Filme do Mês// Agosto – 2021 “Cadê o verde que estava aqui?” (2004) de Biratan Porto

FILME DO MÊS / AGOSTO//2021

CADÊ O VERDE QUE ESTAVA AQUI (2004) de Biratan Porto.

Em Cadê o verde que estava aqui (2004), de Biratan Porto, a questão ambiental é o tema principal: a natureza se volta contra o homem, retirando todo o verde de uma cidade fictícia, onde a política é conivente com uma economia predatória que destrói a cobertura verde da cidade e a população paga o preço pelo descaso. O arco-íris sem a cor verde é uma metáfora fantástica e simbólica ao caos ambiental, obviamente destinada ao público infantil mas que não se restringe a esse público. A questão é resolvida por uma entidade mágica e pelo plantio de novas árvores. 

Segundo Biratan (2021): 

“A ideia de fazer a animação nasceu junto com a publicação do livro Cadê o Verde que estava aqui? Dentro do projeto que encaminhamos para o edital de cultura do Banco da Amazônia. A própria história do livro nos animou a fazer uma animação.”

Sobre a produção da animação continua:  

“A Central de Produção, dirigida pela Márcia Macêdo foi contratada, depois que o projeto foi aprovado no edital do Banco da Amazônia, para produzir a animação. Contratamos a equipe da AnimaGraphic e em 8 meses concluímos a animação. Fiz o roteiro e direção. O ano de produção foi 2004.”

Biratan é um chargista muito conhecido em Belém e essa foi sua primeira incursão audiovisual, e uma das primeiras animações paraenses, e fez parte de algumas mostras de cinema infantil regionais e nacionais. Uma base literária, o livro do próprio Biratan, com temática relativa à preservação do meio-ambiente e a práticas sustentáveis fortaleceu a estratégia de captação de recursos da animação e seus desdobramentos educativos e pedagógicos :

“o DVD da animação foi lançado em 2004. Projetamos em várias salas: auditório do Banco da Amazônia, sala de exibição do Centur, inúmeras escolas de bairro da cidade de Belém e Interior. E na participação única em festival, foi premiado em segundo lugar no Festival Nacional AnimaSerra, no Rio de Janeiro. Creio que em 2005.”

A animação em 3D, uma grande novidade na época, reconfigurou o traço de cartum do Biratan e foi uma opção arriscada para a finalização da animação, e demandou uma especialidade em CGI que Belém ainda estava dando os primeiros passos. Diferente das outras animações do início dos anos 2000 que foram realizadas com as Bolsas de Experimentação do antigo Instituto de Artes do Pará, Cadê o verde que estava aqui? foi financiado com a Lei Rouanet, com patrocínio do Banco da Amazônia, para a produção e realização, e com a Lei Semear para a divulgação, com patrocínio da Amazônia Celular. 

FICHA TÉCNICA

CADÊ o verde que estava aqui. Direção e Roteiro: Biratan Porto. Produtora: Central de produção. Produção executiva: Márcia Macêdo. Produção: Luciana Martins. Coordenação técnica: Nonato Moreira. Trilha sonora: Luis Pardal. Animação: Animagraphic. Elenco: (vozes) Estar Sá, Ailson Braga, Adriano Barroso, André Mardock, Mário Filé, Marina Paz Barroso. Belém. 11 min. Cor. Son. Animação em 3D. Realizado com recurso da Lei Semear / Governo do Pará.

FRAMES

I Seminário Internacional de Acervos Audiovisuais Regionais | Semana Amilar Alves 2021

A preservação do patrimônio audiovisual local é um tema de grande importância social, política, histórica e cultural. Com mobilização de diversos setores da sociedade civil e do poder público, em 2019 foi elaborado um projeto para restauro de parte do acervo do Museu da Imagem e do Som de Campinas.

O chamado “Plano de Gestão de Riscos e Restauro do Acervo Campineiro do MIS-Campinas” foi contemplado em Edital do Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo (ProAC) e abrange em 2021, além do restauro em si, o Seminário Internacional Preservação de Acervos Audiovisuais Regionais, que ocorrerá nos dias 28 e 29/04/2021, de forma remota. 

O evento conta com o Apoio do Centro de Análise do Cinema e do Audiovisual (CENA), através da profa. Dra. Alessandra Meleiro, coorganizadora do evento, juntamente com Rafael de Luna Freire e Ramiro Quaresma.

