Filme do mês // Out.2015 – ERNANI CHAVES – ALÉM DO MURO de Darcel Andrade

Uma homenagem  ao professor e cineasta Darcel Andrade, o filme do mês é um documentário em forma de diálogo entre o realizador e o filósofo Ernani Chaves que narra um percurso histórico, filosófico e poético por Berlim.

Título “Ernani Chaves Além do Muro __ Memórias de um Filósofo em uma Alemanha de mudanças”, Documentário, Produção: Uni Escolas Cinema. Diretor/ Produtor: Darcel Andrade.  Roteirista: Ernani Chaves. Editor/montador: Sávio Palheta. Diretor/músico: Artista de Rua em Berlim. País, Região, Estado de Origem: Brasil e Alemanha. Ano de Produção: 2013. Duração:
33 min.

SINOPSE:
“Ernani Chaves – Além do Muro: Memórias de um Filósofo em uma Alemanha de Mudanças”, gravado em Berlim em janeiro de 2013, na oportunidade em que este filósofo brasileiro, nascido na cidade de Soure, Ilha do Marajó, Pará, Amazônia, completa 25 anos de pesquisa Foucoaultiana na Europa e Brasil, dialogando com Walter Benjamim e Nietzsche. O filme fez uma pré-estreia na programação de lançamento do livro ‘Michel Foucault e a Verdade Cínica’, em novembro do mesmo ano em Belém, com a participação de uma seleta plateia de pesquisadores, fãs e críticos de cinema. O filme é um encontro de duas percepções que se complementam como pintura e moldura na harmonia de um diálogo entre o protagonista Ernani Chaves e o diretor e produtor Darcel Andrade. O primeiro é narratário que descreve Berlim a sete graus abaixo de zero e que serviu de cenário com seus personagens históricos na lembrança de filmes clássicos como ‘Asas do Desejo’, ‘O Céu sobre Berlim’ e outros, os quais revelam uma Alemanha de transformações, alvo do pensamento de filósofos contemporâneos e cineastas, sendo Wim Wenders um deles; o segundo é um realizador audacioso e aprendiz que faz do seu cinema instrumento de conteúdos com temáticas sociais ao utilizar uma simples hand cam, e consegue captar os nobres sentimentos do filósofo e sua relação afetiva com a cidade de Berlim. As memórias aqui reveladas, são materializadas com vozes e inserções de clássicos do cinema mundial.

Sobre o realizador

photoDarcel Andrade

Doutoramento em Antropologia na Universidade Técnica de Lisboa, com estudos específicos em Migrações Transnacionais, Desigualdades e Cidadania, Poder, Cultura e Identidades, Modelos de Desenvolvimento Econômico, Métodos Qualitativos em Pesquisa, Projetos de Pesquisa; na mesma Universidade, é colaborador das linhas de pesquisa em Mobilidade, Cidadania e Desenvolvimento – do Laboratório de Pesquisa MobCid, do Instituto Superior de Ciências Sociais e Polítcas – ISCSP/UTL; No Brasil, Doutoramento como Aluno Especial nas disciplinas de Antropologia Social e do Desenvolvimento e Gestão Ambiental pelo Núcleo de Estudos Avançados da Amazônia da Universidade Federal do Pará – NAEA/UFPA; Na mesma Universidade, Doutoramento como Aluno Especial nas Disciplinas Análise do Discurso Narrativo e Linguagem e Interpretação: uma introdução ao projeto teórico de Clifford Geertz no Instituto de Filosofia e Antropologia; Mestrado em Educação na Linha de Pesquisa Saberes Culturais e Educacionais da Amazônia, pela Universidade do Estado do Pará – UEPA; tem três Especializações: SEMIÓTICA E CULTURA VISUAL – UFPA; DOCÊNCIA DO ENSINO SUPERIOR pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC Minas; e RECURSOS HUMANOS EM EDUCAÇÃO pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE; graduação em EDUCAÇÃO ARTÍSTICA, com habilitação em Artes Plásticas e Licenciaturas Plena e Curta, pela Universidade Federal do Pará. Atuou como docente da Escola Superior Madre Celeste – ESMAC; Atualmente é colaborador do Grupo de Pesquisa Cultura e Memórias Amazônicas da Universidade do Estado do Pará – CUMA/ UEPA, e Coordenador Executivo do Projeto de Educação Audiovisual e Extensão Cineclubista Uni Escolas Cênicas de Teatro e Cinema, da mesma Universidade, Capus Vigia de Nazaré; faz parte do Grupo de Pesquisa em Educação Rural da Amazônia – GEPERUAZ – UFPA e realiza projetos de formação no Núcleo de Educação Popular Paulo Freire; é docente de Instituições do Ensino Superior – IES dos Estados do Pará e Paraná, onde ministra as disciplinas de Metodologia de Pesquisa, Didática, Ética e Humanizaçã; tem experiência na área de cinema e teatro com prêmos nacionais e regionais; é produtor independente de filmes de caráter socioeducacional, documentário e ficção, com temas do imaginário do homem amazônico, rural e urbano, com foco antropológico e educacional em escolas e comunidades. Estuda Linguagem audiovisual; saberes do homem marajoara no Museu do Marajó, Amazônia Brasil. Mais, verificar no endereço: http://www.uniescolascinema.blogspot.com

Filme do mês // Ago.2015 – VILA DA BARCA de Renato Tapajós

 

Como foi o processo de realização do Vila da Barca?

