Manifesto dos trabalhadores da Cinemateca Brasileira

Imagem: Ramiro Quaresma

A Cinemateca Brasileira segue fechada desde agosto de 2020, quando representantes do Ministério do Turismo retomaram as chaves da Organização Social que a geria. Desde então, não há corpo técnico contratado, o acervo segue desacompanhado e não há qualquer informação sobre suas condições. Por esse motivo, lançamos um alerta acerca dos riscos que correm o acervo, os equipamentos, as bases de dados e a edificação da instituição.

A possibilidade de autocombustão das películas em nitrato de celulose, e o consequente risco de incêndio frequentemente recebem mais atenção da mídia e do público. A instituição enfrentou quatro incêndios em seus 74 anos, sendo o último em 2016, com a destruição de cerca de 500 obras. O risco de um novo incêndio é real. O acompanhamento técnico contínuo é a principal forma de prevenção. A situação do acervo em acetato de celulose também é crítica. O conjunto está estimado em torno de 240 mil rolos, e corresponde à maior parte do acervo audiovisual da Cinemateca Brasileira. Tal acervo demanda temperatura e umidade constantes e, na falta de tais condições, sofre aceleração drástica de seu processo de deterioração. O acompanhamento técnico e as demais ações de preservação, inclusive processamento em laboratório, também são vitais.

Nos últimos meses tem chovido fortemente na região, o que pode provocar interrupção de energia. Não há como saber se existe gerador em funcionamento e se os sistemas de climatização funcionam. Quando a equipe técnica ainda estava atuante, eram frequentes ocorrências de alterações no sistema, de modo que eram necessários ajustes nos equipamentos. As chuvas também consistem em forte ameaça a uma parcela do acervo, sobretudo a documentação em papel, o acervo fotográfico, de vídeo analógico e digital. As infiltrações previamente conhecidas podem ter se alastrado, sem a limpeza de calhas e o devido acompanhamento da equipe. Em anos recentes, ameaças ao acervo foram sumariamente sanadas pela atuação rápida da equipe, como o advento de uma disseminação súbita de fungos, a presença de roedores, as infiltrações, os vazamentos, os problemas nos equipamentos climáticos e a autocombustão de um rolo de nitrato destinado ao descarte. A enchente de fevereiro de 2020 é um exemplo trágico dessas ameaças e do imperativo da existência de uma equipe pronta a agir.

Nesse cenário, também apresenta-se a questão do Laboratório de Imagem e Som, um dos mais completos laboratórios de audiovisual do mundo, com maquinário especializado para processamento fotoquímico e digitalização de películas e diversos formatos de vídeo analógico. Há 10 anos chegou a ser considerado pela Federação Internacional de Arquivos de Filmes (FIAF) o terceiro laboratório mais produtivo mundialmente – atrás de duas instituições de referência nos Estados Unidos. A manutenção do maquinário é complexa, pois reúne equipamentos históricos e tecnologia de ponta, demandando equipe altamente especializada, cuja ausência acarreta comprometimento e perda de equipamentos muitas vezes insubstituíveis. A paralisia atual tem como consequência a perda de décadas de trabalhos minuciosos e vultosos recursos públicos investidos.

Para além da conservação de seu acervo físico, a Cinemateca Brasileira promove a pesquisa e a difusão do audiovisual no Brasil. A partir de transmissões online e do Banco de Conteúdos Culturais (BCC), parte do acervo estava disponível à sociedade. Com o processamento das obras do Depósito Legal e a prospecção e catalogação da produção audiovisual na base Filmografia Brasileira (FB) foi possível manter o mapeamento histórico de uma importante parcela do patrimônio audiovisual brasileiro contemporâneo da nossa atividade audiovisual. O BCC está fora do ar desde outubro de 2020, devido à carência de cuidados básicos com o data-center e outros repositórios de dados alocados no parque da própria Cinemateca; e seguem acumulando informações não processadas de Depósito Legal, colocando em risco esse procedimento censitário tão raro em outros países.

O cumprimento da missão social da instituição é impossível na atual situação de abandono em que se encontra, sem o importante trabalho de difusão que fomenta uma cadeia de pesquisa, exibição e produção audiovisual. Hoje, após quase oito meses sem treinamento das equipes de limpeza, segurança e bombeiros, sem técnicos especializados para acompanhamento do acervo, vivemos uma tragédia: a morte silenciosa de milhares de documentos únicos, filmes domésticos, cinejornais, telejornais, obras do cinema e da televisão. Tememos pela morte da memória social, histórica, cultural, cinematográfica e audiovisual brasileiras. A Cinemateca Brasileira é uma instituição complexa, que demanda constância de recursos e atuação de sua equipe técnica especializada. Perante o quadro atual, pleiteamos o imediato retorno dos trabalhadores a seus respectivos postos de trabalho, cuja experiência é crucial para a recuperação da instituição.

Diante deste quadro preocupante, solicitamos esclarecimentos à Secretaria Nacional do Audiovisual (SAv) sobre a efetivação do plano emergencial, anunciado pelo secretário especial de Cultura Mário Frias em dezembro de 2020. Reivindicamos ainda o pronto lançamento do edital prometido desde julho de 2020 para seleção da nova Organização Social responsável pela gestão da Cinemateca Brasileira, assim como a garantia dos recursos necessários para dirimir problemas decorrentes da suspensão dos trabalhos, para o pleno funcionamento da instituição e para a construção de uma solução perene para a instituição.


Aproveitamos para agradecer o apoio da cadeia do audiovisual e de todas as pessoas, organizações, movimentos, e instituições brasileiras e internacionais que seguem conosco.


Sem trabalhadores não se preservam acervos.


Trabalhadores da Cinemateca Brasileira
São Paulo, 12 de abril de 2021

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