Um passeio pelos antigos cinemas de rua em Belém

Pelo Google Maps fiz uma jornada virtual de encontro aos antigos cinemas de rua de Belém e fui atrás daqueles que foram desativados.

O Cine Universal e Cine Guarani na Cidade Velha se transformaram em órgãos do Poder Judiciário, aliás a Cidade Velha é toda deles, dominam os prédios e as ruas.

Os cinemas 01, 02 e 03 do Cineart foram adquiridos por uma faculdade que na época da inauguração anunciou que continuaria com uma programação de cinema que nunca existiu. Morava próximo e assisti dezenas de filmes, de “Godfather III” a “Emanuelle 5”, passando por “Conan, o destruidor” e “Ghost”.

O Palácio, que foi o cinema mais lindo que já tive o prazer de assistir um filme, se transformou em templo de uma igreja evangélica. Vi “O vingador do futuro” nessa tela gigante onde hoje pastores surtam pra tirar dinheiro do povo. Deixei muito dinheiro na bilheteria desse cinema mas usufrui de cada centavo.

Os gigantes Nazaré e Iracema, onde vi toda a trilogia de Senhor dos Anéis, recente não?!  Eram mais que apenas salas de cinema, eram um patrimônio da cidade e deveriam ter sido registrados junto com o Círio de Nazaré, pois lá naquela praça foi onde o povo pode assistir cinema nos poeiras que lá existiam.

Restam o Olympia e o Ópera, em rumos opostos de programação e resistência.

Esse texto não é um artigo, nem uma matéria, é só melancolia mesmo.

Ramiro.

Cine Ópera: o Bonzão-Bonitão

Localizado em pleno Largo de Nazaré, a 100 metros da Basílica que é o local de chegada da maior procissão católica do Brasil, está localizado um dos nossos últimos cinemas de rua, o Cine Ópera. Agora restritos aos shoppings os cinemas estão bem mais confortáveis, com melhor projeção e som,  mas perderam a identidade e a memória. Apesar da programação de filmes pornô e de ter se tornado um “inferninho” ainda é um símbolo de resistência de uma era. Casos semelhantes aconteceram no Brasil inteiro, no Centro Histórico  de São Paulo, por exemplo, existem muitos.

Achei uma citação engraçada do Marco Antonio Moreira que já prenuncia um cinema mais arejado e informal:

Era tão grande o calor nas tardes úmidas e quentes dos trópicos que era comum as pessoas tirarem a blusa nos cinemas, e justificava a piada feita por Alexandrino Moreira, dono de cinema, sobre o que é ser um cinemaníaco. Era justamente ir à tarde ao cine Ópera (sala recentemente inaugurada) para assistir “A Vida de Cristo”, de Ferdinand Zecca.

O Cine Ópera é tema de uma bolsa de experimentação artística do IAP proposta pelo artista visual Victor de la Roque, que pretende defender a proposta atual do Cine Ópera como relata no comentário que fez em um post no blog:

“[…] Ele é um cinema sim, marginal, e que vive no centro da nossa cidade. É importante ter muito cuidado com nossos conceitos do que é ou não um cinema seja ele pornografico ou não, afinal a sexualidade também faz parte da formação cultural de um povo. Dentro da pesquisa que venho desenvolvendo ao longo destes anos, percebo que ÓPERA é sim um cinema, expandido no literal explícito, que ultrapassa a simples “ficção” da tela, tornando-se no próprio filme onde os protagonistas e coadjuvantes são seus freqüentadores que gozam de um espaço de convivência no interior dele. E acho sim, INVEJÁVEL, a riquíssima reserva técnica do ÓPERA, com filmes pornográficos em película, como o primeiro filme pornô produzido no Brasil em 1981 e exibido em 1982 chamado “Coisas Eróticas”… sem mais, nem preconceitos e preciosismos. […]”

Podemos gostar ou não da proposta do Cine Ópera mas não podemos deixar de agradecer ao proprietário por conseguir mantê-lo aos trancos e barrancos. Quem gosta frequenta, tem quem goste até de filme de zumbi.  Muitos anos ao Bonzão-bonitão.

Imagens: Júnior Eubelém via Instagram

 

Conheça aqui o filme de Victor de La Roque.

Cine Olympia espera processo de tombamento

Era uma vez a Belle Époque. A ‘era dourada’ que iluminava a capital paraense com a cultura européia e dos trópicos, tinha como seus principais pilares as belas construções e conjuntos arquitetônicos aonde a intelectualidade aflorava. Um dos locais mais ‘badalados’, o entorno do Theatro da Paz, na Avenida Presidente Vargas com seus túneis de Mangueiras, com a imponente casa de ópera de um lado, e o Grand Hotel de outro, tinha ainda um belo cinema completando o quadro.