Eu havia, há pouco tempo, me ligado a um pessoal de cinema em São Paulo, o Grupo Kuatro, do qual fizeram parte o João Batista de Andrade e o Francisco Ramalho. No grupo, eu já havia feito dois curtas ficcionais em 8 mm, felizmente perdidos. Mas minha fixação era no documentário. Em 1964 fui de ferias para Belém (onde meus pais moravam) e conheci um publicitário chamado Abílio Couceiro. Conversando sobre cinema, eu disse que estava interessado em fazer um documentário sobre a Vila da Barca. Ele se interessou e me disse que tinha uma câmara  16mm e alguns rolos de negativo pb. Também me emprestou um gravador de rolo, grande e incômodo de usar. Fui para Vila da Barca sozinho com a câmara e eu mesmo fiz a fotografia (primeira e ultima experiência no ramo). Depois voltei para gravar um depoimento que havia me chamado a atenção. Quando voltei para São Paulo, ,mandei revelar o material e fiquei com aqueles rolos na mão, sem saber muito bem o que fazer. Discuti a proposta com os companheiros do Grupo Kuatro e depois de muita discussão, um cineasta que não era do grupo, mas era conhecido, o Maurice Capovilla se ofereceu para montar o filme. Ele tinha acesso a uma moviola da Aliança Francesa e lá trabalhamos durante as madrugadas (que era quando havia horário livre e gratuito) até chegar na versão final do filme. O filme rodou no circuito independente durante um certo tempo (de 1965 a 1968) e o Sergio Muniz acabou levando-o para o Festival de Leipzig. Neste Festival o Vila da Barca ganhou o premio de melhor documentário curto. Quando recebi o premio, acreditei que sabia fazer cinema e isso deu no que deu.

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VILA da Barca. Direção: Renato Tapajós. Produção: Abílio Couceiro. Montagem: Maurice Capovilla, João Batista de Andrade, Renato Tapajós. Assistente de Direção: Lais Furtado. Imagem: Fernando Melo / Cinematográfica Bandeirantes. Som: Odil Fonobrasil. Montagem do Negativo e Som: Sylvio Renoldi. Narração: Cláudio Mamberti. Colaboração: Cláudio Barradas, Isidoro Alves, Acyr Castro, Poty Fernandes, José da Silva Marreco. Belém. 1964 10 min. Belém/São Paulo. p&b. Son. Filmado em 16mm.

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Renato Tapajós

VILA da Barca. Direção: Renato Tapajós. Produção: Abílio Couceiro. Montagem: Maurice Capovilla, João Batista de Andrade, Renato Tapajós. Assistente de Direção: Lais Furtado. Imagem: Fernando Melo / Cinematográfica Bandeirantes. Som: Odil Fonobrasil. Montagem do Negativo e Som: Sylvio Renoldi. Narração: Cláudio Mamberti. Colaboração: Cláudio Barradas, Isidoro Alves, Acyr Castro, Poty Fernandes, José da Silva Marreco. Belém. 1964 10 min. Belém/São Paulo. p&b. Son. Filmado em 16mm.

RenatoTapajos1978ENTREVISTA COM RENATO TAPAJÓS – AGOSTO 2014 – via e-mail

 

Seu nome completo, local e data de nascimento.

Renato Carvalho Tapajós, nascido em Belém do Pará em 05 de novembro de 1943.

Fale sobre sua formação teórica, técnica e prática em cinema.

Basicamente, sou autodidata em cinema. Minha educação formal foi no curso de Ciência Sociais, da Faculdade de Filosofia da USP.

Você já visitou, pesquisou ou assistiu filmes em uma cinemateca ou arquivo de filmes?

Na verdade, quando digo que sou autodidata em cinema, isso inclui um longo período, dois ou tres anos em que frequentei quase diariamente, a Cinemateca Brasileira. Na época, a  Cinemateca não tinha sede própria e funcionava num dos barracões do Parque do Ibirapuera. Dizer que funcionava era muito. Na verdade, o barracão servia de deposito para os filmes e livros. Alguns abnegados voluntários cuidavam de não permitir que as coisas se estragassem e mantinham uma certa ordem no acervo. Eu ia para lá paraticamente todos os dias, no0s intervalos de minhas aulas na faculdade. Lá eu vi tudo o que havia dos clássicos (Eisenstein e os russos, expressionismo alemão, escola de documentário britânica, os franceses etc). Também tive acesso aos textos dos mais básicos teóricos do cinema. Por outro lado, no mundo real, o momento era o da Nouvelle Vague, do Cinema Novo, do Cinema Verdade, dos clássicos italianos pós neorealismtas (Visconti, Felini, Antonioni). Fui, então, diretor de cultura do Grêmio da Faculdade de Filosofia da USP e organizei diversos festivais. As discussões sobre os filmes nos festivais, nos bares etc. fizeram parte da minha formação.

