Entrevista com Mateus Moura sobre “A Ilha” e outras questões cinematográficas

O blog enviou algumas perguntas/questões ao realizador Mateus Moura que lança dia 15 de Outubro seu filme “A Ilha”. Mateus é cineclubista, ativador cultural e artista multimídia, e como pesquisador de cinema estudou o KinemAndara de Vicente Cecim.


[RQ] Você participa ativamente da cena cineclubista do Pará e escreve também críticas de cinema em blogs, vejo nisso uma conexão com os realizadores franceses da Nouvelle Vague, com o Godard e Truffaut que entraram no cinema pela porta da crítica e das sessões da cinemateca francesa. A motivação para realizar cinema parte da angustia de apenas exibir e teorizar sobre cinema, e partir para a práxis cinematográfica, como num filme-ensaio?

[MM] O Godard dizia que ele fazia cinema desde que escreveu a primeira crítica. Pensar cinema pra ele já era fazer. Truffaut, todavia, foi um grande crítico, mas um cineasta que contribuiu muito pouco. Respondendo à pergunta, a minha motivação para “realizar cinema” (“práxis”) parte da mesma angústia que me motivou a realizar a “prática cineclubista” ou a “prática da crítica”: a angústia da minha alma inquieta. Realmente, o meu caminho dentro do cinema foi o de espectador > crítico > cineclubista > realizador, como se deu na nouvelle vague, como se deu também no cinema novo aqui no Brasil, ou mesmo no cinema marginal. E acho que, realmente, dos anos 60 pra cá, principalmente no contexto em que vivemos – onde quem está interessado por cinema tem que percorrer mesmo o auto-didatismo – esse é o caminho mais natural.
Sem dúvida, hoje, percebo, que “fazer cinema”, é um front diferente de “escrever sobre cinema”, ou de “programar filmes, falar sobre eles”. Quando utilizo a linguagem audiovisual articulo minhas ideias através da mesma, conduzo minha intuição pra desvendar os mistérios entre os planos, dedico minha paciência para arquitetar como posso conduzir uma cena, como posso dizer nas elipses. Enfim, são preocupações de cada linguagem, e praticando cada linguagem sem dúvida estamos ensaiando sobre elas. Pra mim a grande diferença do crítico para o realizador é que o primeiro é apaixonado pela linguagem do cinema, da vida e das imagens e as enfrenta através do verbo, enquanto que o realizador joga o próprio jogo da linguagem cinematográfica. São batalhas diferentes, mas todas fazem parte da guerra da linguagem, e todas são “práxis”.

“A Ilha” explora um cotidiano ribeirinho místico, como surge a motivação para explorar esse universo, que muito foi documentado, mas que em ficções cinematográficas costuma incorrer em clichês ou mitificações. Como foi a pesquisa que resultou no roteiro inicial e nas escolhas estéticas e narrativas do filme?

ilhaÉ a história do olho né? Ele tá ali, ele observa, ele colhe, ele guarda. Aí chega uma hora que O olho (palavra) quer virar UM olhar (verbo).  Desde pequeno meu olho observa com espanto a floresta, com curiosidade imagina o fundo do rio. De uns tempos pra cá meu olho começou a observar mais todo esse complexo que é a intervenção da civilização na natureza, ou das tentativas de submissão do homem pelo homem. No meio disso conheci mais profundamente a História de Cotijuba, o Educandário Nogueira de Farias, que depois se tornou a Colônia Penal, os causos da “Ilha do Diabo”, dos presos que eram jogados na baía do Guajará.

Foi tudo isso, somado à cultura que venho olhando também através dos livros, filmes, estórias e linguagens de todo o tipo, que deram a base pra começar a Ficção. Ficção vem de “fictio”, né? Construir, moldar. Todas as minhas pesquisas e escolhas estéticas e narrativas pretendem desaguar num lugar: a criação de um mito.  Acho que imploro o cotidiano ribeirinho místico também de forma natural, pois é o que mais tive contato recentemente. E de certa forma quero “documentá-lo”, mas através do filtro da reinvenção.

Tem uma frase que segue depois dos créditos finais d”A Ilha”, que posso antecipar, e que diz:

“A Ilha é um filme do presente, com passado. O cinema é uma invenção sem futuro, mas para o.”

“Do presente”, pois todo filme é uma documentário da sua forma de produção. “Com passado” porque, atravessando a liberdade de criação desse mito, ecoam os estertores de todos os presos que foram jogados nessa baía, ou de qualquer ribeirinho que foi removido de seu habitat para o trem da civilização passar. “O cinema é uma invenção sem futuro” é a clássica frase, dita por Louis Lumière, o inventor do cinematógrafo. Frase que assino embaixo, pois o cinema – grafia ontológica de um presente inundado de passado – é, na verdade e sobretudo, “para o futuro”.

