marca o início da produção de documentários na TV Cultura do Pará e se utiliza de técnicas do telejornalismo, tributárias da tradição do documentário griersoniano. Entrevistas, enquetes, narração e imagens organizam o discurso e conduzem para a tese final, que não é demonstrada, apenas suscitada: de que o quadro de violência contra as mulheres é uma questão social complexa cujo enfrentamento cabe, sobretudo, ao Estado, as Leis e a Sociedade Brasileira, sendo o estado do Pará um microcosmos dessa realidade. Características do jornalismo que, segundo Fábio Castro, contribuiriam para o projeto de afirmação identitária da emissora. […] O jornalismo procurava, o quanto possível, uma cobertura detalhada e com muitas falas populares, sempre atento à proposta de construir uma referência identitária local […] (CASTRO, 2012, p. 152).

Assim, documentário Maria das Dores assume a forma de um especial de televisão, incorporando em sua estrutura formal uma chamada de intervalo. Não há uma hierarquia entre personagens, sendo apresentado um amplo retrato da violência contras as mulheres no Pará, sobretudo na cidade de Belém. Por fim, a produção do documentário decorre de pautas esparsas, realizadas após um planejamento prévio, e costuradas na edição linear. 

Em uma das cenas do documentário, dona Maria, vítima de mutilação pelo ex-marido, lamenta a condição em que se encontra. Corta para o marido, preso na delegacia da cidade, ainda indignado com sua própria sorte, justificando o terrível crime pelo fato de ter supostamente sido traído por ela. Não se avança tanto na complexidade do caso de tentativa de feminicídio: o crime contra dona Maria apenas é trazido à tona para ilustrar, mostrar, a superfície de um cenário complexo e que deveria merecer maior atenção da sociedade. A “imagem ilustrativa” é uma convenção do discurso jornalístico bastante utilizada nesta e em outras obras documentárias em questão.

D. Maria Ferreira, vítima de tentativa de feminicídio mutilada pelo ex-marido, relembra o crime no documentário “Maria das dores”.

Maria das Dores foi um dos primeiros de uma série de documentários jornalísticos realizados na emissora, muitos deles resultantes do aprofundamento de matérias produzidas para o departamento de jornalismo, em função do grande volume de material produzido nas externas, e que acabou rendendo reedições com longas durações. Pela duração estendida, então, essas matérias acabavam sendo chamadas de documentários. E, de fato, na emissora, quando numa gravação externa se produz uma grande quantidade de imagens, não é raro que um cinegrafista pergunte se está filmando para um documentário. Por outro lado, muitas destas produções não deixam de sê-lo: constituem asserções sobre o mundo histórico, trazem um ou mais pontos de vista, se apresentam como representações possíveis e comentários sobre o real. Entre outros recursos, muitos destes documentários apresentam a figura do repórter, a narração em off, dados estatísticos, infográficos, a disposição ética jornalística e uma suposta neutralidade diante dos fatos: características do discurso telejornalístico utilizadas na representação do outro (BARBEIRO; LIMA, 2013).

Fernão Ramos (2013) afirma que a primeira característica a diferenciar documentário e reportagem é a dimensão autoral do primeiro, dimensão subjetiva que Bill Nichols chama de “voz do documentário”. Segundo o crítico americano “[…] cada documentário tem sua voz distinta. Como toda voz que fala, a voz fílmica tem um estilo ou uma natureza própria, que funciona como uma assinatura ou impressão digital […]”(NICHOLS, 2005, p.135). A voz do documentário, assim, pode ser entendida como a conjunção das técnicas e recursos que dão um caráter único para a obra. “O filme fala conosco, através da composição, movimentos de câmera, música adicionada, através de todas as técnicas cinemáticas e estilísticas que estavam disponíveis ao cineasta” (BONOTTO, 2009, p. 251)