Com a influencia da arquitetura Art Deco, o Cine Olympia foi inaugurado no dia 24 de abril de 1912, durante o governo de Antônio Lemos e era ponto de encontro, aonde o luxo e o requinte do espaço combinavam em perfeita harmonia com a sofisticação da fervilhante sociedade paraense. Era um período rico em diversos aspectos, e o Cinema Olympia projetava sonhos, filmes de Chaplin, Greta Garbo e Rodolfo Valentino enquanto as damas e cavalheiros se encontravam pelos corredores usando seus melhores trajes.

Meta é trazer de volta os dias de glória

O tempo passou, a paisagem foi se modificando e o que resta do então glorioso entorno, são o Theatro da Paz e o Cine Olympia. Tombado, o Theatro é uma das ‘menina dos olhos’ do governo estadual, que na atual gestão realizou uma portentosa – e necessária reforma e manutenção no local. O Olympia, ameaçou não sobreviver até a chegada de seu centenário. Com inúmeras dificuldades e a administração claudicante do grupo Severiano Ribeiro, o cinema quase fechar as portas em 2006. Protestos de artistas e agitadores culturais fizeram a prefeitura assinar um contrato de locação do espaço, que ainda carece de verba e de reconhecimento da sua importância histórica, merecendo ser um cinema equipado e restaurado.

Tombar para manter

Mas, ao que tudo indica, a prefeitura de Belém (através da Fumbel) está comprometida e em contagem regressiva para tomar conta do Olympia e devolvê-lo a glória do passado. Autor do projeto de tombamento do cinema – que desde agosto de 2011 vem tramitando por diversas comissões na câmara e foi aprovado por unanimidade pelos vereadores -, o vereador Abel Loureiro explicou que, a partir da publicação em Diário Oficial, a prefeitura municipal de Belém poderá desapropriar o imóvel, evitando uma futura alienação do bem a terceiros que poderão descaracterizar os traços culturais e históricos do cinema e assim considerá-lo Patrimônio Histórico e Cultural de Belém, garantindo a sua preservação.

O presidente da Fumbel, Carlos Amilcar, contou que especialistas do departamento de patrimônio histórico estão fazendo estudos e pesquisas para verificar se, além de ser o cinema mais antigo em funcionamento no país, o Olympia pode ser a casa de exibição audiovisual mais antiga em funcionamento no mundo, o que valeria um registro no Guiness Book – o livro dos recordes. “Talvez seja o cinema mais antigo do mundo, tem um na França que foi inaugurado antes mas ficou um tempo sem funcionar durante a guerra. O Olympia nunca parou de funcionar, fez apenas alguns intervalos na programação para reformas”, contou Amilcar, que acrescentou que desde que a Fumbel assumiu a administração a fachada do cinema foi revitalizada e benfeitoras foram feitas, como a revisão da cobertura de instalações elétricas e da estrutura hidráulica.

“Sabemos que o cinema precisa urgentemente de reformas e de trocas como a do sistema de refrigeração, está tudo orçado, mas só podemos fazer isso quando o processo estiver concluído e buscando obedecer a lei de conservação junto com o Iphan e DPac. Em dezembro do ano passado o cinema recebeu uma pintura completa. Como é um espaço público não cobramos ingresso, mas creio que o maior problema que enfrentamos em termos de programação e captação de platéia e com os filmes, por que só podemos alugar cópias em 35 mm, e a maioria dos filmes hoje vem em cópias digitais”, informou Amilcar.

Futuro projetado

“Há exemplos de antigos cinemas no país e mesmo aqui na cidade, como o Cine Palácio, que sofreram transformações de uso, como para templo de culto religioso no caso citado. A própria localização está propícia à especulação, já que faz parte de uma área de potencial zona de comércio e serviços, ao lado de grande loja nacional, além de outros tipos de empresas e comércios, como bancos e afins, principalmente devido à sua acessibilidade para um grande público diário nas redondezas” explicou Abel Loureiro, no dia da sessão na qual o projeto de lei foi aprovado.

Para Amilcar, a obrigatoriedade do Cine Olympia estar vinculado apenas à reprodução de filmes como sua principal atividade, é algo que está muito claro para prefeitura de Belém. “O prefeito está sancionando a lei para que ele se torne nosso patrimônio, e quando esse processo for concluído não permitiremos possíveis mudanças futuras de atividade. Estamos com um planejamento pronto de revitalização e manutenção do espaço, e queremos dar de presente um projetor digital quando completar cem anos em Abril, tudo para que o Olympia seja intocável, conservado e usado como cinema”, frisou.