O objetivo do Seminário é compartilhar experiências, refletir sobre dificuldades comuns e planejar ações conjuntas e colaborativas no âmbito de iniciativas de preservação de acervos audiovisuais regionais.

Serão abordados tópicos como Metodologias e estabelecimento de fluxos de trabalho, Relação com os poderes públicos e alternativas de captação de recursos, Formação e atualização de pessoal, Estratégias de difusão e conscientização, Aquisição e manutenção de equipamentos e insumos, Fomento à pesquisa e parcerias com instituições de ensino, e Dilemas para continuidade e prosseguimento dos projetos.

Programação

28 de abril de 2021

13h15

ABERTURA

Alexandre Sônego (MIS Campinas) e Danilo Dias de Freitas (CTAv Campinas)

13h30

Deputado Federal Tadeu Alencar (Presidente da Frente Parlamentar Mista em Defesa do Cinema e Audiovisual Brasileiros)

14h00

MESA Criando pontes entre acervos regionais

Albertina Malta (Fundação Joaquim Nabuco-PE), Alessandra Brum (UFJF), Débora Butruce (ABPA) e Ramiro Quaresma (Cinemateca Paraense).

Mediação: Ramiro Rodrigues (Semana Amilar Alves e ICine)

15h30 – PALESTRA New Buildings, New Pathways: Towards Dynamic Archives in Latin America and The Caribbean, com Juana Suarez (MIAP – New York University)

(com tradução simultânea em português)

Debatedor: Rafael de Luna Freire (UFF)

Apresentador: Ramiro Rodrigues (Semana Amilar Alves e ICine)

29 de abril de 2021

13h às 14h30

Masterclass com Tobias Golodnoff “USE = VALUE”

(com tradução simultânea em português)

CEO da FASTFORWARD – Empresa dinamarquesa de digitalização de acervos cinematográficos, responsável pela digitalização dos acervos das emissoras BBC, SVT, RTÈ, TVR, NISV, NFSA, e de mais de 420.000 horas de conteúdo da Danish Broadcasting Corporation. Secretário Geral da The International Federation of Television Archives (FIAT / IFTA)

Mediação: Alessandra Meleiro (Cena/UFSCar e IC – Instituto das Indústrias Criativas)

Filme do Mês// Abril – 2021 “Acalmia” (2010) de Ana Lobato e Danilo Bracchi

“Acalmia” é nosso registro mais antigo de uma videodança em nosso acervo. A obra é uma parceria entre a cineasta Ana Lobato (in memorian) e o bailarino e coreógrafo Danilo Bracchi. Fazemos uma dupla homenagem com este nosso Filme do mês, para Ana Lobato, professora do curso de Cinema Audiovisual/UFPA e pesquisadora do cinema paraense, que há um ano nos deixou e para o Dia Internacional da Dança (29 de Abril).

ACALMIA. Direção: Ana Lobato. Coreografia e performance: Danilo Bracchi. Direção de fotografia: Marcelo Rodrigues. Edição: Ana Lobato, Nando Lima. Desenho de som: Leo Bitar. Still: Márcio Levy. 2010. Belém-PA.

Sinopse: O corpo ora é acolhido pelo mar, se movimenta no seu balanço, expande e transforma o impulso que recebe, ora se move em sentidos e intensidades distintos dos produzidos pelo fluxo da maré, numa espécie de embate propulsor.

Mostra de Cinema Histórias do Brasil Profundo

Mostra de Cinema Histórias do Brasil Profundo

Imagens do N e do CO no cinema brasileiro / 27/03/2021 – 15h

Ramiro Quaresma (Cinemateca Paraense) é Doutorando em Artes/ Cinema EBA-PPGArtes – UFMG (2019). Curador e pesquisador do cinema paraense com ênfase em preservação do patrimônio audiovisual. Mestre em artes pelo PPGArtes-ICA-UFPA e formado em Comunicação Social – UNAMA. Idealizou há 10 anos o site Cinemateca Paraense (cinematecaparaense.org).

Luiz Carlos de Oliveira Borges (UFMT) é mato-grossense, Graduado em Administração de Empresas na Machado Sobrinho, em Juiz de Fora, MG, mestre em cinema pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, doutorando no Programa de Pós Graduação em Sociedade, Desenvolvimento, Cooperação Internacional do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinar da Universidade de Brasília. É produtor de eventos, curtas e cine-clubes. Idealizador, produtor e curador do Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá que se encontra em sua 20ª edição.