Além disso, enquanto que a reportagem se encontra ligada ao formato enunciativo chamado programa, geralmente um telejornal, o formato enunciativo do documentário, por sua vez, é o filme. Em termos de recursos de enunciação, a reportagem é marcada pelo discurso do âncora do telejornal durante as chamadas, a figura do repórter, a locução em off, o olhar-câmera telejornalístico, e a ligação sincopada entre as notícias (reportagens) sem necessariamente uma narrativa que as articule de maneira global. Outra diferença apontada por Ramos (2013) é que o documentário não estaria ligado a “[…] acontecimentos cotidianos de dimensão social que denominamos notícia […]” (RAMOS, 2013, p. 59), uma vez que ambos possuem temporalidades diferenciadas.

Mas há ainda os casos dos programas jornalísticos que veiculam conteúdos de natureza documentária, articulando o formato enunciativo fílmico. É o que ocorre com programas como o Fantástico, ao exibir produções encomendadas como documentário Falcão: Meninos do Tráfico(MV Bill e Celso Athayde, 2006) e o próprio Globo Repórter. Os documentários de que vamos tratar aqui encontram-se no interior de programas, faixas de programação especializadas em documentários: a TV Documento (1990) e a Cultura.DOC (2018). Ambos os programas se constituem de uma “cabeça de abertura” ancorada por apresentador, que introduz a obra e o seu tema, seguida da exibição da própria obra com seus respectivos pontos de intervalo – geralmente dois –, vinhetas de entrada e saída de intervalo, e vinheta de encerramento com a ficha técnica do programa.

Lentes institucionais e experimentais

Enquanto diversos documentários da emissora seguem a linha telejornalística, outros constituíram experimentos formais. Um dos diretores que rompeu com a estética jornalística nos documentários da emissora foi Júnior Braga. Ele próprio jornalista, encontrou na TV Cultura do Pará um espaço para o experimento.

No começo eu tinha um olhar nitidamente jornalístico. Eu sou o jornalista, então eu olhava a lente e a câmera com um olhar de jornalista. Que é só fazer o registro, da melhor maneira, da realidade. Só que, com o tempo, tu vais sofisticando mais o teu olhar (Júnior Braga, para o Programa Circuito de 03.05.2018). 

Não houve propriamente uma transição do formato jornalístico para outras formas documentárias mais livres, até porque isso seria negar a possibilidade de experimentalismo no documentário jornalístico, mas as palavras de Junior Braga denotam a coexistência de diferentes formas documentais. Em Magalhães Barata: 100 anos depois (Lúcia Leão, 1988), a figura do repórter dá espaço a figura do ator que representa. Interpretando o interventor paraense, o ator Cláudio Barradas trás em seus textos não somente informações da época e da biografia, como também transmite uma impressão, muito sua, da personalidade do político caldilho. Estas inserções são intercaladas por entrevistas, enquetes, imagens de documentos e monumentos históricos.

O ator Cláudio Barradas interpreta o caudilho paraense no documentário “Magalhães Barata: 100 anos depois”

Já em Saias, Laços e Ligas (André Genu e Lúcia Leão, 1988), o impulso experimental busca, por meio de diferentes formas de dramatização, reconstituir, na primeira metade do século XX no Pará, o contexto de luta pelo sufrágio universal. 

Gravadas em locações que remetem a uma Belém pretérita, como o Theatro da Paz e o Palácio Lauro Sodré, estas esquetes dinamizam a narrativa, que tem no cerne uma entrevista com a pesquisadora Luzia Álvares. O especial documentário foi realizado a partir da sua dissertação de mestrado, o que já demonstrava um interesse pelo desenvolvimento do conteúdo pautado não apenas pela premissa jornalística da pauta, mas pela pesquisa qualitativa de bases históricas e sociológicas.

Frames do documentário “Saia, Laços e Ligas” | No frame da esquerda, Walda Marques interpreta uma jovem dos anos 1930. À direita, a socióloga Luzia Alvares, principal fonte de pesquisa do documentário.

