FILME DO MÊS// JAN – 2020 “SHALA” de João Inácio

Entrevistamos o diretor João Inácio para saber sobre a bonita trajetória de seu curta-metragem “Shala” (2016), nosso Filme do Mês.
Como e quando surgiu a ideia original para o Shala?
Minha mãe trabalhou na antiga Fbesp e sempre trazia para casa muitas histórias. Uma delas foi de um garoto que não conseguia ser adotado, ele passou por varias processos de adoção e sempre era devolvido. Isso me tocou muito e decidi escrever um roteiro. 
Eu me indignava em saber que essa era uma historia não contada e que era comum nos abrigos.
Na história não havia a materialização do preconceito representada pela boneca, isso foi criado para compor melhor o drama.
Eu nunca tive contato com o personagem da vida real e procurei me manter distante para preserva-lo.
Da escrita do roteiro ao financiamento, como foi o processo?
Árduo e nada romântico. Na época do filme era muito difícil ter credibilidade para conseguir patrocínio sem um grande Edital de Cinema. Então eu procurei me adequar as exigências do maior edital federal de curta do ministério da cultura. Sua aprovação foi fundamental para o projeto ganhar reconhecimento, inclusive nacional. 
O projeto não era barato, filmamos em 35mm e em uma parte do país que não tem equipamento para esse tipo de produção. Todo o equipamento veio do sudeste e centro oeste, essa logística foi um compromisso assumido por mim, para que profissionais locais tivessem acesso a esse tipo de produção muito sazonal em Belém. Mas o mais caro foi toda a estrutura de produção, com quase 100 pessoas trabalhando direta e indiretamente,  onde precisamos transportar, alimentar, vestir e todos os demais necessário para a realização das filmagens.
Então foi necessário diversos apoios e conseguimos o patrocínio da Yamada e do Banco da Amazônia. Sem eles o filme não teria sido filmado. 
Da filmagem até o lançamento o tempo foi bem longo, o que aconteceu?
Sim, o filme estourou todos os orçamentos, tivemos trocas de fornecedores, trocas de hotéis, problemas com fornecimento de energia elétrica. O orçamento foi pro espaço. Um dia após as filmagens eu tive que fazer um grande empréstimo no banco para cobrir parte das dividas, foram 4 anos pagando. Ainda assim não havia mais recursos para finalizar, todas as fontes de financiamentos estavam esgotadas eu estava em depressão. Então eu engavetei o projeto e fui passar um tempo nos EUA. Lá, apresentei o filme para algumas pessoas. O filme não tinha legenda, mas fui muito bem recebido. A história se contava por sí só e eu fiquei muito animado, era um sopro de esperança e alívio por o filme cumprir sua função enquanto linguagem cinematográfica. Então eu consegui recursos para finaliza-lo.
Voltei para o Brasil, negociei com o Ministério da Cultura para entrega-lo em formato digital. Adequei o filme em todas as novas exigências do MinC e fechei parceria com a DOT e terminamos o filme. 
Você pode fazer um resumo da incrível trajetória do curta em festivais.
Um filme novo de um diretor desconhecido do cenário nacional e sem recursos, torna seu trabalho de fazer seu filme conhecido uma árdua e persistente jornada. Os 5 primeiros meses foram só escrevendo o filme em festivais e recebendo repostas negativas.
Mas o Mix Brasil e seus Labs foram fundamentais para eu repensar a divulgação e distribuição do filme. Abandonei os grandes festivais e foquei em tornar meus filme conhecido. Novos recursos dos EUA vieram para a inscrição do filme em festivais internacionais e deslocamento de cópias. Hoje há muitos festivais e muitas coisas ruins e picaretas, então era uma loucura, eu tinha que ler muito sobre cada festival que eu pretendia realizava uma inscrição. 
Então vieram os resultados. Turquia, Polônia, Russia, Coreia do Sul, Espanha, México, Lituânia, Itália, Japão, Africa do Sul, Equador, Colombia, Romênia, Panamá, Holanda, Bangladesh, Áustria, Austrália, Chile, Portugal, Canadá, França, Inglaterra e claro muitos estados dos Estados Unidos, concentrando a maior parte das exibições do filme, percorremos festivais de costa a costa. O filme entrou para o acervo de preservação de filme da Universidade da Califórnia. Esteve em espaços incríveis  em Nova Yorque. Foi exibido como ferramenta de estudo na Universidade de Upsala na Suécia, Foi exibido em uma sessão para mais de 300 pagantes em Paris, que arrancando aplausos em três tempos do filme. Foi visto por mais de 1350 crianças na Turquia. Foi eleito o melhor filme por crianças na Itália. Concorreu a uma pré-indicação ao Oscar na Espanha, e encerrou sua carreira no festival de cinema mais importante de Boston, exatamente onde o filme saiu da gaveta e voltou a respirar.
Muitos festivais que recusaram o filme passaram convida-lo, era um filme que estava em muitos catálogos, mas muitos festivais seguem regras rigorosas para a seleção, como exclusividade e apenas uma inscrição. Muitos nem assistiram o filme e recusaram. De qualquer forma isso não diminuiu o filme. Foram mais de 10 prêmios e mais 70 festivais ao redor no mundo. E hoje eu posso dizer que Shala já foi exibido em sessões públicas em todos os continentes do planeta.

 

FICHA TÉCNICA

Direção, Roteiro e Produção: João Inácio, Fotografia: Kátia Coelho, Direção de Arte: Aldo Paes, Edição de som: Renan Vasconcelos, Câmera: Naji Sidki, Figurino: Marbo Mendonça, Maquiagem: Sonia Penna, Direção de produção: Luciana Martins, Assistente de Produção: Hindra Miranda, Joanna Denholm, Thiago Freitas, Tiara Tiara Klautau, Fotografia still: Renato Chalu, Continuidade: Indaiá Freire, Montagem: Allan Ribeiro, João Inácio, Editor: Bruno Assis, 1º Assistente de Câmera: Emerson Maia, 2º Assistente de Câmera: Laércio Esteves, Trilha Sonora: Paulo José Campos de Melo, Assistente de Arte: Patricia Rodrigues, Viviane Rodrigues, Produtor Associado: Maryson Sousa, Matthew Berge, Motorista: Rafaela Fontoura, Direção de elenco: Cláudio Barros, Arte: Camila Leal, Francisco Leão, 1º Assistente de Direção: Afonso Galindo, Design de Som: Renan Vasconcelos, Captação de Som: Aloysio Compasso. Elenco: Tiago Assis, Lizabeli Vilhena, Juliana Sinimbu, Bruno Carreira. Filmado em 35mm. Belém, 2016.

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