Manifesto dos trabalhadores da Cinemateca Brasileira

Imagem: Ramiro Quaresma

A Cinemateca Brasileira segue fechada desde agosto de 2020, quando representantes do Ministério do Turismo retomaram as chaves da Organização Social que a geria. Desde então, não há corpo técnico contratado, o acervo segue desacompanhado e não há qualquer informação sobre suas condições. Por esse motivo, lançamos um alerta acerca dos riscos que correm o acervo, os equipamentos, as bases de dados e a edificação da instituição.

A possibilidade de autocombustão das películas em nitrato de celulose, e o consequente risco de incêndio frequentemente recebem mais atenção da mídia e do público. A instituição enfrentou quatro incêndios em seus 74 anos, sendo o último em 2016, com a destruição de cerca de 500 obras. O risco de um novo incêndio é real. O acompanhamento técnico contínuo é a principal forma de prevenção. A situação do acervo em acetato de celulose também é crítica. O conjunto está estimado em torno de 240 mil rolos, e corresponde à maior parte do acervo audiovisual da Cinemateca Brasileira. Tal acervo demanda temperatura e umidade constantes e, na falta de tais condições, sofre aceleração drástica de seu processo de deterioração. O acompanhamento técnico e as demais ações de preservação, inclusive processamento em laboratório, também são vitais.

Nos últimos meses tem chovido fortemente na região, o que pode provocar interrupção de energia. Não há como saber se existe gerador em funcionamento e se os sistemas de climatização funcionam. Quando a equipe técnica ainda estava atuante, eram frequentes ocorrências de alterações no sistema, de modo que eram necessários ajustes nos equipamentos. As chuvas também consistem em forte ameaça a uma parcela do acervo, sobretudo a documentação em papel, o acervo fotográfico, de vídeo analógico e digital. As infiltrações previamente conhecidas podem ter se alastrado, sem a limpeza de calhas e o devido acompanhamento da equipe. Em anos recentes, ameaças ao acervo foram sumariamente sanadas pela atuação rápida da equipe, como o advento de uma disseminação súbita de fungos, a presença de roedores, as infiltrações, os vazamentos, os problemas nos equipamentos climáticos e a autocombustão de um rolo de nitrato destinado ao descarte. A enchente de fevereiro de 2020 é um exemplo trágico dessas ameaças e do imperativo da existência de uma equipe pronta a agir.

Nesse cenário, também apresenta-se a questão do Laboratório de Imagem e Som, um dos mais completos laboratórios de audiovisual do mundo, com maquinário especializado para processamento fotoquímico e digitalização de películas e diversos formatos de vídeo analógico. Há 10 anos chegou a ser considerado pela Federação Internacional de Arquivos de Filmes (FIAF) o terceiro laboratório mais produtivo mundialmente – atrás de duas instituições de referência nos Estados Unidos. A manutenção do maquinário é complexa, pois reúne equipamentos históricos e tecnologia de ponta, demandando equipe altamente especializada, cuja ausência acarreta comprometimento e perda de equipamentos muitas vezes insubstituíveis. A paralisia atual tem como consequência a perda de décadas de trabalhos minuciosos e vultosos recursos públicos investidos.

Para além da conservação de seu acervo físico, a Cinemateca Brasileira promove a pesquisa e a difusão do audiovisual no Brasil. A partir de transmissões online e do Banco de Conteúdos Culturais (BCC), parte do acervo estava disponível à sociedade. Com o processamento das obras do Depósito Legal e a prospecção e catalogação da produção audiovisual na base Filmografia Brasileira (FB) foi possível manter o mapeamento histórico de uma importante parcela do patrimônio audiovisual brasileiro contemporâneo da nossa atividade audiovisual. O BCC está fora do ar desde outubro de 2020, devido à carência de cuidados básicos com o data-center e outros repositórios de dados alocados no parque da própria Cinemateca; e seguem acumulando informações não processadas de Depósito Legal, colocando em risco esse procedimento censitário tão raro em outros países.

O cumprimento da missão social da instituição é impossível na atual situação de abandono em que se encontra, sem o importante trabalho de difusão que fomenta uma cadeia de pesquisa, exibição e produção audiovisual. Hoje, após quase oito meses sem treinamento das equipes de limpeza, segurança e bombeiros, sem técnicos especializados para acompanhamento do acervo, vivemos uma tragédia: a morte silenciosa de milhares de documentos únicos, filmes domésticos, cinejornais, telejornais, obras do cinema e da televisão. Tememos pela morte da memória social, histórica, cultural, cinematográfica e audiovisual brasileiras. A Cinemateca Brasileira é uma instituição complexa, que demanda constância de recursos e atuação de sua equipe técnica especializada. Perante o quadro atual, pleiteamos o imediato retorno dos trabalhadores a seus respectivos postos de trabalho, cuja experiência é crucial para a recuperação da instituição.

