Cine Olympia, Ópera e Líbero Luxardo – A Resistência dos Cinemas de Rua [Artigo]

Cine Olympia, Ópera e Líbero Luxardo – A Resistência dos Cinemas de Rua

Por Beatriz Cardozo

Olympia

​O Cine Olympia é considerado o cinema mais antigo em ativação no Brasil. Fundado em 1912, por Antônio Martins e Carlos Teixeira, donos do Grande Hotel e Palace Theatre, atualmente o hotel Princesa Louçã. Com o seu estilo arquitetônico marcado pelo período, o Ecletismo (a mistura de vários estilos como neoclássico, barroco e outros).Era o ponto de encontro da elite na época e próximo de outro ponto, a Praça da República, com 500 lugares e a sua entrada pela lateral.

​No final dos anos 30, a empresa Teixeira & Martins não conseguiram manter o cinema e assim fez a sua venda. O último dono do Cine Olympia foi o Grupo Severiano Ribeiro, atualmente o Kinoplex, comprado nos anos 40 pelo Cearense Luís Severiano Ribeiro. Na década de 60, o Olympia passou por uma reforma completa, feita pelo arquiteto paraense Ruy Meira, que buscou colocar elementos da arquitetura moderna e também adicionando ar-condicionado e poltronas estofadas, para melhorar a qualidade do local, entretanto fechou as suas portas em 2006. Com o apoio de artistas e da população paraense, no mesmo ano, a Prefeitura de Belém, na gestão de Duciomar Costa, fez um contrato em que o Olympia passaria ter uma gestão municipal, a FUNBEL (Fundação Cultural de Belém) seria responsável por reabrir o espaço e cuidar da parte das reformas.

​Com a entrada gratuita, os frequentadores procuravam assistir filmes nacionais e internacionais, alternativos ou de Hollywood, com os festivais que se dedicavam passar diversas obras com os variados temas. A última vez que eu fui no Cine, fui assistir ao filme “Me Chame Pelo Seu Nome” do diretor italiano, Luca Guadagnino que estava sendo exibido no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, em 2019.

​Infelizmente o Cine passou por um abandono de 14 anos de gestão com o Duciomar Costa (2005-2014) e Zenaldo Coutinho (2014-2020), com as instalações caindo aos pedaços e até mesmo colocando em risco a vida de frequentadores e funcionários. Espero que com a gestão de Edmilson Rodrigues, com a participação do historiador paraense Michel Pinho, que está como presidente da FUNBEL, o Cine Olympia passe por uma reforma de qualidade e possa voltar a funcionar com segurança depois da vacina.

Ópera

​O segundo cinema mais antigo em funcionamento em Belém, o Cine Ópera fica localizado na Avenida Nazaré, de frente para o CAN e a Basílica Santuário de Nossa Senhora de Nazaré. Ele fica entre o armarinho O Mandarim, um restaurante e lanchonete chamado Sabor Marajoara. É conhecido pela exibição de filmes pornográficos, desde da década de 80 e com apenas uma mudança, no período da Semana Santa, a exibição de filmes religiosos.

​Antes de funcionar o Cine Ópera, existia o Theatro Coliseu, construído em 1941, inciado por Félix Rocque, com o sócio, o comerciante de origem libanesa, João Jorge Hage, o seu irmão mais novo, Elias Jorge Hage e a sua esposa, Joana Hage fundaram a empresa Irmãos Hage LTDA, em setembro de 1959, o objetivo do negócio era trabalhar na área de diversão. A inauguração do Cine Ópera foi em março de 1961, para a estreia do cinema foi exibido o filme alemão “Noites dos Papagaios Verde” de 1957.Com apenas uma sessão para as autoridades, a impressa e etc.

​O local era equipado com 1.500 lugares, mezanino e piso de taco. Os filmes eram exibidos por meio de dois projetores a carvão. Atualmente, o piso é de cerâmica, desativação do banheiro feminino, a utilização de DVD e um projetor de datashow para a exibição. Antes da programação pornográfica, o cinema se destacava pela exibição de filmes de origem europeia, asiática e brasileira, o que me lembra o cinema Líbero Luxardo Já na década de 70, o comando do Cine volta para os irmãos Hage, com a influência da nova distribuidora de filmes, Centerfilmes, a partir dos anos 80, liberados pela Ditadura Civil Militar passaram a exibir filmes pornográficos, aumentando o seu público. A maioria do público que frequenta o local são pessoas não cis e hétero, portanto são gays, bissexuais e travestis, no caso das travestis e dos michês (homens que fazem programa, não são necessariamente gays) que trabalham com o programa. Uma forma das pessoas terem o seu espaço de liberdade, sem sofrer nenhum tipo de violência ou comentários negativos, já que majoritariamente dos frequentadores não podem “sair do armário”.

A primeira vez que eu fui no local foi em 2019, para assistir uma defesa de mestrado da Salma Nogueira, que utilizei como fonte para escrever esse texto. O cinema se encontra em venda, mas continua ativo, não durante a pandemia e duas igrejas evangélicas já quiseram comprar o local. Quem é responsável pelo local é o Luiz Hage, neto de um dos irmãos Hage.

Líbero Luxardo

​O último cinema de rua que eu vou falar é o Líbero Luxardo, que foi inaugurado em 1986, no prédio da Fundação Cultural do Pará – FCP, que fica localizada na Gentil Bittencourt, em Nazaré. Com o objetivo na difusão do cinema nacional e internacional. Com 86 lugares, poltronas estofadas, caixas de som, amplificadores e outros. É o cinema de rua mais novo comparado com os dois que já citei e também o que eu mais frequento, por ser mais perto de casa e da faculdade. Os ingressos custam 12 reais a inteira e 6 reais a meia. O nome é uma homenagem para o cineasta paulista Líbero Luxardo (1908-1980) que produziu muitos filmes sobre o cotidiano amazônico.

​Faço esse texto para lembrarmos desses locais com bastante carinho e importância na formação da História do Cinema em Belém, muitos dos nossos avôs, tios, pais e parentes antigos frequentaram esses locais, até mesmo eu que nasci no final dos anos 90, frequentei e frequento. Com os cinemas dentro dos shoppings, o consumo da sétima arte se torna difícil, os ingressos são caros, mesmo com a meia para os estudantes, a gratuidade para idosos e deficientes, fora os alimentos como a pipoca, refrigerante e guloseimas. Os cinemas de shoppings dão um foco maior para os filmes blockbusters e enquanto os cinemas de rua focam em obras independentes, até mesmo é uma questão acessível para o público sobre o preço e a importância da democratização da sétima arte. Nada melhor que pegar um cinema no final de tarde para conhecermos novos universos.

Fontes:
RIBEIRO, S. Cine Ópera – Belém – PA Arquitetura como microcosmo de memórias subterrâneas – 2019.
​BARROS, Magaly Caldas; SERRA, Hugo Hage. A Belém da Belle Époque e os roteiros geo-Turísticos como instrumentos de educação patrimonial. In:Revista Formação, v. 25, n. 44, jan-abr/2018, p. 209-239.

AUTORA

Beatriz “Beatrovs” Cardozo, natural de Belém do Pará, estudante de Licenciatura em História e pesquisadora nas áreas de Patrimônio Histórico e Cultural, Antropologia Cultural e História Contemporânea. Criadora do projeto Cultura Sem Fronteiras, fala sobre Política com toques de Cultura e Artes.

Links:  https://www.instagram.com/beatrovs

Canal do Cultura Sem Fronteiras: https://www.youtube.com/channel/UCPlh-TF7w_V8CnqwjuxW89A

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s