Entre o cinema e a TV, mas amparadas sobretudo pela tecnologia vídeo, estas produções refletem não somente o espírito de uma época como também diferentes imaginários sobre a Amazônia, marcado pela atuação de artistas e intelectuais integrantes de uma intelligentsia local, aquilo que Fábio Castro chamou de “moderna tradição amazônica”, que constitui “[…] uma nostalgia da Amazônia: um registro antes do fim, potencial ou ficcional, que a intelligentsia belemense preliba para seu lugar encantado, para sua cidade ou para si mesma […]” (CASTRO, 2012, p. 252).

Atravessados pela ideia de lugar de memória (NORA, 1993), muitos dos documentários da TV Cultura do Pará buscaram o registro, mais do que a investigação ou a problematização crítica, de realidades, como assim o fizeram, no início da investigação antropológica, os primeiros etnógrafos, um “registro antes do fim”, em uma espécie de “ambientalismo cultural”. Isto pode sugerir que as produções da TV Cultura do Pará apresentam uma visão fechada e cristalizada de cultura e não como um processo cultural vivo e contínuo, que se dá sob a bandeira do conflito. Entretanto, algumas das produções documentárias apontam caminhos para a reorganização do olhar para a cultura enquanto elemento dinâmico e vivo, processo cultural pulsante que ressignifica experiências sociais e culturais, trazendo para eles um olhar atual, claro, mas também dando voz a um outro muitas vezes silenciado pelo discurso jornalístico anterior. Não se trata da busca jornalística por neutralidade: a figura do jornalista imparcial deu lugar, nestas obras, para a figura do realizador que constrói o seu discurso sobre o mundo histórico a partir de uma voz própria.

Em “Pau & Corda: Histórias de Carimbó”, Robson Fonseca propõe a grupos a gravação de videoclipes, forma industrial da cultural de massas, como meio de documentar as performances daqueles artistas. Durante o processo de pesquisa sobre os grupos, o diretor e sua equipe realizaram entrevistas e buscaram histórias do cotidiano destes criadores. Já em Outubro. Segundo Domingo, Larissa Ribeiro criou sua narrativa a partir de vídeos gravados por celulares no período do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, em Belém, revelando aspectos da intimidade e do afeto de devotos e participantes da peregrinação em sua relação com as mídias móveis. O filme só poderia existir pela participação do público convocado a produzir imagens por uma campanha das emissoras Cultura no Círio de 2015.

Outra característica dessas obras é a fragmentação, muito presente nas narrativas televisivas. Em Beneditos, Lygia Maria investiga as duas faces da devoção a São Benedito na região Bragantina: a Marujada e a Esmolação. Para tanto, a edição do documentário se desloca entre um conjunto de aspectos das duas manifestações, por meio de pequenos clipes, produzidos em diferentes espaços e tempos. Já Ler de Paixão, de Júnio Braga, transita por diferentes realidades da leitura na cidade de Belém, mixando paisagens e histórias de forma não-linear.

O diretor e jornalista Roger Paes interage com seu Ribamar, pescador do Furo das Marinhas, no documentário Mosqueiro: Ilha dos Sabores (2013), enquanto realizador e personagem deste roteiro gastronômico.

A presença do realizador em cena, seja interagindo com os personagens, seja representando, ele mesmo, uma personagem envolvida por aquele meio, constitui aquilo que Bill Nichols classificou como “documentário performático” (NICHOLS, 2006). Interessa aqui o estar na cena como forma de intervenção sobre o mundo. É o que um realizador como Roger Paes faz em Mosqueiro: Ilha dos Sabores, documentário em que Roger percorre a ilha em busca de histórias por trás de quitutes e pratos típicos locais.

