Textos críticos

“Aruanã” (1938) de Líbero Luxardo – Ciclo Mato-grossense

Filme raríssimo do cineasta Líbero Luxardo, produzido pela Cinédia e realizado no Mato-Grosso em 1938. Antes de chegar no Pará o cineasta paulista já havia realizado três filmes de longa-metragem em seu ciclo Mato-grossense, “Alma do Brasil” (1932), “Caçando Feras” (1936) e este “Aruanã” (1938). É curioso o estilo semi-documental imposto por Luxardo aos seus filmes, sempre nos prólogos. Esse “Aruanã” tem grandes semelhanças estéticas com “Marajó: barreira do mar” (1966), as tomadas de paisagem, a estória do pesquisador/explorador em terras estranhas, o romance água-com-açúcar de fundo. “Aruanã” se encontra no acervo do Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio e não sei quem foi o cinéfilo que postou esse filme no Youtube que era inédito pra nós da Cinemateca Paraense, caso ele tire do ar já baixamos tudo, uma obra importante como essa não pode nem vai ficar presa dentro de um arquivo, deve ser  pública. Boa sessão.

A quinta parte está neste link, clique aqui. (a incorporação está bloqueada)

Cinemateca Paraense – Entrevista para o blog Curta em Circuito

Ramiro Quaresma é belenense, de 75. Além de tocar o blogCinemateca Paraense, Ramiro é documentarista, publicitário, pesquisador e grande parceiro.

Como surgiu o interesse em registrar um pouco da história do nosso cinema no Cinemateca Paraense?

A paixão pelo cinema é o princípio de tudo, mas pesquisar o cinema vai muito além de ser um cinéfilo, é um processo de compreensão da evolução do cinema enquanto indústria, onde a transformação estética é sempre uma revolução científica. Passei a ler sobre cinema, e não simplesmente assistir filmes. De 2006 a 2008, trabalhei no Museu da Imagem e do Som do Pará e comecei a pesquisar o cinema paraense pra gerar projetos pro Museu, catalogar e difundir seu acervo. Nesse museu, elaborei três projetos fundamentais pra memória do cinema paraense: o Laboratório de Películas do MIS, onde foram adquiridas moviolas pra identificar o acervo; o Projeto de restauro dos filmes em B/P do cineasta Líbero Luxardo, pela Cinemateca Brasileira; e o Centenário deste cineasta.

Fiz um estágio na Cinemateca Brasileira e também participei do 26º Congresso da Federação Internacional de Arquivos de Filmes, realizado pela Cinemateca Brasileira em São Paulo, onde entrei em contato com instituições mundiais de preservação de audiovisual, em que se discutiam os rumos dessa tipologia de acervo. A idéia de que a preservação passa pela difusão da informação vem dessa experiência. De que adianta preservar sem que a sociedade tenha acesso a esses documentos audiovisuais? Como saí do MIS sem conseguir implementar esse ideal de compartilhamento do acervo, resolvi fazer isso como pesquisador independente.

Belém já viveu seus anos de glória no que diz respeito ao cineclubismo. Estamos presenciando um revival, ainda que tímido?

Nunca participei de cineclubes, mas acho um ambiente muito importante pra formação cinematográfica. Nos anos 1980, quando virei espectador assíduo, os cineclubes ou não existiam ou eram sociedades secretas. O cinema então foi uma experiência artística solitária, mas sei que dos cineclubes é que surgiu a concepção de Cinemateca nos anos 1950. O acervo pessoal de André Bazin, por exemplo, e de seu grupo de amigos, futuros cineastas franceses com Truffaut e Godard, deu origem a Cinemateca Francesa.

No Brasil, o cineclube do MAM, organizado por Paulo Emílio Salles Gomes, foi a raiz da Cinemateca Brasileira. Pedro Veriano e sua geração poderiam ter feito em Belém processo semelhante, mas ficaram apenas assistindo fitas e silenciosamente vendo-as sendo perdidas. Pedro Veriano, inclusive, relata que enviou películas pra Paulo Emílio guardar na primeira Cinemateca, que foi quase totalmente destruída por um incêndio. O pesquisador de cinema, em contraponto ao cinéfilo, deve gerar conhecimento e preservar, na medida do possível, o material fílmico. Isso deveria ser mais discutido nos cineclubes, não mais “Deus e o Diabo na Terra do Sol”.

Qual a importância da cultura cineclubista em um cenário audiovisual em expansão?

Acredito que ausência de uma instituição como uma cinemateca, pra servir de centro de pesquisa, exibição e formação, dá espaço pra que os cineclubes se multipliquem. Penso que um cineclube dever surgir de forma espontânea, estão praticamente impondo a certas comunidades a formação de cineclubes, muitas vezes como palanque político. Abrem debates cinematográficos pra fazer política, não tem nada de cinema nisso. Acompanho as ações da APJCC, eles são o principal cineclube do Pará atualmente. As sessões comentadas e os cursos da Caiana Filmes são outro centro bem interessante de formação.