A produção foi feita em forma colaborativa e independente, sem editais de financiamento e apoio institucionais, num tour de force de produtoras parceiras. Conte um pouco sobre esse processo de realização sem financiamento público ou privado e, portanto, sem as amarras conceituais que esses patrocínios de certa forma impõe, caracterizando a obra como um legitimo cinema de autor.

O cinema paraense passa pelo maior marasmo de sua história, o mais recente curta-metragem de um realizador paraense, por exemplo, foi filmado em Florianópolis por questões de custo-benefício e profissionalização cinematográfica. Qual sua visão deste estado das coisas do nosso cinema que há 40 anos não realiza um filme de longa-metragem.

Acho que aqui nossas visões são bem diferentes.

Do que eu venho pesquisando de “cinema paraense”, esse feito aqui na região, conheço 3 longas-metragens de ficção recentes: “Ajuê São Benedito” e “Cônego Batista Campos – Senderos da Cabanagem”, do Paulo Miranda e “Cabanos”, do Sebastião Pereira. De curtas-metragens e documentários (curtas, médias e longas), o Estado, quase semanalmente, produz, de todos os assuntos. Tem várias novas pequenas produtoras, de Santa Bárbara à Ponta de Pedras, de Santarém à Marabá. Em Belém tem muita gente experimentando, nos mais diversos formatos de produção.

Se você me disser que há 40 anos não se realiza na região um filme de longa-metragem em película eu compreendo, mas tratando assim de forma geral, os fatos me mostram o contrário. Inclusive, discordo com relação ao “marasmo” também, acho o oposto, justamente por essa possibilidade digital, que desonerou os custos. Salvo engano, o Pará nunca produziu tanto em audiovisual.

Também não acredito que um “legítimo cinema de autor” seja fruto do seu formato de produção. A própria Cahiers du Cinema (Truffaut, Godard) provou que na seio da indústria cultural hollywoodiana tinha muito “cinema de autor”, que o “autor” estava na “mise-en-scène”.
Com relação à produção de “A Ilha” foi assim: pedi apoios institucionais e, como de praxe, fui ignorado; não sei escrever editais, nem conheço produtores culturais competentes para tal, aí resolvi dedicar 6 meses da minha vida, diariamente, pra fazer esse filme. Convidei os loucos que aceitam ir pra Cotijuba pagar sua própria comida pra vivenciar a experiência de realizar cinema nessas condições, e, sem choramingar, fomos fazer cinema como os amadores – de Buñuel à Bressane – sempre fizeram: com o que tínhamos em mãos, e ao redor.

Uma coisa importante foi que quando convidei o Rodolfo Mendonça – que foi meu grande parceiro por trás das câmeras nesse projeto – ele aceitou o convite não porque era meu amigo (viramos amigos depois), ele aceitou porque acreditou no projeto, percebeu algo importante ali. Pequenas produtoras unindo experiências e saberes na aventura de fazer cinema. Não acredito neste como o único caminho possível no fazer cinematográfico, porque acredito, como o Glauber, que “o cinema são todos os caminhos”, mas sem dúvida, esta é uma senda interessante para abrir as eternidades que pretendemos por aqui. O que acontece muito é ficarem importando modelos de produção de lugares distantes, enquanto podíamos estar nos olhando nos olhos e construindo uma cena com nossos próprios esforços a partir da nossa realidade. Foi isso o que aconteceu nesse projeto, e só tenho a agradecer a todos que participaram dele. No final do filme, após os créditos, também antecipo outra frase, que resume o caráter desta produção:

“Todos os integrantes do elenco e da equipe que participaram deste filme são reconhecidos como produtores do mesmo, pois foi unicamente por sua dedicação, material e espiritual, que o mesmo pôde atingir a dimensão além do sonho.”

SOBRE O FILME

“A Ilha”. 62 min. Digital. Cor. Brasil. 2013

Filme rodado, entre novembro de 2012 e fevereiro de 2013, na ilha do Cotijuba, na Baía do Guajará, na Baía do Marajó e na Ecovila Iandê, na Comunidade de São João Batista em Santa Bárbara. Produzido de forma completamente independente, entre as produtoras Maria Preta, Insular Produções e Coletivo Quadro a Quadro, com apoio do Miritismo.