Quais suas principais referências na criação cinematográfica? Alguma do estado do Pará?

Glauber Rocha, Roberto Santos, Luchino Visconti, Dziga Vertov, Joris Ivens.

Como foi o processo de realização do Vila da Barca?

Eu havia, há pouco tempo, me ligado a um pessoal de cinema em São Paulo, o Grupo Kuatro, do qual fizeram parte o João Batista de Andrade e o Francisco Ramalho. No grupo, eu já havia feito dois curtas ficcionais em 8 mm, felizmente perdidos. Mas minha fixação era no documentário. Em 1964 fui de ferias para Belém (onde meus pais moravam) e conheci um publicitário chamado Abílio Couceiro. Conversando sobre cinema, eu disse que estava interessado em fazer um documentário sobre a Vila da Barca. Ele se interessou e me disse que tinha uma câmara  16mm e alguns rolos de negativo pb. Também me emprestou um gravador de rolo, grande e incômodo de usar. Fui para Vila da Barca sozinho com a câmara e eu mesmo fiz a fotografia (primeira e ultima experiência no ramo). Depois voltei para gravar um depoimento que havia me chamado a atenção. Quando voltei para São Paulo, ,mandei revelar o material e fiquei com aqueles rolos na mão, sem saber muito bem o que fazer. Discuti a proposta com os companheiros do Grupo Kuatro e depois de muita discussão, um cineasta que não era do grupo, mas era conhecido, o Maurice Capovilla se ofereceu para montar o filme. Ele tinha acesso a uma moviola da Aliança Francesa e lá trabalhamos durante as madrugadas (que era quando havia horário livre e gratuito) até chegar na versão final do filme. O filme rodou no circuito independente durante um certo tempo (de 1965 a 1968) e o Sergio Muniz acabou levando-o para o Festival de Leipzig. Neste Festival o Vila da Barca ganhou o premio de melhor documentário curto. Quando recebi o premio, acreditei que sabia fazer cinema e isso deu no que deu.

Quais foram suas realizações, e também participações em produções, em cinema e audiovisual? E no momento atual?

Vou mandar para você o meu currículo. Lá tem todos os filmes que fiz e prêmios ganhados.

Quais os principais festivais e mostras que já participou?

Leipzig, Berlim, Oberhausen, Havana, Jornadas de Salvador (muitas vezes), a Mostra de São Paulo e o Festival É tudo Verdade.

Onde estão guardados seus filmes, material bruto e cópia final? Onde os pesquisadores podem encontrá-los?

 

Depositei os negativos de todos os meus filmes na Cinemateca Brasileira (que agora tem condições de preserva-los) Apenas dos últimos filmes (Políticas de Saúde no Brasil, O Rosto no Espelho, O Fim do Esquecimento, A Batalha da Maria Antônia e Corte Seco) os originais estão comigo, na produtora.

Como você observa o cinema e o audiovisual paraense contemporâneos?

Para falar a verdade sei muito pouco do cinema de do audiovisual paraenses. Gostaria muito de ter mais contato, mas faltou-me oportunidade.

Como você financiou seus projetos em cinema e qual sua opinião sobre os editais e fontes de financiamento públicas atuais.

Durante as décadas de 60, 70 e 80, meu cinema foi financiado pelas organizações da Sociedade Civil (Sindicatos, Organizações de Bairro, Comissão Justiça e Paz e tantas outras. Dos anos 90 para cá entrei na lógica de produção atual (Leis de Incentivo, Fundo Setorial etc). Reconheço que tais fontes de financiamento estão, atualmente, jogando muito dinheiro na produção cinematográfica e talvez seja este o caminho. Só que os cineastas tem que se transformar, cada vez mais, em contadores, comerciantes, vendedores. Disso eu não gosto. Um amigo meu disse que, hoje, os cineastas vivem dos projetos que fazem, não dos filmes que dirigem.

Sua opinião sobre a substituição da película (filme) pelo suporte digital para captação e projeção de cinema.

Desde o final dos anos 90 já uso apenas suporte digital. Gosto muito do resultado e das facilidades do trabalho. Não vejo porque ser saudosista da película.

Qual sua opinião sobre a web como forma de difusão do cinema? Você tem experiências de compartilhamento de conteúdo autoral nesse meio?

Tenho pouca experiência com a web. Acredito que ela será cada vez mais dominante, mas não acredito no fim das salas de cinema. Acho que tudo (web, DVD, Bluray, TV e salas de exibição vão conviver.

Entrevista realizada com Renato Tapajós, no dia 23/08/2014