Algumas das obras constituintes da produção mais recente de documentários da emissora evitam qualquer pretensão a uma totalidade na representação da cultura. Buscam, antes, pequenas histórias, texturas do cotidiano, recortes. Benedito Nunes: Mora na Filosofia (Júnior Braga, 2011) não conta a vida do filósofo, mas percorre a sua “concha existencial”, sua casa, e, portanto, sua intimidade, humanizando o intelectual: uma outra faceta desta espécie de “monumento” acadêmico. Pau & Corda: Histórias de Carimbó (Robson Fonseca, 2012) não trata de uma história totalizante do ritmo popular, mas de “histórias de carimbó”, relatos dos grupos sobre aspectos do cotidiano. Verequete: 100 anos (Guaracy Brito, 2015), não se concentra na biografia do músico, mas na relação de um conjunto de artistas com a sua obra. Cametá: Histórias para Ouvir e Contar (Roger Paes, 2015), dramatiza relatos orais e fala do cotidiano da cidade de Cametá, marcado por personagens curiosos. Já em Vidinha Maizomenu (Roger Paes, 2016), também de Roger Paes, são as “histórias de acampamento”, prática cultural daquela região, que movimentam a narrativa marcada por longos relatos orais.

A utilização de imagens amadoras conforma uma estética e demarca uma necessidade de experimentação. É o que pode ser visto em Outubro. Segundo Domingo (Larissa Ribeiro, 2015), documentário composto em sua totalidade por imagens de telefones celulares, produzidas em uma premissa de que esta mídia móvel é, na contemporaneidade, extensão do corpo e objeto do afeto. Já em A Batalha do Livramento (Nassif Jordy, 2018), o diretor recorre a imagens de celulares dos membros da aldeia Tembé-Tenetehara de Santa Luzia do Pará para registrar a invasão do “kariaw”, o homem branco, a terras da reserva indígena, onde realizam a exploração ilegal da madeira. O celular, aqui, é objeto cotidiano que torna visível uma realidade subterrânea da luta pela terra no Pará.

Se a utilização de imagens amadoras é um recurso permitido por uma tecnologia contemporânea, o celular, na composição das narrativas documentárias mais recentes da emissora, nunca se utilizou tanto a imagem de arquivo, sejam os arquivos pessoais, seja o arquivo de fitas da própria emissora. Em Balanço do Rock: a mais tribal de todas as festas (Robson Fonseca, 2015), o realizador reconstitui a época de surgimento do programa de rádio de mesmo nome a partir de imagens de arquivo cedidas por músicos do underground de Belém e as imagens de episódios marcantes desta cena cultural, como as da matéria jornalística do Jornal Cultura, produzida em 1992, sobre a catástrofe do evento Rock 24h, por muitos apontado como um divisor de águas para a inviabilização do rock na capital paraense. Já em Deboche (Robson Fonseca, 2016), o perfil da vida do cantor e radialista Walter Bandeira é construído por imagens de arquivo de fontes diversas: acervos pessoais e das emissoras Cultura.

Por sua vez, em A Batalha do Livramento, Nassif Jordy reconstituiu o histórico da relação dos Tembé Tenetehara com a sociedade envolvente a partir de imagens de arquivos pessoais, documentos históricos e do documentário “Tembé” (1990), realizado enquanto registro de um ritual de passagem das meninas da aldeia para a vida adulta. Em seu filme, Jordy leva o antigo documentário de volta a aldeia Tembé quase 30 anos depois de sua realização, e se depara com uma recepção crítica da obra pelos membros da aldeia, sobretudo do cacique Naldo Tembé, líder daquela comunidade. E, por fim, em Caminhando com Toni Benedito Soares (Felipe Cortez, 2018), a história de três décadas de carreira do músico bragantino Toni Soares é contada pela articulação de performances e depoimentos atuais com cenas de momentos diversos da trajetória do artista registradas pela emissora e hoje integrantes do seu arquivo de fitas.

As identidades em trânsito são o tema de fundo de praticamente todas as obras da produção documentária recente da TV Cultura do Pará e demarcam um “estar entre o mito e a fronteira” (CASTRO, 2012). O mito, ideia de origem do lugar, imaginário e cultura, ameaçado pela fronteira econômica, as transformações impostas as paisagens natural e humana e operadas pelos grandes projetos na Amazônia, forma concreta do capitalismo.

