Carta de Apoio à Cinemateca Brasileira – Cinemateca do MAM

Rio de Janeiro, 3 de junho de 2020.

As relações entre a Cinemateca do Museu de Arte Moderna e a Cinemateca Brasileira datam dos primórdios das duas instituições, em meados do século passado. O que as irmanou desde o princípio foi a ação de salvaguardar uma memória permanentemente ameaçada pelo tempo, pelo baixo empenho da sociedade, em particular suas lideranças, e por ações destemperadas, equivocadas e no limite obscurantistas, visando seu fechamento, isto é, sua destruição. A falta de apoio mais amplo, a omissão involuntária ou calculada, ou o projeto deliberado de desmonte não são estranhos à longa caminhada em direção à salvaguarda do audiovisual brasileiro e sua preservação. Deveriam ser, mas não são.

A recente notícia de que em uma reunião governamental cogitou-se pelo fechamento da Cinemateca Brasileira é só mais um capítulo dessa longa história. Mesmo que o comentário tenha sido em tom jocoso e inconsequente, o que não parece ter sido o caso, revela a ausência do exato apreço, consideração e responsabilidade para com um patrimônio da nação brasileira. A falta de definição, o “jogo de empurra”, o sangramento lento, doloroso e interminável da vida institucional da Cinemateca Brasileira recai no conhecido escaninho da indiferença concreta e do desprezo reincidente pelo mundo da cultura e em especial pela preservação do patrimônio artístico, cultural e histórico brasileiro.

Mas as instituições são resilientes, seus corpos dirigentes, técnicos e funcionais regulares comprometidos com a missão profissional e institucional de zelar pelos acervos e sua conservação, e as criações sob sua guarda um motivo fundamental para a ação social e política de construção de um Brasil melhor. Conhecer, pesquisar, estudar, assistir, vivenciar, desfrutar o passado é um direito constitucional do Cidadão brasileiro e uma obrigação constitucional do Estado brasileiro. O filme, sem considerar qual tenha sido seu suporte, uso, repercussão, história, destino, importa como matéria-prima do mundo à frente, e em pé de igualdade com as demais criações humanas. Repetimos: a sobrevivência dos filmes importa. A Cinemateca Brasileira e os demais arquivos audiovisuais brasileiros importam.

A Cinemateca do MAM quer se posicionar e expressar aqui antes de tudo solidariedade à co-irmã brasileira, igualmente membro da Federação Internacional de Arquivos de Filmes – FIAF. Como repositório privilegiado da memória da nação brasileira merece todo nosso apoio e comprometimento irrestrito com sua continuidade dentro de padrões compatíveis com a qualidade dos trabalhos requeridos e a missão institucional que lhe cabe. Conhecemos bem essas vicissitudes e sabemos que passam, com a garra do dia a dia, o trabalho bem executado e a consciência de que o amanhã sempre chega. Conte conosco para os momentos difíceis. Para a sobrevivência, para a luta, para a resistência, e também para tempos mais positivos. Temos pela frente um presente sombrio, mas um futuro melhor a ser construído por todos.

Ricardo Cota, curador da Cinemateca do MAM

Hernani Heffner, conservador-chefe da Cinemateca do MAM

Foto: Andreia Reis, São Paulo, Brasil – Cinemateca Brasileira, CC BY 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=51717594

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