Sobre a obra:

Nazareno é mais um homem que nasceu e trabalha no continente e, que, hoje, sobrevive na Ilha. A travessia faz parte de sua rotina. Sob ele, todos os dias, flui o Grande Rio, inundado de historias mal-contadas. Sua esposa, Carline, é dona de casa, e a monotonia faz parte de sua rotina doméstica insulada, assim como um certo receio diante do desconhecido. Ambos sonham com a chegada de um filho, que distraia o tédio e gere um novo prazer pela vida. O sonho vira pesadelo quando o seu destino se cruza com a obrigação de Silene, nativa da ilha.

mais informações:
http://danoiteescuradamariapreta.wordpress.com/obras/a-ilha/

SOBRE O REALIZADOR

mmHá 6 anos atuo com Cinema em Belém. Cineclubismo e crítica com a Associação Paraense de Jovens Críticos de Cinema, Realização Cinematográfica com a Antifilmes, Sr. Cheff, qUALQUER qUOLETIVO e Maria Preta. Comunicação e Produção Cultural com a Garfo e Faca. Tenho trabalho acadêmico sobre o kinemAndara de Vicente Cecim, um blog onde cultivo meu pensamento e canais onde está presente toda a minha produção.

Blog pessoal: http://cinemateusmoura.blogspot.com.br/
Blog APJCC: http://apjcc.blogspot.com.br/
Canal Vimeo Garfo e faca: https://vimeo.com/garfoefaca
Canal Youtube JAMCINE: http://www.youtube.com/qualquerjamcine
Canal Youtube MATOU O CINEMA E FOI A FAMILIA: http://www.youtube.com/matouocinema
Sr. Cheff Prod. D. Juan (DF5): https://vimeo.com/21229829
Sr. Cheff Prod. PRIMEIRO: http://www.youtube.com/watch?v=IG1nOgK08_U&feature=g-all-u

RMXTXTURA’S Por um cartografia crítica da Amazônia: https://vimeo.com/channels/rmxtxturas

SERVIÇO / LANÇAMENTO

CINE LÍBERO LUXARDO

Terça, 15 de outubro de 2013

19H30

ENTRADA FRANCA

3 respostas em “Entrevista com Mateus Moura sobre “A Ilha” e outras questões cinematográficas

  1. Pingback: Entrevista com Ramiro Quaresma, da Cinemateca Paraense, sobre “A Ilha” | MARIA PRETA

  2. Muito bom ver esse filme saindo do papel e ganhando as telas do cinema!!
    Enquanto a forma de produção do filme, realizado pela dedicação e investimento físico e espiritual daqueles, que ao se doarem com tanto afinco ao projeto – sendo a matéria prima essencial para a viabilidade da obra – trouxe novas contribuições ao processo de realização audiovisual na região.
    É entusiasmante ver o diretor da obra lembrando esse ponto, tão recorrentemente ESQUECIDO pelos realizadores das múltiplas linguagens artísticas da cidade.
    Belém tem poucos produtores de cinema – para não dizer nenhum, já que é sempre complicado generalizar – e os que devem existir, estão distantes de um cenário independente, de pequenas produtoras, que dentro de seu próprio universo auto-existente-referente acabam tendo que realizar suas ideias da forma que podem, conseguem. O que não deve servir de muleta para justificar certos resultados.
    É recorrente e válido saber, que a concretização de um projeto, depende do entusiasmo de um grupo de pessoas, no contexto prático das habilidades determinadas pela função que cada um, naturalmente, na sua estruturação prévia, entende ocupar, possuir para o andamento progressivo do projeto.
    Penso a realização de um projeto, independentemente da linguagem, como uma alquimia de habilidades/talentos, que precisam se acrescentar.. Sim, acrescentar! Porque muitos talentos juntos, sem a tal percepção holística do propósito a que estão canalizando sua energia, pode gerar perdas para o que realmente vale de tudo isso: o estar junto, experimentando uma linguagem que se faz eterna.
    Fatiar em definição as partes – em meu perceber e praticar – faz perder (muitas vezes) o que havia de mais precioso, o estar junto, dando vida e continuidade a nossas soma de expressões e potenciais: arte nossa de cada dia.
    Toda obra realizada sem uma relação mercantil, pertence a todos os seus envolvidos.
    Se houver fatia, ou formato de como ser, não terá sido de fato. Mas sim um fato sido.
    O imaginário não tem dono. E o mito só existe porque tem quem o conte, o difunda.
    Diferente do diretor do filme, eu sei escrever projeto, o que me permitiu viabilizar muitas das minhas percepções e estágios de observação-intuicão-interação com o mundo, linhas de realidade (s). Se Glauber diz que “o cinema são todos os caminhos”. Imagino que sua realização precisa somente de um: cumplicidade. O resto é o motivo para a experiência que se produz em sentido (sen – tido) – para quem com amigos ao lado não se afoga, muito menos nada para o precipício, cinema/linguagem..
    Nada (o) disso.. exercício vivo (a).

    Rimas Inoar do Cinema

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