O cinema é uma obra de arte pra ser exibida em grandes telas pra grandes platéias, mas sua mágica é individual, interna, cinema pra mim é pensamento e catarse. Sobre a expansão citada, acredito que a grande vanguarda do cinema atualmente está no documentário, em todas as suas formas e tendências. Nesse sentido, o Amazônia Doc é o grande evento de cinema aqui no Pará. A internet é um bom caminho pra se discutir essas questões, e é o caminho que optei com o blog Cinemateca Paraense.

 

O fim de todos os cinemas de rua, que pena! – por José Carneiro

O fim de todos os cinemas de rua, que pena!

José carneiro

 

Belém foi marcada por grandes cinemas, mas hoje só há salas em locais fechados

Já é uma realidade insofismável (sem ser novidade) que os cinemas de rua em Belém são uma espécie completamente extinta, jazendo sepultada nos desvãos da história. Oxalá eu pudesse provar, para mim mesmo, que estou enganado. Infelizmente não estou e por isso me aflijo. E escrevo!

Neste mês de abril o Cine Olímpia completaria 96 anos como o cinema mais antigo do Brasil em funcionamento. Mas, lamentavelmente, ele o deixou de ser no ano de 2006, precisamente no dia 16 de fevereiro, às 22 horas, quando projetou a última sessão cinematográfica de sua história e, ao final dela, cerrou as portas para sempre. A empresa ‘Luiz Severiano Ribeiro’, uma das maiores exibidoras cinematográficas do país, dona do prédio e responsável pela programação da sala, diante dos prejuízos sucessivos que não conseguia evitar, optou pela solução de mercado, deixando de lado, por razões óbvias, a tradição cultural, a história e, quiçá, a memória. Nada conseguiu salvar o Olímpia dessa ruptura com o seu passado e com o título de antiguidade que ostentava.

Sobre as cinzas da tradição do Olímpia, a Prefeitura de Belém tentou edificar uma nova história para a sala exibidora, primeiro alugando o prédio e, em seguida, criando uma espécie de centro cultural para várias finalidades, incluindo a exibição de filmes, gratuitamente. Está claro que o Olímpia, com sua programação normal de exibição, definitivamente já não existe e o ‘mocinho’ não chegou ao final do ‘roteiro’ para salvá-lo. A manutenção da atual proposta, que por enquanto ainda agrada aos ‘Severiano Ribeiro’, é tão imprevisível quanto a quantidade de chuva que tem caído recentemente em Belém. Naquele inglório dia do fechamento do Olímpia, dirigi um documentário sobre a triste data, minha contribuição pessoal à memória desse ícone da sétima arte que Belém e o Pará perderam.

Pouco depois a empresa, pelas mesmíssimas razões, encerrou as atividades dos cines Nazaré 1 e 2 (este o antigo Cine Iracema). Aqui ela nem sequer anunciou a última sessão, como fez, usando de discreta elegância, em relação ao Olímpia. Apenas, para iludir o público, colocou nos letreiros a frase ‘fechado para reforma’, engodo que durou quase um ano de espera, quando finalmente ela cedeu à proposta feita por uma rede de magazines. Alguns anos antes haviam surgido quatro salas exibidoras, que pouco duraram, caso dos Cines Doca 1 e 2 e os Cines Castanheira 1 e 2. Essas salas foram iniciativas pessoais do empresário Alexandrino Moreira, um banqueiro apaixonado pelo cinema, que ajudou a modernizar o ambiente exibidor de Belém. Além desses, ele havia implantado os cinemas Um, Dois e Três, hoje arrendados para a Moviecom, pouco antes de seu falecimento. Alexandrino Moreira já vinha sentindo os efeitos deletérios da crise e não via saída para os seus cinemas senão vender os prédios, ou arrendá-los. Ele nunca escondeu isso e me falou, abertamente, numa entrevista. As salas já mudaram de nome e brevemente mudarão de lugar.

Crise atingiu primeiro os cinemas de bairro

O último exemplo de fechamento de cinema em Belém é o do Ópera, vizinho dos Cines Nazaré. O Cine Ópera já encerrou suas atividades de exibição cinematográfica como era previsível, embora de forma imperceptível, pois o grande público de cinema não mais freqüentava a sala inaugurada em 1961, como me apresso a explicar, antes de ser contestado. O Cine Ópera conservou, até recentemente, um galardão nada invejável de ser o único cinema do Brasil a exibir, em película, filmes pornográficos. Os raros cinemas que ainda resistem utilizam o sistema digital. Com o fim das distribuidoras desse gênero, o Ópera adquiriu as últimas fitas remanescentes e, com esse material mais do que surrado (e canibalizado), ficou projetando repetidamente partes misturadas dos vários filmes existentes. Para os atuais espectadores do cine Ópera, o que menos interessa é o que está sendo exibido e não preciso dizer mais nada. Quero me ater ao fato de que, com programação regular, o cine Ópera deixou de ser sala exibidora de filmes. Ou, para ser mais claro, deixou de ser cinema.