Diante deste quadro preocupante, solicitamos esclarecimentos à Secretaria Nacional do Audiovisual (SAv) sobre a efetivação do plano emergencial, anunciado pelo secretário especial de Cultura Mário Frias em dezembro de 2020. Reivindicamos ainda o pronto lançamento do edital prometido desde julho de 2020 para seleção da nova Organização Social responsável pela gestão da Cinemateca Brasileira, assim como a garantia dos recursos necessários para dirimir problemas decorrentes da suspensão dos trabalhos, para o pleno funcionamento da instituição e para a construção de uma solução perene para a instituição.


Aproveitamos para agradecer o apoio da cadeia do audiovisual e de todas as pessoas, organizações, movimentos, e instituições brasileiras e internacionais que seguem conosco.


Sem trabalhadores não se preservam acervos.


Trabalhadores da Cinemateca Brasileira
São Paulo, 12 de abril de 2021

Filme do Mês// Março – 2021 “Muragens” (2009) de Andrei Miralha

 

Em 2008, Andrei Miralha em parceria com o poeta Marcílio Costa, elaboram o projeto do curta Muragens – Crônicas de um Muro, que é contemplado no edital do IAP. O filme faz uma interferência ficcional num recorte urbano real, o entorno do muro dos fundos do cemitério da Soledade em Belém do Pará. Apresentando situações diversas, pequenas crônicas, nas quais o devaneio, o Non Sense, o caráter fictício da animação, marcam a contação das mesmas. O processo de criação foi diferenciado, pois a proposta aqui era mais experimental, tanto na concepção, quanto na estrutura narrativa e estética. 

A criação do roteiro partiu da observação da rua Dr. Moraes, por onde se estende o muro dos fundos do cemitério da Soledade, em Belém, onde uma feira é montada às quintas-feiras e desmontada aos domingos à tarde. Para pesquisar o local, foi organizado um encontro, entre os desenhistas do projeto, para desenhar o local da pesquisa num dia de feira, e além disso interagir com as pessoas e o lugar. Outro registro importante foi a elaboração de um relato poético de Marcílio Costa (ex-morador do perímetro), assim como poesias sobre momentos e aspectos da paisagem urbana, registros em fotografias e vídeos. 

O curta apresenta desenhos a lápis, em que cada personagem tem uma cor de traço diferente, mas são vazados, ou seja, sem preenchimento interno de cor. Não há um cenário desenhado em perspectiva. Em cena, vemos apenas uma imagem da textura real do muro de trás do cemitério da Soledade como background onde os personagens se deslocam sempre lateralmente, da esquerda pra direita ou da direita pra esquerda. O filme é dividido em 6 capítulos que apresentam fragmentos temporais daquele espaço. É como se o espectador estivesse parado de frente para o muro observando a vida passar em devaneios poéticos.

A equipe de produção se reunia nas tardes de sábado daquele ano, no Laboratório de Animação do IAP, que já contava com mesas de luz para animação (mais à frente, falo sobre a criação deste espaço). No início da produção, foi publicada uma chamada no jornal informando que o projeto Muragens estava recebendo pessoas interessadas em experimentar a animação com possibilidade de participar da produção do curta. Foram convidados também alguns desenhistas, conhecidos do diretor, para virem experimentar o desenho animado. 

Cerca de 25 pessoas passaram por essas reuniões e experimentações para iniciantes, mas apenas 4 artistas foram contratados para integrar a equipe principal de produção do curta Muragens, desenhando algumas cenas, como: Geíza Santos, Everton Leão, Diogo Lima e Ítalo Ferreira. Outros artistas participaram nas animações secundárias de ciclos de caminhadas como Pedro Rogério e Vince Souza. Boa parte do curta foi feita em animação 2D tradicional, usando mesa de luz e algumas cenas, criadas por Andrei Miralha e Otoniel Oliveira, foram produzidas em mesa digitalizadora com caneta óptica. Nesse momento, esse tipo de animação 2D digital, que não utiliza os meios físicos para criação dos desenhos, já começa a ganhar espaço. O uso desse equipamento, tornou a produção mais prática, o que reduziu tempo de produção e até mesmo de correção.

