Cinemateca Paraense – Entrevista para o blog Curta em Circuito

Ramiro Quaresma é belenense, de 75. Além de tocar o blogCinemateca Paraense, Ramiro é documentarista, publicitário, pesquisador e grande parceiro.

Como surgiu o interesse em registrar um pouco da história do nosso cinema no Cinemateca Paraense?

A paixão pelo cinema é o princípio de tudo, mas pesquisar o cinema vai muito além de ser um cinéfilo, é um processo de compreensão da evolução do cinema enquanto indústria, onde a transformação estética é sempre uma revolução científica. Passei a ler sobre cinema, e não simplesmente assistir filmes. De 2006 a 2008, trabalhei no Museu da Imagem e do Som do Pará e comecei a pesquisar o cinema paraense pra gerar projetos pro Museu, catalogar e difundir seu acervo. Nesse museu, elaborei três projetos fundamentais pra memória do cinema paraense: o Laboratório de Películas do MIS, onde foram adquiridas moviolas pra identificar o acervo; o Projeto de restauro dos filmes em B/P do cineasta Líbero Luxardo, pela Cinemateca Brasileira; e o Centenário deste cineasta.

Fiz um estágio na Cinemateca Brasileira e também participei do 26º Congresso da Federação Internacional de Arquivos de Filmes, realizado pela Cinemateca Brasileira em São Paulo, onde entrei em contato com instituições mundiais de preservação de audiovisual, em que se discutiam os rumos dessa tipologia de acervo. A idéia de que a preservação passa pela difusão da informação vem dessa experiência. De que adianta preservar sem que a sociedade tenha acesso a esses documentos audiovisuais? Como saí do MIS sem conseguir implementar esse ideal de compartilhamento do acervo, resolvi fazer isso como pesquisador independente.

Belém já viveu seus anos de glória no que diz respeito ao cineclubismo. Estamos presenciando um revival, ainda que tímido?

Nunca participei de cineclubes, mas acho um ambiente muito importante pra formação cinematográfica. Nos anos 1980, quando virei espectador assíduo, os cineclubes ou não existiam ou eram sociedades secretas. O cinema então foi uma experiência artística solitária, mas sei que dos cineclubes é que surgiu a concepção de Cinemateca nos anos 1950. O acervo pessoal de André Bazin, por exemplo, e de seu grupo de amigos, futuros cineastas franceses com Truffaut e Godard, deu origem a Cinemateca Francesa.

No Brasil, o cineclube do MAM, organizado por Paulo Emílio Salles Gomes, foi a raiz da Cinemateca Brasileira. Pedro Veriano e sua geração poderiam ter feito em Belém processo semelhante, mas ficaram apenas assistindo fitas e silenciosamente vendo-as sendo perdidas. Pedro Veriano, inclusive, relata que enviou películas pra Paulo Emílio guardar na primeira Cinemateca, que foi quase totalmente destruída por um incêndio. O pesquisador de cinema, em contraponto ao cinéfilo, deve gerar conhecimento e preservar, na medida do possível, o material fílmico. Isso deveria ser mais discutido nos cineclubes, não mais “Deus e o Diabo na Terra do Sol”.

Qual a importância da cultura cineclubista em um cenário audiovisual em expansão?

Acredito que ausência de uma instituição como uma cinemateca, pra servir de centro de pesquisa, exibição e formação, dá espaço pra que os cineclubes se multipliquem. Penso que um cineclube dever surgir de forma espontânea, estão praticamente impondo a certas comunidades a formação de cineclubes, muitas vezes como palanque político. Abrem debates cinematográficos pra fazer política, não tem nada de cinema nisso. Acompanho as ações da APJCC, eles são o principal cineclube do Pará atualmente. As sessões comentadas e os cursos da Caiana Filmes são outro centro bem interessante de formação.

O cinema é uma obra de arte pra ser exibida em grandes telas pra grandes platéias, mas sua mágica é individual, interna, cinema pra mim é pensamento e catarse. Sobre a expansão citada, acredito que a grande vanguarda do cinema atualmente está no documentário, em todas as suas formas e tendências. Nesse sentido, o Amazônia Doc é o grande evento de cinema aqui no Pará. A internet é um bom caminho pra se discutir essas questões, e é o caminho que optei com o blog Cinemateca Paraense.

 

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