Segundo ele, entre as atividades e projetos para celebrar o centenário cinema, está previsto um evento grandioso no dia 24 de abril, que já conta com a mobilização da cena cultural de Belém. “Estamos criando na Fumbel uma comissão para trabalhar em cima das ações do centenário. Temos artistas como Fafá de Belém que demonstrar o maior interesse em fazer parte e mobilizar cineastas de fora para virem prestigiare participar de um evento eclético que terá uma exposição e exibições; a Luzia Miranda e o Pedro Veriano estão organizando um livro que contam a história do cine Olympia, patrocinado pela Lei To Teixeira; e vamos fazer exibições de filmes emblemáticos que passaram nesses cem anos”, contou o presidente, que mostrou uma série de catálogos de espaços como do Palacete Pinho e do Mube, e cujo próximo tema deverá ser o cinema.

Gerente do cinema há cinco anos, Nazaré Morais garantiu que boa parte da programação alusiva ao centenário do Olympia já está fechada: “Estamos planejando desde metade do ano passado as ações, sendo que a primeira foi o relógio de contagem regressiva no site, com apoio da Sol Informática, e o livro “100 anos da história social de Belém”, falando sobre o cinema, que está sendo escrito pela Luzia Miranda e o Pedro Veriano. E em parceria com a Associação de Críticos de Cinema do Pará, vamos realizar um seminário intitulado ‘O primeiro século do cinema Olympia – história e perspectivas’ de 20 a 22 de abril, com o apoio da Universidade Federal do Pará”.

Marco Antônio Moreira, programador e membro do comitê gestor do Cine Olympia, enfatizou que programações alusivas ao centenário vem acontecendo desde o inicio de 2012. “Fizemos a Mostra do Mazzaropi, que já esteve várias vezes na tela desse cinema e a Mostra Cinema e Carnaval com muitos filmes que já passaram aqui também. A partir do dia 26, iniciamos a mostra de filmes do Eryk Rocha, que é filho do Glauber Rocha e tem obras significativas, e faremos inclusive o lançamento do ‘Transeunte’, o primeiro filme de ficção dele”. Para Moreira, a mobilização entre artistas tem sido intensa, com muita gente querendo colaborar com o centenário.

Fonte: Diário do Pará

Cine Olympia se torna patrimônio histórico de Belém

Projeto de autoria do vereador Abel Loureiro (Partido dos Democratas), aprovado nesta quarta-feira (8), no plenário da CMB, transforma o centenário Cine Olympia em Patrimônio Histórico e Cultural do Município de Belém. O projeto também autoriza a prefeitura a efetivar a desapropriação do imóvel sede do cinema, que pertence à família de Severiano Ribeiro. “O Cine Olympia é um tesouro para a nossa cidade. É referência dos tempos áureos do Ciclo da Borracha e é o cinema mais antigo do Brasil ainda em funcionamento”, informou o vereador Abel Loureiro.
De acordo com o projeto, a prefeitura também ficará responsável em promover, garantir e incentivar a preservação, conservação, proteção e o tombamento do Cine Olympia, que também passará a ser exclusivamente e definitivamente um centro de exibição de obras audiovisuais. “O Cinema Olympia sempre será ícone da sétima arte em Belém e é um monumento artístico para a nossa cidade”, concluiu o vereador.

HISTÓRIA

Olympia de Belém é considerado o cinema mais antigo em funcionamento no País desde que se considere que sempre esteve no mesmo lugar e não parou as suas atividades por muito tempo. Mesmo assim, a sala foi fechada no dia 16 de fevereiro de 2006 pelo seu atual proprietário, Luis Severiano Ribeiro Neto. A alegação foi de que dava prejuízo. Mas a queda de freqüência a cinema nos dois últimos anos não é um fenômeno isolado e sim internacional. E não é inédito nem se pode dizer irreversível. São muitas as crises que atingiram as salas exibidoras ao longo dos anos, como a do inicio da década de 50 quando a televisão ameaçou a exibição cinematográfica de tal forma que foi preciso apelar para recursos técnicos como o cinemascope, o vista-vision, o cinerama, uma série de processos que aumentaram o tamanho da imagem e com isso passaram a concorrer com o novo meio de expressão.