É sob o signo da luta identitária que se dá a realização do documentário A Batalha do Livramento, de Nassif Jordy. O filme conta a história de cárcere e tortura de 77 guerreiros tembé-tenetehara que lutavam contra a exploração ilegal da madeira em sua reserva por moradores do povoado de Livramento, em Capitão Poço, no Pará. História ocultada pelo silêncio, que só vem à tona durante a pesquisa de mestrado do realizador-pesquisador sobre o impacto da chegada da luz elétrica na aldeia sede dos Tembé, em Santa Luzia. A partir do contato, o interesse de Jordy se desloca da chegada da eletricidade para as narrativas orais daquele povo: tanto as narrativas cosmológicas, sobre o mito, quanto as narrativas de guerra, que evidenciam a luta política daquele povo por sua identidade. A partir da ideia de acontecimento, em Michel Foucault, Nassif Jordy toma, em sua pesquisa, a narrativa do episódio dos 77 como dispositivo a partir do qual instaura uma discussão sobre as lutas atuais daquele povo, em torno da transmissão dos saberes, da relação com as sociedades envolventes e da defesa do direito a terra e do respeito as diferenças.

É do conflito de visões sobre o ser Tembé, as visões do representado e a do que representa, no passado e no presente, que emerge a força de “A Batalha do Livramento”, não como mea culpa pela forma redutora de representação das tensões identitárias enfrentadas por aquele povo naquela época, mas como espécie de tomada de consciência do poder do documentário enquanto instrumento de visibilização de demandas sociais e históricas do povo Tembé, neste caso articulado a um grupo de pesquisas da academia que atua no fortalecimento daquelas identidades junto as novas gerações Tembé. O documentário, assim, explora o potencial identitário da memória.

A partir deste panorama da produção documentária da TV Cultura do Pará, buscamos evidenciar os temas desta produção, assim como a presença das técnicas do telejornalismo em algumas destas obras. Seguimos lançando luz sobre o impulso experimentalista que demarca parte desta produção, colocando em relevo alguns dos recursos que compõe as vozes imanentes a estes telefilmes, bem como suas estratégias de abordagem. Ao nos aproximarmos desta produção, nos avizinhamos de um universo de representações de ideias de identidade, no interior do qual evidenciamos os sujeitos de pesquisa deste estudo: as memórias documentárias que emergem do movimento de ir ao encontro de dois documentários da emissora e de seus realizadores. 

 

 

Felipe Cortez é documentarista. Mestre em Artes (PPGArtes/ICA/UFPA).

 

CORTEZ, Felipe M. G. Memórias Documentárias: a produção documental da TV Cultura do Pará. 2019. Dissertação (Mestrado em Artes) – Programa de Pós-Graduação em Artes, Universidade Federal do Pará, Belém, 2019.

 

III Semana do Patrimônio Audiovisual da Amazônia: Janelas para o Mundo

Em 27 de outubro é celebrado o dia mundial do patrimônio audiovisual e a Cinemateca Paraense preparou uma série de publicações especiais para lembrar a data. Criada pela UNESCO a data especial é uma ação mundial para discutir a importância da preservação de filmes como fonte de conhecimento e documentos históricos para a humanidade. 

A III Semana do Patrimônio Audiovisual da Amazônia, em edição virtual, visa contribuir para a pesquisa do cinema e da produção audiovisual em nossa região, celebrando os realizadores, os pesquisadores e os principais filmes que registram memórias de um tempo e lugar.

Entre 26 e 30 de Outubro de 2020 serão publicados artigos, filmografias e obras para relembrar também os 10 anos da Cinemateca Paraense. Nosso site e redes sociais serão as plataformas para montar uma linha do tempo das imagens em movimento que registram nossa identidade amazônica. 