A primeira exibição do filme foi uma projeção no próprio muro de trás do cemitério da Soledade, e reuniu a equipe de artistas do filme, os feirantes do local e o público em geral. Posteriormente foi exibido em diversas mostras no Pará e no Brasil, além do Festival Anima Mundi, 2009 (Rio de Janeiro e São Paulo), Festival Monstra (Portugal), Festival Animasivo (México), e recebeu prêmio de Melhor Curta de Animação no FestCineAmazônia (Rondônia) e Melhor Curta no Festival Noite com Sol (Belém). (Andrei Miralha)

FICHA TÉCNICA

MURAGENS, crônicas de um muro. Direção: Andrei Miralha. Co-Direção: Marcílio Costa. Direção Técnica: Nonato Moreira. Trilha Sonora: André Moura. Animação: Diogo Lima, Ítalo Ferreira, Pedro Rogério, Vinicius Souza, Geíza Santos, Rafael Reis, Otoniel Oliveira, Everton Leão e Andrei Miralha. Belém. 2009. 12 min. Cor. Son. Animação em Stop Motion e 2D. Realizado com recursos da bolsa de criação, pesquisa e experimentação do IAP.

SINOPSE

Muragens- Crônicas de um Muro faz uma interferência ficcional num recorte urbano real, o entorno do muro dos fundos do cemitério da Soledade em Belém do Pará. Apresentando situações diversas, pequenas narrativas – crônicas – nas quais o devaneio, o Non Sense, o caráter fictício da animação marcam a contação das mesmas.

TRAJETÓRIA

  • Mostra Competitiva do ANIMA MUNDI 2009- Rio de Janeiro-Rj e São Paulo-Sp
  • Apresentado na Mostra Especial Anima Mundi no MONSTRA 2010- Portugal Apresentado na Mostra Especial Anima Mundi no ANIMASIVO 2010 – México
  • Prêmio de Melhor Animação no FestCineAmazônia em 2011-Porto Velho- RO
  • Prêmio de Melhor Curta de Ficção no Festival “Noites com Sol” em 2011- Belém-PA
  • Exibido no programa Animania (nº 176) da Tv Brasil em abril/ 2010 e janeiro/2011
  • Exibido no Programa Moviola da Cultura da Tv Cultura do Pará em 2009
  • Exibido no Curta Cultura da Tv Cultura do Pará em 2011
  • Exibido no III Encontro Sesc Nacional de Cinema de Animação 2019- Paraty-RJ

Filme do Mês// Fevereiro – 2021 “Meu tempo menino” (2007) de Emanoel Loureiro

Essa pequena joia do cinema paraense realizada pelo santareno Emanoel Loureiro é o nosso Filme do Mês de fevereiro de 2021. Realizado na cidade natal do realizador com recursos próprios e lançado em 2007 conta em seu elenco com atores não-profissionais em excelentes atuações. O roteiro segue o dia de um garoto que vai do interior vender picolé na cidade e se envolve em pequenas aventuras. Simples e preciso, amazônico de fato, como poucos filmes realizados no estado do Pará conseguiram ser. Segue o filme para apreciação assim como um pequena entrevista com o realizador.

Como surgiu a ideia para o roteiro de Meu Tempo Menino e como foi a pré-produção?
EL: A criação do enredo desse meu primeiro curta foi logo após escutar a música Tempo Destino do Nilson Chaves. Inspirado pela letra, saí caminhando pela orla de Santarém e todos os “atores” e o “mis en scene” passaram por mim nessa caminhada. Empolgado, fui convidando essas pessoas para participarem do filme. Toda a sorte de desafios apareceu. Nenhum patrocínio ou apoio foi conseguido. Não consegui montar uma equipe de filmagem. Assumi a responsabilidade sozinho, juntamente com um amigo. Lidar com não-atores até foi tranquilo nesse caso, pois todos estavam muito entusiasmados.
Quais os maiores desafios de realizar um filme inteiro em Santarém (PA), com elenco e produção locais?
EL: O roteiro foi feito às pressas pois não perder a oportunidade, então eu praticamente escrevia uma cena a noite para fazê-la no dia seguinte. A ausência de atores profissionais e de uma equipe profissional na época, freiava o andamento das filmagens. Tudo era muito lento.
Como o filme repercutiu em mostras e festivais e o impacto dele na sua trajetória de realizador?
EL: Esse curta teve ótima aceitação no Norte/ Nordeste e marcou sensivelmente minha estreia como realizador. Principalmente, por ter sido uma ponte de ligação de um diretor interiorano com o país, numa época em que a internet engatinhava.