Na linguagem da exibição cinematográfica, havia o cinema de bairro, considerado de segunda linha, uma sala que aguardava os lançamentos nos cinemas do centro para só depois exibi-los. E estes foram os primeiros atingidos pela crise, começando a fechar muito antes que os cinemas do interior. A evolução da grave crise na exibição cinematográfica criou os cinemas de Shopping, salas menores, modernas e confortáveis, menos dispendiosas e exclusivas para os lançamentos, surgidas na esteira das várias fórmulas adotadas no intuito de atrair os espectadores que fugiam paulatinamente das bilheterias. Esta foi a melhor arma utilizada pelo grande exibidor para fazer frente à evasão do público que ameaçava extinguir a atividade. Mas no interior do Pará não sobrou nenhuma sala exibidora, de tantas que existiram. E também aqui estou oferecendo minha contribuição, pois está em fase de acabamento meu livro sobre a extinção dos cinemas no interior do Pará, no qual historio o surgimento, crescimento e esse total declínio, com suas várias causas e iguais conseqüências.

Fonte: Cinema no Tucupi, Pedro Veriano

Fonte: Cinema no Tucupi, Pedro Veriano

Ao longo do tempo, a capital do Pará foi relativamente pródiga em salas exibidoras de filmes e sempre valerá a pena uma revisita memorialistica a elas. Vou mencioná-las como homenagem póstuma de um apreciador de seus produtos em película, que embalaram os sonhos de muitos e cuja ausência tanta falta faz à nossa paisagem física e cultural. Cada cinema teve sua história particular, ligada à origem familiar, ao desempenho comercial, às diversas relações com o público, assuntos para muito mais espaço além do que eu disponho. Pelo menos três livros registram as salas exibidoras que existiram em Belém. O primeiro é ‘Cinema no Tucupi’, (Belém. Secult. 1999), de Pedro Veriano, este certamente o maior cinéfilo do Estado e um dos principais do Brasil. O médico Pedro Veriano respira e transpira cinema em todas as horas do dia, exceto quando está dormindo. Apaixonado pela sétima arte, Veriano sempre foi uma voz e uma pena vibrantes em defesa da exibição cinematográfica. O segundo é ‘Ritmos e Cantares’, (Belém. Secult. 2000), do também médico Alfredo Oliveira, mais memorialista do que cinéfilo, que procurou memorizar os cinemas que povoaram toda a sua infância e adolescência no Pará. O terceiro é ‘A Cidade Transitiva’ (Belém. Imprensa Oficial. 1998) do economista Armando Mendes, que recorda, sem aprofundar, os principais cinemas da capital numa certa época. Esses livros representam memorialística refinada, no meu entender.

Cine Palácio foi o maior e mais luxuoso de Belém

O Cine Palácio encabeça esta lista, que não é pequena e pode, eventualmente, conter alguma lacuna, facilmente corrigível com a ajuda dos leitores. O Cine Palácio, que hoje é um templo religioso (mesmo destino de boa parte das grandes salas exibidoras do Brasil), inaugurado em 1959 foi o maior e mais luxuoso cinema de Belém.

Os cines Moderno e Independência foram propriedades de uma empresa que também distribuía filmes, a Cardoso & Lopes, e durante muitos anos atendeu aos cinemas do interior. Ainda em Nazaré, o Cine Poeira antecedeu o Cine Nazaré, no mesmo lugar.

Na Cidade Velha havia o Guarani e o Universal, no Reduto o Íris, na Praça Brasil primeiro surgiu o São João e depois o Cine Art. No bairro da Pedreira existiram o Paraíso e o Rex, depois transformado no Vitória. Na Sacramenta, o Brasilândia funcionou por poucos anos apenas.

Alguém lembra do Cine Marambaia? Funcionou por algum tempo na avenida Dalva, de forma precária, fruto do interesse pessoal de seu proprietário, um funcionário dos Correios.

Na Base Naval havia o Cine Guajará, que por um período foi aberto ao público, com programação alternativa organizada pelo dr. Pedro Veriano e na Base Aérea o Cine Catalina, administrado pela própria Aeronáutica. Icoaraci chegou a dispor de dois cinemas, o Cine Ipiranga e o Cine Jóia. O distrito de Mosqueiro também teve experiência com a exibição de iniciativa do sr. Odilardo Mescouto, e por fim sob a responsabilidade de Pedro Veriano, que relata em seu livro o sacrifício que enfrentou para manter precariamente a sala exibidora.

Ainda em Belém, há registros do Cine Aldeia do Rádio, no Jurunas, que exibia filmes apenas uma vez por semana e na bitola de 16 milimetros, que era uma alternativa relativamente barata, em relação às películas de 36 mm; do Cine Tamoios, no bairro de Batista Campos; do Cine Rian, em Canudos; do Cine Guajará, na Duque, e do Paramazon, na Travessa Piedade, que também só exibia películas em 16 mm. E cujo prédio ainda existe por lá.

Esses nomes são símbolos que representam os vestígios de uma atividade que teve seu esplendor e que desapareceu, ou se transformou. Mais surpresas a exibição cinematográfica ainda nos reserva para um futuro próximo. Ou, simplesmente, para a memória.

* O autor é cientista político, jornalista e professor aposentado da UFPa, e agora passa a publicar esta seção aos domingos.

 

jqcarneiro@uol.com.br

Fonte: Portal ORM