#27out #patrimonioaudiovisual #audiovisualheritage #cinemaparaense #cinemanaamazonia

“Breve história do cinema paraense”

Sessão 02 – Dia 13 de outubro (terça-feira), às 19 horas

“Breve história do cinema paraense”

Convidados:

JANUÁRIO GUEDES

É diretor e roteirista de cinema, vídeo e TV; jornalista; mestre em Comunicação pela UFRJ; professor universitário, Conselheiro da CNIC/MinC – 2009/2012; assessor da presidência da Fundação de Telecomunicações do Pará – 2007/2008.
Em cinema e vídeo, realizou entre outros trabalhos: A Outra Margem do Olhar”, curta metragem, documentário-ficção, 35 mm (direção e roteiro); “Belém aos 80”, de Alan Guimarães, longa metragem, documentário, vídeo, 2007 (argumento e entrevistas); “Círio de Nazaré”, média metragem, documentário, vídeo, produção do IPHAN, 2001 (co-direção e roteiro); “Belém, Metrópole das Luzes”, curta metragem, documentário, vídeo, 1998 (co-direção e roteiro);“Carro dos Milagres”, de Moises Magalhães, curta metragem, ficção, 16 mm (direção de produção); “Ver-O-Peso”, curta metragem, documentário-ficção, 16 mm, 1984 (direção e roteiro); “Bye, Bye, Brazil”, de Cacá Dieguez, longa metragem, ficção, 35 mm, 1979 (coordenador local de produção em no Pará)

RAMIRO QUARESMA

Doutorando em Artes/ Cinema EBA-PPGArtes – UFMG (2019). Professor do Instituto de Ciências da Arte – UFPA (2014-2019) lecionando nos cursos de Cinema e Audiovisual e Produção Multimídia. Documentarista. Artista visual. Curador independente/ pesquisador de artes visuais / artemídia e cinema. Mestre em artes pelo PPGArtes-ICA-UFPA e formado em Comunicação Social – UNAMA. Idealizou o blog Cinemateca Paraense (Cinema). Realizou em 2013 e 2014 a Semana de Preservação do Patrimônio Audiovisual.

Mediador:

HEITOR BENJAMIM CAMPOS

Sociólogo e coordenador do Cine Darcy. Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense; Mestre e Doutor em Sociologia Política pela Universidade Estadual do Norte Fluminense. Atualmente, bolsista de pós-doutorado do Programa de Pós-graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense.

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CARTA ABERTA EM DEFESA DO CENTRO TÉCNICO AUDIOVISUAL E DA CINEMATECA BRASILEIRA 


CARTA ABERTA EM DEFESA DO CENTRO TÉCNICO AUDIOVISUAL E DA CINEMATECA BRASILEIRA 
No dia 07 de agosto de 2020, a Secretaria do Audiovisual (SAv), vinculada ao Ministério do Turismo, recebeu as chaves da Cinemateca Brasileira. Desde então, mesmo após encontros com associações do setor e promessas de resolução do impasse administrativo, os rumos da instituição permanecem incertos e o acervo segue desprotegido. No dia 16 de setembro, Edianne Paulo de Abreu foi nomeada para a Coordenação Geral do Centro Técnico Audiovisual (CTAv), entidade federal também vinculada à SAv. As duas entidades pertencentes ao Ministério do Turismo, responsáveis pela preservação do patrimônio audiovisual brasileiro estão com as suas estruturas de gestão fragilizadas. De um lado, um órgão público sem comando especializado, nem recursos para gerir o maior acervo audiovisual do país; de outro, uma instituição que passa a ser comandada por uma profissional sem conhecimento e preparo técnicos específicos para gerir um órgão com tamanha complexidade e importância.