Cine Olympia, Ópera e Líbero Luxardo – A Resistência dos Cinemas de Rua [Artigo]

Cine Olympia, Ópera e Líbero Luxardo – A Resistência dos Cinemas de Rua

Por Beatriz Cardozo

Olympia

​O Cine Olympia é considerado o cinema mais antigo em ativação no Brasil. Fundado em 1912, por Antônio Martins e Carlos Teixeira, donos do Grande Hotel e Palace Theatre, atualmente o hotel Princesa Louçã. Com o seu estilo arquitetônico marcado pelo período, o Ecletismo (a mistura de vários estilos como neoclássico, barroco e outros).Era o ponto de encontro da elite na época e próximo de outro ponto, a Praça da República, com 500 lugares e a sua entrada pela lateral.

​No final dos anos 30, a empresa Teixeira & Martins não conseguiram manter o cinema e assim fez a sua venda. O último dono do Cine Olympia foi o Grupo Severiano Ribeiro, atualmente o Kinoplex, comprado nos anos 40 pelo Cearense Luís Severiano Ribeiro. Na década de 60, o Olympia passou por uma reforma completa, feita pelo arquiteto paraense Ruy Meira, que buscou colocar elementos da arquitetura moderna e também adicionando ar-condicionado e poltronas estofadas, para melhorar a qualidade do local, entretanto fechou as suas portas em 2006. Com o apoio de artistas e da população paraense, no mesmo ano, a Prefeitura de Belém, na gestão de Duciomar Costa, fez um contrato em que o Olympia passaria ter uma gestão municipal, a FUNBEL (Fundação Cultural de Belém) seria responsável por reabrir o espaço e cuidar da parte das reformas.

​Com a entrada gratuita, os frequentadores procuravam assistir filmes nacionais e internacionais, alternativos ou de Hollywood, com os festivais que se dedicavam passar diversas obras com os variados temas. A última vez que eu fui no Cine, fui assistir ao filme “Me Chame Pelo Seu Nome” do diretor italiano, Luca Guadagnino que estava sendo exibido no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, em 2019.

​Infelizmente o Cine passou por um abandono de 14 anos de gestão com o Duciomar Costa (2005-2014) e Zenaldo Coutinho (2014-2020), com as instalações caindo aos pedaços e até mesmo colocando em risco a vida de frequentadores e funcionários. Espero que com a gestão de Edmilson Rodrigues, com a participação do historiador paraense Michel Pinho, que está como presidente da FUNBEL, o Cine Olympia passe por uma reforma de qualidade e possa voltar a funcionar com segurança depois da vacina.

Ópera

​O segundo cinema mais antigo em funcionamento em Belém, o Cine Ópera fica localizado na Avenida Nazaré, de frente para o CAN e a Basílica Santuário de Nossa Senhora de Nazaré. Ele fica entre o armarinho O Mandarim, um restaurante e lanchonete chamado Sabor Marajoara. É conhecido pela exibição de filmes pornográficos, desde da década de 80 e com apenas uma mudança, no período da Semana Santa, a exibição de filmes religiosos.

​Antes de funcionar o Cine Ópera, existia o Theatro Coliseu, construído em 1941, inciado por Félix Rocque, com o sócio, o comerciante de origem libanesa, João Jorge Hage, o seu irmão mais novo, Elias Jorge Hage e a sua esposa, Joana Hage fundaram a empresa Irmãos Hage LTDA, em setembro de 1959, o objetivo do negócio era trabalhar na área de diversão. A inauguração do Cine Ópera foi em março de 1961, para a estreia do cinema foi exibido o filme alemão “Noites dos Papagaios Verde” de 1957.Com apenas uma sessão para as autoridades, a impressa e etc.