O Olímpia foi fundado no dia 24 de abril de 1912 pelos empresários Carlos Teixeira e Antonio Martins, donos do Grande Hotel (onde hoje está o Hilton Hotel) e do Palace Theatre (na mesma quadra). Eles queriam fazer do cinema um ponto “chique” para atrair os freqüentadores do Theatro da Paz e, obviamente, os hóspedes de seu hotel.
Uma das atrações foi a colocação da tela logo na entrada, com os espectadores passando pelas laterais.
No fim dos anos 30 a empresa Teixeira & Martins não suportou os encargos financeiros e vendeu o cinema, e outros que controlava, ao banqueiro Adalberto Marques. Criou-se a “Cia. Cinematográfica Paraense Ltda”. Uma firma de vida curta. Em 1946 Marques vendeu todos esses cinemas ao exibidor cearense Luís Severiano Ribeiro, já dono de salas em diversos Estados.

 

Em 1953 os estudantes de Belém encabeçaram piquete para a reforma do Olimpia, bastante deteriorado na época. Severiano Ribeiro respondeu comprando um terreno na Av, Nazaré e anunciando que ali construiria o Cinema S. Luís “o maior do norte do Brasil”. Mas não só o novo cinema ficou nisso como o Olimpia permaneceu maltratado. Só em 1960, depois de inaugurado nove meses antes o cinema Palácio, é que recebeu os requisitos de conforto como poltronas estofadas e ar condicionado.

No correr dos anos pouco se fez pelo prédio e suas instalações. Durante o tempo em que gerenciou a empresa Ribeiro, o sr. Adalberto Augusto Affonso foi incansável pedindo recursos para mantê-lo digno de uma tradição. Hoje o cinema atravessava uma fase sem brilho, embora ainda atraísse os fãs. Depois da medida extrema de Ribeiro Neto, o prefeito Duciomar Costa resolveu atender aos apelos da sociedade que compareceu em massa à sessão de despedida, assinando um contrato com o proprietário da casa para mantê-la, por três anos, como espaço cultural.

FONTE: CMB / Cine Olympia

“Onde está o busílis?” retrospectiva dos filmes de Líbero Luxardo – Revista Espaço

Artigo publicado na revista paraense Espaço, magazine editado nos anos 1970 cujo editor-chefe era Líbero Luxardo. Neste artigo, que não é assinado mas suponho ser do próprio editor, um retrospecto, com comentários e fotos, dos filmes de Líbero feitos no Pará.

Cine Argus – Cidade de Castanhal (PA)

Cine Argus

Inaugurado em outubro de 1944, com finalidade exclusiva para espetáculos teatrais e projeção cinematográfica, daí o nome CINE ARGUS TEATRO, prática muito comum na época em que a exibição cinematográfica tentava se firmar dividindo espaço com peças teatrais, shows musicais e até apresentações circenses. Tudo isso acontecia no auditório do Cine Argus, alem de reuniões, palestras, colações de grau, congressos, cerimônias religiosas, festas, seção eleitoral, manifestações estudantis e sindicalistas. De certa forma, isto refletia a personalidade do proprietário, Manoel Carneiro Pinto Filho, o “Duca do Cinema”, sempre atento e solícito às necessidades da comunidade que usufruía daquele que, por muitos anos, foi o único auditório da cidade. Em meados da década de 1960 o velho prédio, metade madeira metade tijolo, foi reformado ganhando nova fachada e salão em alvenaria com modernas poltronas substituindo os antigos bancos corridos, de ripa.  O Cine Argus, encerrou suas atividades em outubro de 1995.

Colaboração do Sr. Almilcar Carneiro, de Castanhal, documentarista e antigo dono do Cine Argus.

Cinema Guarani

Construído no início da década de 1940, foi explorado pela empresa Teixeira e Martins depois Cinematográfica Paraense Ltda. e finalmente, depois de 1946, por Luís Severiano Ribeiro, também proprietário dos cinemas Olímpia, Iracema, Poeira, Popular, Íris e São João. Era um cinema de bairro e inicialmente só fazia uma sessão às 20 horas nos dias de semana. Aos sábados, domingos e feriados havia vesperais. A sala era pequena, com poltronas de madeiras e ventiladores laterais. No século passado, o Guarani foi vendido para o Banco Sul Brasileiro. Hoje é ocupado pelo MinistérioPúblico.

Fonte: “Circuito Landi: Um roteiro pela arquitetura setecentista na Amazônia Circuito Landi:Um roteiro pela arquitetura setecentista na Amazônia” de Elna Andersen Trindade e Maria Beatriz Maneschy Faria