FILME DO MÊS// MAIO – 2020 “CHAMANDO VENTOS: POR UMA CARTOGRAFIA DOS ASSOBIOS ” DE MARCELO RODRIGUES

 

Entrevistamos Marcelo Rodrigues sobre a realização de seu documentário que já percorreu uma boa carreira em festivais e agora está no canal do realizador. Marcelo é um realizador paraense, formado em Comunicação Social, com uma longa carreira como diretor de fotografia e repórter fotográfico.

1. Como surgiu a ideia do filme?

 

Na feira do Ver-o-Peso, em 2007, gravando com o amigo Armando Queiroz a videoarte “Estátua Viva”. Já havia finalizado as gravações e ficamos durante algum tempo contemplando a vista da Baía do Guajará. Não recordo bem por qual motivo me veio à mente essa história de assobiar para chamar os ventos. O fato é que permanecemos durante algum tempo conversando a respeito deste passatempo com os assobios. Pra quem não conhece, em tempos idos, era muito comum assobiar para conjurar o vento geral nas horas em que cessavam as correntes de ar e não era possível empinar os papagaios. Este foi o primeiro insight sobre a possibilidade de fazer um vídeo abordando essa ação imaginária. Depois dessa conversa o vento precisou de um novo chamado para manifestar-se em minhas memórias. Acontece que em 2017, cursando Comunicação Social na Estácio-FAP, eu tive que produzir um artigo para a disciplina Cultura das Mídias, ministrada pelo Me. Professor Enderson Oliveira. O tema era livre e bastava que estivesse alinhado com o conteúdo da disciplina. Este foi o disparador para iniciar a pesquisa que viria, sob a orientação do Professor Enderson, a embasar o meu trabalho de conclusão de curso em Publicidade e Propaganda. Propus cartografar esses assobios  na rede mundial de computadores com o intuito de verificar como essa prática de assobiar para chamar os ventos, ligada ao imaginário e ao elemento ar, ocorria na web. Iniciava minha incursão na escrita acadêmica e pude contar com a colaboração generosa da querida amiga Nayara Amaral, auxiliando-me na revisão e organização dos dados obtidos com a pesquisa netnográfica. Essa história acabaria aqui, não fossem as agruras do destino. Às vésperas do encerramento das inscrições para o Programa SEIVA, criado pela Secretaria de Cultura do Estado do Pará, tive a felicidade de encontrar com a amiga Suanny Lopes em um café no centro de Belém. O resultado dessa bem-vinda conspiração do universo foi que, após aquele encontro fortuito, surgiu a oportunidade, a possibilidade de produzir o documentário “Chamando os Ventos”. Produtora sensível, além de amiga muito estimada, Suanny, ao ouvir meu relato sobre os assobios para chamar os ventos, imediatamente ofereceu-se para formatar o artigo e submetê-lo como projeto no Programa SEIVA-2018. Feito o movimento, veio a seleção do projeto e com ela a Bolsa de Pesquisa e Experimentação Artística e a defesa do trabalho de conclusão na graduação.

2. Do roteiro à finalização como foi o processo de produção?

 