​O local era equipado com 1.500 lugares, mezanino e piso de taco. Os filmes eram exibidos por meio de dois projetores a carvão. Atualmente, o piso é de cerâmica, desativação do banheiro feminino, a utilização de DVD e um projetor de datashow para a exibição. Antes da programação pornográfica, o cinema se destacava pela exibição de filmes de origem europeia, asiática e brasileira, o que me lembra o cinema Líbero Luxardo Já na década de 70, o comando do Cine volta para os irmãos Hage, com a influência da nova distribuidora de filmes, Centerfilmes, a partir dos anos 80, liberados pela Ditadura Civil Militar passaram a exibir filmes pornográficos, aumentando o seu público. A maioria do público que frequenta o local são pessoas não cis e hétero, portanto são gays, bissexuais e travestis, no caso das travestis e dos michês (homens que fazem programa, não são necessariamente gays) que trabalham com o programa. Uma forma das pessoas terem o seu espaço de liberdade, sem sofrer nenhum tipo de violência ou comentários negativos, já que majoritariamente dos frequentadores não podem “sair do armário”.

A primeira vez que eu fui no local foi em 2019, para assistir uma defesa de mestrado da Salma Nogueira, que utilizei como fonte para escrever esse texto. O cinema se encontra em venda, mas continua ativo, não durante a pandemia e duas igrejas evangélicas já quiseram comprar o local. Quem é responsável pelo local é o Luiz Hage, neto de um dos irmãos Hage.

Líbero Luxardo

​O último cinema de rua que eu vou falar é o Líbero Luxardo, que foi inaugurado em 1986, no prédio da Fundação Cultural do Pará – FCP, que fica localizada na Gentil Bittencourt, em Nazaré. Com o objetivo na difusão do cinema nacional e internacional. Com 86 lugares, poltronas estofadas, caixas de som, amplificadores e outros. É o cinema de rua mais novo comparado com os dois que já citei e também o que eu mais frequento, por ser mais perto de casa e da faculdade. Os ingressos custam 12 reais a inteira e 6 reais a meia. O nome é uma homenagem para o cineasta paulista Líbero Luxardo (1908-1980) que produziu muitos filmes sobre o cotidiano amazônico.

​Faço esse texto para lembrarmos desses locais com bastante carinho e importância na formação da História do Cinema em Belém, muitos dos nossos avôs, tios, pais e parentes antigos frequentaram esses locais, até mesmo eu que nasci no final dos anos 90, frequentei e frequento. Com os cinemas dentro dos shoppings, o consumo da sétima arte se torna difícil, os ingressos são caros, mesmo com a meia para os estudantes, a gratuidade para idosos e deficientes, fora os alimentos como a pipoca, refrigerante e guloseimas. Os cinemas de shoppings dão um foco maior para os filmes blockbusters e enquanto os cinemas de rua focam em obras independentes, até mesmo é uma questão acessível para o público sobre o preço e a importância da democratização da sétima arte. Nada melhor que pegar um cinema no final de tarde para conhecermos novos universos.

Fontes:
RIBEIRO, S. Cine Ópera – Belém – PA Arquitetura como microcosmo de memórias subterrâneas – 2019.
​BARROS, Magaly Caldas; SERRA, Hugo Hage. A Belém da Belle Époque e os roteiros geo-Turísticos como instrumentos de educação patrimonial. In:Revista Formação, v. 25, n. 44, jan-abr/2018, p. 209-239.

AUTORA

Beatriz “Beatrovs” Cardozo, natural de Belém do Pará, estudante de Licenciatura em História e pesquisadora nas áreas de Patrimônio Histórico e Cultural, Antropologia Cultural e História Contemporânea. Criadora do projeto Cultura Sem Fronteiras, fala sobre Política com toques de Cultura e Artes.

Links:  https://www.instagram.com/beatrovs

Canal do Cultura Sem Fronteiras: https://www.youtube.com/channel/UCPlh-TF7w_V8CnqwjuxW89A

Filme do Mês// Janeiro – 2021 “Léguas a nos separar” (2018) de Vitor Souza Lima

Quando surgiu a ideia do filme? Como foi o desenvolvimento e a repercussão?

A existência de cidades homônimas sempre me provocou certa estranheza. Quando percebi a existência de dezenas de territórios homônimos entre Portugal e o Pará, me deu vontade de fazer algo sobre isso, mas que focasse na visualidade desses lugares. Em quais pontos geográficos essas cidades se encontram visualmente e poeticamente?

Ao mesmo tempo, durante o processo de pesquisa e filmagem, a distância entre essas “cidades-irmãs” me suscitou questões como saudade, distância, solidão. No meio do processo minha avó faleceu e eu tinha acabado de e terminar um relacionamento. Então essas questões estavam muito presentes.