O CTAv foi criado em 1985, a partir de um acordo de cooperação técnica entre a Embrafilme e o National Film Board do Canadá, com a missão de apoiar, capacitar, difundir e preservar o audiovisual brasileiro. Desde então, o CTAv apoia a produção de filmes e séries com cessão de equipamentos de filmagem e finalização, além de alguns serviços, em parcerias estabelecidas através de editais. Seu valioso acervo audiovisual inclui materiais que remontam aos anos 1930 e é constituído por cerca de 6 mil títulos e 30 mil rolos de filmes, além de 20 mil negativos fotográficos e quase 2 mil cartazes. Entre as obras, a maior parte da filmografia do pioneiro Humberto Mauro e clássicos da animação brasileira. A nova reserva técnica, lançada em 2013, possui os parâmetros climáticos ideais para a conservação de filmes e tem capacidade para 100 mil rolos. Sua existência é fundamental para a comunidade audiovisual e, devido às suas competências específicas, a instituição precisa ser comandada por profissional com experiência no setor.  

As associações aqui subscritas vêm manifestar enorme preocupação com os rumos tomados pela Secretaria do Audiovisual em relação aos órgãos responsáveis pela preservação do patrimônio audiovisual brasileiro e pelo apoio à produção independente. Produtores, cineastas, artistas, curadores, pesquisadores e programadores de salas e mostras de cinema dependem do acesso a esses acervos e instituições para a continuidade de seus trabalhos. Não é somente a preservação audiovisual que se fragiliza neste momento, mas toda a cadeia da produção audiovisual brasileira se vê em risco. A ausência de ações concretas para a resolução do vácuo administrativo da Cinemateca Brasileira e a nomeação de uma coordenadora sem experiência para a gestão do CTAv fragilizam o audiovisual brasileiro.

Em um Estado democrático de direito, as políticas públicas devem ser formuladas com o setor produtivo e a sociedade civil – e jamais estar a reboque de interesses eleitorais. Defendemos, portanto, a importância de um princípio fundamental da gestão pública: a necessidade de nomeações de caráter técnico para órgãos públicos, com o reconhecimento das características técnicas, administrativas e culturais das instituições vinculadas ao audiovisual brasileiro e do mérito dos profissionais especializados da área.
São Paulo, 21 de setembro de 2020. 

ABPA – Associação Brasileira de Preservação Audiovisual

ABRACI – Associação Brasileira de Cineastas

APAN – Associação dxs Profissionais do Audiovisual Negro

ABRACCINE – Associação Brasileira de Críticos de Cinema

SOCINE – Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema

ABCA – Associação Brasileira de Cinema de Animação

ANDAI – Associação Nacional Distribuidores Independentes

API – Associação das Produtoras Independentes do Audiovisual Brasileiro

ABD-SP – Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-Metragistas de São Paulo

ABD-DF- Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-Metragistas do Distrito Federal 

ABD-GOIÁS – Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-Metragistas de Goiás

APTC-RS – Associação Profissional de Técnicos Cinematográficos do RS 

SOS Cinemateca-APACI – Associação Paulista de Cineastas

Movimento Cinemateca Acesa

ABCV – Associação Brasiliense de Cinema e Vídeo

STIC – Sindicato Interestadual dos Trabalhadores na Cinematográfica e do Audiovisual – RJ

SINDCINE – Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Cinematográfica e do Audiovisual dos Estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins e Distrito Federal

SIAESP – Sindicato da Indústria Audiovisual do Estado de São Paulo

DOSSIÊ LÍBERO LUXARDO #01

“O Reflexo do Lago”, de Fernando Segtowick, na Seleção Oficial do Festival do Filme Etnográfico Jean Rouch

AMAZÔNIA DOC 6: FILMES SELECIONADOS

O festival Amazônia Doc divulgou os filmes selecionados para sua sexta edição. Os documentários paraenses “Jaburu” de Chico Carneiro, “Mestre Cupijó e seu ritmo” de Jorane Castro e “Transamazonia” de Debora Mcdowell, Bea Morbach e Renata Taylor, entre os longas/médias, e “Ari y Yo” de Adriana Faria, na categoria de curtas, estão entre os selecionados. O festival em sua sexta edição acontecerá este ano em plataforma digital.

Longas/Médias: http://www.amazoniadoc.com.br/selecionados#longa
Curtas: http://www.amazoniadoc.com.br/selecionados#curta