 A família exerceu um papel preponderante nas etapas desse desafio. Nara Reis, minha companheira, com sua maravilhosa sensibilidade artística esteve sempre presente, colaborando na produção e finalização do documentário. Havia uma ideia e um locus de pesquisa. Iniciei as buscas a partir do uso de palavras chave que me conduzissem aos links contendo qualquer referência sobre o assunto. Consegui localizar endereços e entender um pouco sobre o perfil dos usuários no que dizia respeito à utilização dos assobios para chamar os ventos. Místicos, religiosos, poetas, escritores, artistas, pesquisadores, todos traziam alguma informação a partir de suas perspectivas, e pude atestar que existiam outros direcionamentos para esses chamamentos. Encontrei em Gaston Bachelard um sopro de inspiração, e devo aqui agradecer à amiga Simone Jares por sugerir a leitura de “O ar e os sonhos: ensaio sobre a imaginação do movimento”, livro que me orientou e me mostrou a direção – rosa dos ventos – que eu deveria seguir para conceber a estrutura do documentário. Outra importante ferramenta no processo de produção, foram as postagens que fiz na rede social Facebook. Por meio delas pude obter relatos sobre a prática dos assobios e verificar se havia interesse em participar do projeto. Pelo aplicativo de mensagens WhatsApp chegaram os assobios, as imagens e relatos incríveis. De repente estava ali o vento soprando. O roteiro era invisível como o ar materializando-se no imaginário. Foram longas noites sentado em frente ao computador, escutando as histórias e sentindo as ondas sonoras ventilado aos meus ouvidos. As sequências deveriam evidenciar a presença dos ventos em enquadramentos com cenas aéreas de céu e ar. A imensidão, o vazio no plano fílmico, teve como função presentificar a existência do elemental através do relato das personagens. Nesse sentido, os planos foram construídos em sua unidade a partir de composições onde era delimitado 1/3 do quadro para que fosse utilizado um dispositivo através do qual pudesse ser evidenciada a ação dos ventos – decisão tomada por ocasião de uma visita que fiz à querida Ana Lúcia Lobato, amiga muito amada. Depoimentos, trilha sonora, animação, todo o processo de pré-produção, produção e pós-produção foi discutido e documentado junto à coordenação do Programa SEIVA-2018.

 

3. Como foi a repercussão do filme e a importância dele na tua trajetória como realizador?

 

A repercussão do filme foi bem maior do que as minhas expectativas. De repente, a partir de uma ação imaginante, formou-se uma delicada rede virtual. Após as exibições, ainda no interior da sala de projeção, pude ouvir depoimentos sobre como o filme transportou para algum lugar no passado ou fez lembrar um acontecimento ou alguém em especial. Coisas como: “Minha avó me ensinou a assobiar para chamar o vento”; “isso me fez recordar minha infância”; “até hoje ainda chamo o vento”. Essas devolutivas me deixaram muito feliz. Saber que as experiências vividas e compartilhadas por Mariana Gouveia, Cuiabá (MT), Celdo Braga, Manaus (AM), Claudia Rodrigues, Belém (PA), Marton Maues, Belém (PA), Myriam Carvalho, Belém (PA), despertam memórias e trazem a tona histórias e imaginários adormecidos, faz valer a pena cada dia de cansaço por conta de noites mal dormidas. Foi o primeiro trabalho em que eu me envolvi, praticamente, em todas as etapas da realização: da pesquisa à finalização. Tudo de forma muito colaborativa. Pois, como já relatei anteriormente, eu estava muito bem assistido e acompanhado neste e em outros planos. Em novembro de 2019, a convite do SESC, viajei para a cidade de Paraty no Rio de Janeiro, onde participei da abertura da III Mostra SESC de Cinema. Foram oito dias de compartilhamentos de experiências e aprendizados. Selecionado para compor o panorama nacional, pela Mostra SESC, o filme circulou em todo país, marcando um novo episódio na minha carreira como cinegrafista e realizador. Também destaco as participações em festivais como: Festival Pan-Amazônico de Cinema/Amazônia Doc.5 (PA); Festival de Cinema de Alter do Chão (PA); II Festival Curta Bragança (PA); Festival Toró 5 (PA), prêmio menção honrosa. Todos no ano de 2019. Ter participado de festivais foi muito gratificante e encorajador. O filme também teve sua exibição na inauguração do CINECLUBE BOMBOMLER, um novo espaço criado pela Biblioteca Comunitária Itinerante BombomLER, no bairro da Marambaia.

 

Ficha técnica

CHAMANDO OS VENTOS: POR UMA CARTOGRAFIA DOS ASSOBIOS

DIREÇÃO, ROTEIRO E PESQUISA: MARCELO RODRIGUES; ASSISTENTE DE PESQUISA: NAYARA AMARAL; PRODUÇÃO: NARA REIS; DIREÇÃO DE FOTOGRAFIA: MARCELO RODRIGUES; DESENHO SONORO: ANDRÉ MARDOCK / MARCELO RODRIGUES; EDIÇÃO: MARCELO RODRIGUES; ANIMAÇÃO: VICTOR ALMEIDA; PROJETO CULTURAL (FORMATAÇÃO): SUANNY LOPES; 2018. COR. DIGITAL

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