De modo que o filme é menos sobre a relação histórica ou social entre esses territórios e mais sobre uma relação muito íntima e pessoal comigo mesmo.

(Eu tenho ainda algumas questões pessoais com o filme, por isso ele não circulou por aí. A única exibição em festival foi no AmazoniaDoc em 2019.

 

PARTICIPAÇÃO EM FESTIVAIS:

AMAZÔNIADOC 6

MOSTRA AMAZÔNIA LEGAL:

Melhor Curta-metragem

 

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FILMES DA DÉCADA – CINEMA PARAENSE

Em 2020 nosso projeto completou dez anos de pesquisa do cinema e do patrimônio audiovisual paraense e, para fechar o ano, elaborou uma lista dos filmes e produções audiovisuais mais importantes da década, de 2011 a 2020, em nosso estado. São 10 filmes que consideramos obras obrigatórias para a compreensão desta década do cinema paraense.
O ano foi difícil para o setor audiovisual, muitos projetos não foram lançados por conta da pandemia, outros seguiram por festivais virtuais, e a internet foi a salvação e o grande desafio. Nunca foi consumido tanto produtos audiovisuais on demand como no ano que se acaba, e nunca foi tão necessária. As salas de cinema fechadas fizeram de 2020 o pior ano da história do cinema, mas seguimos produzindo, pesquisando e criando cinema.
A esperança de que em 2020 a PL 417/2019 (Lei do Audiovisual Milton Mendonça, obrigado @criapara) e a Lei Aldir Blanc/ Audiovisual sejam o impulso inicial de uma nova retomada e uma luz, após essas trevas, para o cinema paraense. E mais, um desejo e pedido, que a prefeitura de Belém reative o Edital de Fomento a Produção de Curtas-metragem, tão importante no início dos anos 2000.
A publicação dos Filmes da Década marca também a ativação do nosso portal cinematecaparaense.org e um agradecimento a todos os realizadores, inclusos ou não nesta lista que é apenas um recorte simbólico, que bravamente lutam pelo cinema.
Os filmes da década, de acordo com nossa curadoria, são:
O documentário vencedor do grande prêmio no último Amazônia Doc é um projeto de sensibilidade e coragem. As diretoras conseguem testemunhar e registrar a intimidade de mulheres trans da Amazônia e encadear esse delicado material com uma poética contundente. Sem duvida um dos melhores documentários já produzidos no Pará.
Um filme de estrada feminista e amazônico. Jorane fez um longa-metragem com protagonistas mulheres em uma busca por amor, de Belém até Salinas. Impossível não destacar a cantora Keila Gentil em uma atuação naturalista e vibrante. É o mais recente filme de longa duração feito no Pará depois de um hiato de 40 anos, fato que por si só já o colocaria como um dos grandes filmes paraenses da história. Mas não apenas por isso. Sua edição cria um tempo poético com as imagens úmidas e sem pressa, e a música envolve o espectador numa atmosfera amazônica. É tecnicamente perfeito, humano e levemente selvagem. Um marco.
A webserie musical Sampleados é uma grande homenagem ao brega paraense e suas derivações contemporâneas. Com duas temporadas e episódios especiais a produção já foi vista milhões de vezes no canal da Platô Filmes. Filmado sempre em locações icônicas da capital e com participação de diversos intérpretes em novas versões de clássicos do brega pop. A produção das faixas de Will Love é um trunfo do projeto, encadeando o roteiro com as musicas.
A estrutura narrativa, simples a primeira vista, com um off que transita da comédia ao drama de forma exemplar, é permeada por imagens de arquivo que muito contribuem para a simpatia pela história que o filme conta. Cheio de soluções visuais criativas, fotografia vintage e montagem com um perfeita criação de tempo. O afeto está presente em cada frame dessa pequena obra-prima.
A ilha de Cotijuba é um personagem desse filme de Mateus Moura. Uma história de amor e morte na fronteira entre o real e a encantaria. Realizado de forma colaborativa, entre amigos de sonho, surpreende pela técnica e narrativa humana e social, mostrando uma Amazônia além da paisagem.
A distopia proposta por este experimento cinematográfico de alunos do curso de Cinema e Audiovisual da UFPa é um marco do nosso cinema. Realizado com recursos exíguos em todas as suas etapas de produção, com uma ficha técnica gigantesca de colaboradores e apoiadores, é uma prova de que é possível. Participou de uma série de festivais e mostras por todo o Brasil, ganhando alguns prêmios.